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Correio Braziliense

Luís Lobianco chega a capital com o espetáculo Gisberta

No sábado (2/12), o ator participa de um debate após a peça com o tema "teatro e o gênero: o lugar da fala e o lugar do ator"


postado em 23/11/2017 07:30 / atualizado em 23/11/2017 09:52

Cena do espetáculo(foto: Elisa Mendes/Divulgação)
Cena do espetáculo (foto: Elisa Mendes/Divulgação)

Artista versátil e dono de um carisma impecável para as telas e para os palcos, Luís Lobianco se dedicou por meses para dar vida ao drama de Gisberta, brasileira vítima de uma tragédia impulsionada pela transfobia em Portugal, em 2006. Entre ficção e realidade, a história dela e de tantas outras mostra seus contornos em uma mistura de política, teatro, música e poesia. Em um dos países que mais mata por crimes de transfobia e homofobia, contar a história de Gisberta torna-se imprescindível.

O teatro, a partir dessa perspectiva, se transforma em um importante espaço de reflexão, alerta e memória. A ideia é que o caso se torne conhecido pelo público de maneira sensível, criando a possibilidade de aprender com o passado para modificar o presente. Drama na experiência, humor nas possibilidades, tragédia e redenção no que resta da história real. O espetáculo segue em cartaz na capital até 10 dezembro.

Como foi o processo criativo de um espetáculo que trata de temas tão fortes e importantes? 
Já vinha há muitos anos procurando por uma história forte e que motivasse o suficiente para investigar e levar ao teatro, por meio de um espetáculo solo, uma história que me emocionasse, que me fizesse rir. Num dia de férias, então, quando a princípio eu estaria desligado do trabalho, ouvindo música, me deparei com Balada de Gisberta, na voz de Maria Bethânia, uma composição de Pedro Abrunhosa. Na hora, foi como se sentisse um estalo e fui procurar na internet do que se tratava a música, e então tomei conhecimento da história de Gisberta.


E o interesse específico pelo drama de Gisberta?
Por coincidência, era dia 22 de fevereiro de 2006, quando fazia exatos 10 anos da morte da Gis. Ouvi novamente a música e foi quando tive certeza de que era aquela história que eu queria contar. Imediatamente comecei a procurar parceiros para essa empreitada e também a pesquisar. Por conta dos 10 anos do episódio, havia muitas reportagens em Portugal. Eu me deparei com o processo judicial que cuidava do caso, com relatos jornalísticos da época do crime. E, por fim, entrei em contato com a família da Gis, que prontamente sinalizou com apoio e se colocou à disposição para contribuir com o processo. Nos forneceram informações preciosas, imagens, depoimentos. A partir daí veio a organização dessa pesquisa documental e em seguida se iniciou o processo de construção da dramaturgia na sala de ensaio.


O teatro pode dialogar de maneira eficiente com o público atual? 
O teatro tem por natureza esse diálogo, é intrínseco de sua origem abordar e versar sobre o mundo em que vivemos, apontando desde sempre as grandes questões do ser humano e da sociedade, vide as grandes tragédias e comédias gregas que marcam o surgimento dessa arte. O teatro sempre será contemporâneo, e acredito que levar à cena os temas debatidos e conhecidos pela sociedade atual sempre aproxima o público e contribui para a transformação da sociedade.


Qual a importância do contexto teatral para esses novos públicos?
Nós estamos no tempo e na época de, finalmente, falar sobre identidade, e sobre todos os tipos de identidades, as pessoas hoje querem ser quem elas são, sem se esconder ou se reprimir. E identidade de gênero é um tema urgente. Há 10 anos, por exemplo, não se falava sobre esse tema da forma como falamos hoje. Atualmente, podemos falar com muito mais clareza sobre identidade de gênero, orientação sexual. E sem contar que o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo, daí a atualidade do tema e a importância de falar sobre isso que reverbera no interesse do público.


Como é interpretar uma personagem trans e como você construiu essa personagem?
No caso de Gisberta, desde o início tive como prerrogativa contar a história de Gis através de outros olhares, de pessoas que conviveram com ela, pois sua verdade morreu consigo, afogada no poço do preconceito e do ódio. Então trata-se de várias personagens que surgem a fim de montar um mosaico que se aproxima do que foi a vida da Gisberta. Dou voz a personagens de diferentes matizes, de uma dona de casa paulistana até um homem gay português que era fã de Gisberta, passando por uma transexual sexagenária que a conheceu nos áureos tempos de sucesso. E esta forma de contar para o público é muito próxima de como eu conheci a história da Gis.


