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Correio Braziliense

Mostra no CCBB apresenta a obra do cineasta africano John Akomfrah

Espectros da diáspora traz diversos filmes do diretor de Gana, John Akomfrah


postado em 26/11/2017 07:32 / atualizado em 26/11/2017 12:50

Cena do filme Sete canções para Malcolm X(foto: Smoking Dogs Films/Divulgação)
Cena do filme Sete canções para Malcolm X (foto: Smoking Dogs Films/Divulgação)

Na Calçada da Fama de Hollywood, astros como Jerry Lewis, Sandra Bullock e Carmem Miranda dividem espaço com artistas que fazem ecoar conquistas e valores adquiridos à força, e que pairam como modelos nas artes, a exemplo de astros como Harry Belafonte e Sidney Poitier. Abrindo brechas para a projeção destes ícones do talento negro, o ator de ascendência nigeriana Paul Robeson (dono de estrela na Calçada da Fama) pode ser visto como um precursor na trajetória do cineasta ganês-britânico John Akomfrah, que tem retrospectiva, em curso, no Centro Cultural Banco do Brasil. Paul Robeson estrelou no cinema inglês, ainda no ano de 1930, Borderline (de Kenneth Macpherson), contemplado na mostra. No filme, limites de desejos, consciência e barreiras raciais sexuais são borrados por integrantes de elite intelectual.

Borderline é referência nas palestras do diretor John Akomfrah, dono de filmografia que inclui títulos como As canções de Handsworth (1987) que, focalizando confrontos e protestos, nos agitados meados dos anos 1980, delimitou a momentânea quebra da opressão da camada negra desfavorecida e posicionou Akomfrah, em votação da seminal revista Sight & Sound, como autor de um dos 50 mais importantes documentários de todos os tempos.

“A crítica ao colonialismo e à supremacia branca estão na raiz do cinema de Akomfrah. Dito isto, não poderia haver nada mais distante de sua obra do que a ideia convencional de cinema militante. Seus filmes não operam como meros veículos de ideias políticas, não se prestam a apenas ilustrar causas. Sua obra está intimamente ligada à pesquisa formal, à experimentação estética, e é animada pelo impulso de encontrar formas novas aptas a expressar múltiplos aspectos da experiência da diáspora”, explica Rodrigo Sombra, um dos curadores da mostra no CCBB.

Revolver em imagens e memórias (voláteis e efêmeras, no média-metragem Tudo o que é sólido) desponta entre as maiores capacidades do cineasta, dado ao reciclar de textos de autores como Homero, Dante, Samuel Beckett e Nietzche, na busca da recriação de identidade cultural para o retrato de imigrantes, como feito em As nove musas (2010). “Akomfrah sentiu na pele as consequências do imperialismo. Ele e sua família emigraram de Gana (África) por conta de perseguições políticas. E, anos mais tarde, experimentariam as consequências do racismo e da opressão policial como imigrantes na Inglaterra. Por mais que recorra à alegoria, às imagens de arquivo, às citações literárias, muito em seu cinema é tradução de uma experiência vivida”, reforça o pesquisador de cinema Rodrigo Sombra.

Ressignificar é preciso

Dados da vida colonial do século 19, por exemplo, saltam em mais de 300 imagens fixas que ganham a releitura de Akomfrah, em meio a um coletivo de artistas, no curta Signos do império (1984). O grupo atribui dinâmica às fotografias, emolduradas, em cena, pelo som de loops com discursos políticos e que incitam a imposição de uma identidade racial. Emblemático na liderança rumo aos direitos civis de negros, o ativista Malcolm X, e o legado dele, no média-metragem Sete canções para Malcolm X (1993). Reconstroem, nas telas, a força de Malcolm, figuras como a viúva dele Betty Shabazz, os diretores de cinema Spike Lee e Toni Cade Bambara, além do fotógrafo dedicado a retratos de negros novaiorquinos James Van der Zee.

