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Correio Braziliense

Uma visita aos estúdios de Bollywood, maior indústria de cinema da Índia

Os números de Bollywood são sempre superlativos e a produção chega a quase dois mil filmes em um ano


postado em 10/12/2017 07:30 / atualizado em 08/12/2017 17:40

 
 
Sala de cinema em Mumbai: romances e comédias são os temas mais abordados em Bollywood(foto: José Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Sala de cinema em Mumbai: romances e comédias são os temas mais abordados em Bollywood (foto: José Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 
Mumbai (Índia) — No meio da selva, nos arredores da tumultuada e poluída Mumbai, meia hora do centro da cidade, surge uma fábrica em larga escala de sonhos. Bem- vindo a Bollywood! Opa! Esses barracões mal acabados, muitos sustentados por centenas de bambus e lonas fazem parte dos estúdios de Bollywood? Esses macacos (rhesus) cruzando a estrada, fazem parte do cenário? Sim, foi o primeiro baque na curta visita ao principal polo cinematográfico da Índia...

…Num calor escaldante, à beira de uma fonte cenográfica d’água, o diretor grita a palavra mágica: “Ação!” É a deixa para o protagonista magro, bigode ralo e com feições típicas indianas, pular na fonte segurando quadro gigante da amada. A trilha sonora é tocada a todo som.

Saquei o celular para registrar a cena. Rapidamente seguranças do set chegam: “Não pode fotografar, nada de fotos”.

Aí veio o segundo baque... Aquela ideia americana, pasteurizada, limpinha, industrializada, de fazer cinema, consolidada na memória desde os tempos de minha adolescência, saiu de cena. Estava diante da caótica e prolífica instituição indiana de audiovisual.

A poucos metros dali, numa “praça” construída para uma das séries mais famosas da Índia, Taarak Mehta Ka Ooltah Chashmah, converso com o jovem diretor Malav Rajda sobre o potencial criativo dos filmes indianos. “O conteúdo emocional dos filmes de Bollywood é o traço principal. Além disso, nossas películas refletem a fascinação dos indianos para a música e a dança”, destaca. Essa musicalidade permeia toda a filmografia do país.

Preocupado com a inclusão de avanços tecnológicos nas fitas, Rajda, que integra a equipe de diretores da série televisiva Taarak Mehta, considera importante um olhar moderno para o fazer cinema. “Mesmo longe dos padrões de Holywood, buscamos aprimorar e incluir efeitos visuais nos filmes. Ao mesmo tempo incrementar a produção de animações destinadas às crianças.”

Ensaio para a gravação da série Taarak Mehta Ka Ooltah Chashmah: foco no humor(foto: José Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Ensaio para a gravação da série Taarak Mehta Ka Ooltah Chashmah: foco no humor (foto: José Carlos Vieira/CB/D.A Press)


Presenciei o ensaio de Taarak Mehta, uma comédia leve e super alto astral. “Ela é popular há uma década por ser uma série cômica limpa que não recorre à vulgaridade. É apreciável por todas as faixas etárias” explica Malav Rajda. Com o crescimento econômico, cada vez mais as séries de tevê ganham o gosto do público. Mas as salas de cinemas, das mais pobres (que são a maioria) às mais aprazíveis, ainda são o ambiente ideal do público indiano.
 

Bollywood

 
Os números de Bollywood, diante do universo de 1,32 bilhão de pessoas, surpreendem. De 1º de abril de 2016 a 31 de março de 2017, 1.986 filmes foram produzidos em 43 línguas indianas diferentes (28 idiomas oficiais). As temáticas são quase sempre as mesmas, a censura de costumes é visível (nada de beijos escandalosos. Cenas de sexo? Nem pensar). “Romance e comédia são os temas mais abordados em Bollywood. As pessoas adoram ter momentos de satisfação e absorver bons sentimentos. As pessoas gostam de sair das salas de cinema sorrindo”, conta Rajda. Filmes em línguas hindi, tamil, telugu, bangla, malayalam e bhojpuri formam a maioria das produções indianas.