Você acredita que atores trans e cis podem e devem interpretar papéis trans para falar a respeito da transfobia? Como fica esse discurso a partir de um ator com identidade de gênero diferente da personagem?
Penso que atrizes e atores trans precisam de reconhecimento, precisam estar no mercado, lógico, mas o teatro também abre espaço para que todos os atores possam viver todas as experiências. A gente estuda e se abre pra isso. Acho que existe uma questão da falta de oportunidade para atores trans muito mais que para os atores cis. No caso da Gis, eu escolhi realizar esse projeto e trabalhei por meses com uma equipe e ninguém recebia nada, a delicadeza do tema não abria muitas portas. O ambiente do teatro é muito difícil, árido, acho que essa responsabilidade da inclusão não deve recair somente sobre os artistas. É importante levar essa questão para as grandes instituições, emissoras, empresas, para os produtores, enfim: espaços que detém mais recursos. Esses locais sim podem criar espaços para artistas transgêneros e inseri-los no mercado.



O espetáculo tem dialogado bem com o público? Como tem sido esse retorno?
Sim, o retorno tem sido extremamente positivo. O público sai emocionado, transformado. E acaba que essa discussão vai para as ruas, a abordagem e as críticas são cheias de entusiasmo e mostram o quanto é importante falar sobre tolerância, compaixão, empatia. Nossas temporadas no Rio aconteceram no centro da cidade, onde há muitas travestis nas ruas, circulando e trabalhando, então não era raro que algumas pessoas dissessem que após sair da peça, passavam a ver essas pessoas com outros olhos. Outra coisa que aconteceu foi que muita gente que não tinha contato com esse universo pôde se aproximar e se aperceber de nuances sobre a transexualidade que até então elas não conheciam. E foi muito comovente ouvir das pessoas trans que assistiram à peça o quanto elas se sentiram representadas, o quanto a peça tem sensibilidade para retratar, através da Gis, a vida de tantas delas.


O espetáculo mistura diferentes linguagens? Podemos dizer que há drama e humor para contar essa história?
O espetáculo tem sim humor, apesar de a história da Gis ser envolta de episódios muito dolorosos, mas durante a pesquisa pudemos perceber que ela era uma pessoa engraçada, com muito bom humor mesmo diante de todas as adversidades que viveu, sobretudo nos episódios referentes à infância, porque sim, nós contamos a infância e adolescência da Gis e isso graças à família, e considerei importante que o humor pudesse estar em cena até mesmo como uma forma de aproximar da veia cômica que marca meu trabalho. O humor, nesta peça em especial, amplia a humanidade da nossa personagem, cria uma empatia com o público e aprofunda o quanto foi trágico o horror que a vitimou. Sinto que quanto mais as pessoas riem no início do espetáculo, mais elas choram ao fim. Misturamos além de textos fictícios, alguns momentos poéticos, relatos judiciais, como o da autópsia, textos jornalísticos e também abrimos espaço para canções. Trazemos para o público as músicas que Gis gostava e cantava em suas apresentações. São várias as linguagens.


Que diálogos você busca com a sua produção teatral em geral?
Eu me reconheço hoje como um ator criador, gosto muito de ser dono das minhas ideias e criar plataformas pra fazer o que gosto e da forma que eu gosto. Na Gisberta, por exemplo, apesar de todas as dificuldades, eu consegui trazer para este projeto as pessoas que eu mais confiava e trabalhamos num esquema totalmente colaborativo, uma forma de produzir que quero comigo pra sempre. Minha produtora é a Cláudia Marques, é uma produtora envolvida com todos os aspectos desse trabalho, que cuida de tudo, está comigo agora e quero pra sempre, essa forma de produção e realização é algo que quero pra sempre. Acabou essa história de que ator só atua, diretor só dirige, produtora só faz conta. Isso pra gente não cabe mais.


Você pensa na importância social dos temas na hora de criar um espetáculo e escolher os trabalhos que participa?
O teatro em si já traz as questões sociais do seu tempo, já é um caráter do teatro, mesmo quando você ri, satiriza, aponta ou denuncia, o legal é poder falar de coisas que te mobilizam. Eu por exemplo faço um cabaré na Lapa, centro boêmio do Rio, há quase 6 anos, e nesse ambiente eu vejo muitas Gisbertas, eu moro na Lapa, elas fazem parte do meu dia a dia, me interessa falar sobre e com elas, porque estão perto de mim. Querendo ou não, a gente acaba entrando num aspecto mais social sim, mas eu acho que a via é sempre essa: perceber o quanto determinado assunto faz parte da sua vida e desemboca no seu trabalho, sem forçar a barra.


Espetáculo Gisberta
Com Luis Lobianco, de 23 de novembro a 10 de dezembro, no Centro Cultural Banco do Brasil; de quinta a sábado, às 20h e domingo, às 19h. No dia 2/12 (sábado) acontece um debate após a peça com o tema “O teatro e o gênero: o lugar da fala e o lugar do ator”. Dia 9/12 acontecerão duas sessões às 17h e às 19h. Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada) e a classificação indicativa é de 14 anos.
 
 
 
 



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