Cena do filme Quem precisa de um coração(foto: Smoking Dogs Films/Divulgação)
Cena do filme Quem precisa de um coração (foto: Smoking Dogs Films/Divulgação)


Indicado ao importante prêmio inglês Bafta, o documentário Martin Luther King e a marcha sobre Washington (2013) também será exibido na retrospectiva. Denzel Washington narra a fita que, com imagens dos presidentes Franklin D. Roosevelt e John F. Kennedy, reconta o movimento de 1963 que culminou com a adesão de 250 mil pessoas a um estrondoso protesto norte-americano. Imbróglios causados por assassinatos de pessoas postas sob a custódia policial, na Inglaterra, pontuarão a exibição de Mistérios de julho (média-metragem, de 1991), enquanto no longa Testamento (1988) o balanço da inquietação provocada pelo confronto entre a história oficial do aborto de um socialismo em Gana e as lembranças pessoais de quem passou pelo processo político, reconduzido depois de 1966.

O curador Rodrigo Sombra atenta para o impacto ainda das videoinstalações (inéditas no Brasil) Peripeteia (2012) e Tropikos (2015), facção recente da obra de Akomfrah. “Peripeteia é uma especulação ficcional sobre a vida de dois modelos negros de retratos do século 16 feitos pelo artista alemão Albrecht Dürer. Já Tropikos explora as raízes do colonialismo. Raro, ainda vale destacar Quem precisa de um coração (1991), que está centrado na contracultura negra britânica nos anos 60 e 70”, conclui.

 

 

Três perguntas // Lucas Murari, curador da mostra 

 

A curadoria inclui trabalhos que não foram assinados por Akomfrah. Qual a relevância e o propósito da seleção?
John Akomfrah é um dos fundadores do Black Audio Film Collective (BAFC), um dos principais coletivos artísticos surgidos na Inglaterra. Os membros se conheceram na Universidade de Portsmouth, até o início dos anos 1980. Faziam parte cineastas, roteiristas e produtores. Selecionamos dois filmes inéditos de Reece Auguiste, Cidade do crepúsculo (1989) e Mistérios de julho (1991). Auguiste foi membro do BAFC e é professor na Universidade do Colorado (Estados Unidos). O primeiro filme conta com influentes nomes para Akomfrah e para o coletivo que integrou: Paul Gilroy, um dos sociólogos mais atentos à cultura negra, e Homi Bhabha, autor fundamental da teoria pós-colonial. Na mostra teremos Borderline (1930), de Kenneth Macpherson, clássico da vanguarda britânica e uma das obras pioneiras no cinema na abordagem de relações interraciais, preconceitos, questões de gênero e sexualidade, tratamento de classe. Akomfrah inclusive chega a citá-lo em ensaios e palestras, na perspectiva de uma “outra história do cinema”.


Dentro do ramo da música, com quais artistas Akofram se afinou?
O universo auditivo é uma faceta essencial e diferenciada em Akofram. O nome mais recorrente em suas obras é justamente o designer de som Trevor Mathison, que até assinou a codireção de Tudo o que é sólido (2015). Elementos musicais estão presentes no próprio título de alguns dos seus principais filmes da mostra, como As canções de Handsworth (1986) e Sete canções para Malcolm X (1991).


Há uma corrente de filmes que investe em ficção científica, não?
Merece destaque, no filão, o documentário O último anjo da história (1995), que fala de afrofuturismo, uma estética surgida no século 20, dado à aliança entre ficção científica e perspectivas não-ocidentais, entre as quais o pan-africanismo e o afrocentrismo. A música foi crucial na construção deste imaginário artístico. Akomfrah aborda músicos como o compositor de jazz Sun Ra, George Clinton, que integrou bandas como Parliament e Funkadelic, e Lee “Scratch” Perry, músico jamaicano que propagou reggae e dub. O filme mostra um “ladrão de dados” que viaja através do tempo e do espaço fazendo a conexão entre essas vertentes musicais e o afrofuturismo.
 

 



O cinema de John Akomfrah - Espectros da diáspora
CCBB (SCES Tc. 2 lt 2). Até 10 de dezembro. Ingressos a R$ 10 (inteira). Verifique a classificação indicativa dos filmes.

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