Coproduções

De acordo com o embaixador H.H.S. Viswanathan, representante da Observer Research Foundation (ORF), instituição independenete de pesquisa indiana, junto ao Brics (Brasil, Rússia, Ín dia, China e África do Sul), a possibilidade de coproduções entre brasileiros e indianos faz parte de projetos do bloco formado pelos cinco emergentes.

“As indústrias de cinema na Índia e no Brasil são grandes e bem conhecidas. Não há motivo para não haver produções conjuntas. O que seria necessário é um roteiro imaginativo e interessante para os dois públicos, além de produtores dos dois países que desejam participar do projeto”, ressalta, ao destacar que, em junho passado, a China sediou o Brics Film Festival. “As coproduções aumentariam em muito os compromissos entre os países do grupo”, afirma.

Set de filmagens: improviso e muita criatividade durante a produção(foto: José Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Set de filmagens: improviso e muita criatividade durante a produção (foto: José Carlos Vieira/CB/D.A Press)


Vantagem

“Bollywood divide o mercado com várias outras espalhadas pelo país, que se diferem principalmente pelas línguas locais. Mas as produtoras de Mumbai possuem uma vantagem competitiva —  são talvez as mais antigas em operação do mercado e possuem, de longe, a maior quantidade de capital para as grandes produções com ambições internacionais”, destaca o pesquisador brasileiro Franthiesco Ballerini, autor do livro Diario de Bollywood — Curiosidades e segredos da maior indústria de cinema do mundo (leia entrevista ao lado).

Mas o que o cinema brasileiro pode aprender com Bollywood? Para Ballerini, pode aprender muito com relação à produção executiva profissional e efeitos especiais, que são dois grandes trunfos dos indianos. “Mas ao mesmo tempo, eles podem aprender muito com a gente no quesito criatividade nos roteiros, ousadia artística etc., ainda que eles estejam aprendendo bem rápido com relação a isso.”

Com o sucesso de filmes recentes, que trazem a temática do país de Gandhi, como Com quem quer ser um milionário?, O exótico Hotel Marigold e Lion, o cinema indiano talvez esteja ganhando a chance de se globalizar. Mas uma dúvida permanece: será que nossos limitados olhares e sentimentos ocidentais trocariam o “H’ de Hollywood pelo “B” de Bollywood?
Você acredita na possibilidade de coproduções Brasil-Índia? Há um interesse deles em ampliar a participação além dos mercados já existentes, como Estados Unidos e Europa...
Quando voltei da Índia, me dei conta de como o Brasil (e a América Latina como um todo) não conhece nada do cinema indiano e bem pouco da cultura indiana, que vai além da yoga e do Kama Sutra. Existe um campo enorme de possibilidades, mas as diferenças culturais, a distância geográfica e a ausência de uma comunidade indiana no Brasil são empecilhos grandes. 



Por que os indianos endeusam alguns atores, muitas pessoas fazem verdadeiras procissões às casas dessas estrelas para receber apenas um aceno de mão (um pouco parecido com Hollywood)?
Sim, isso é o que mais me surpreendeu quando descobri visitando alguns templos na Índia. Fiquei pasmo. Mas minha sensação de exotismo passou quando o dono de uma escola de atuação fez uma excelente comparação com o próprio Brasil. “Somos com nossos atores como vocês são com seus jogadores de futebol.” Aí fiquei pensando o quão exótico deve ser, para um país como a Índia, ver nossas reações diante de jogadores que chamamos de Rei e Fenômeno. No fundo, é a mesma coisa.



Nessa linha industrial cinematográfica, o diretor não é tão protagonista como o produtor e o ator, certo?
Assim como em Hollywood, em Bollywood quem manda é o produtor. O diretor é um mero executor de tarefas, encarregado de cumprir uma agenda, os horários (para não levar multa dos sindicatos) e seguir à risca o roteiro aprovado pelo produtor. A diferença é que, na Índia, talvez os astros tenham mais peso do que os astros em Hollywood. Mas certamente em ambas as indústrias o produtor vem em primeiro lugar, seguido pelos protagonistas e, depois o roteirista e diretor, em termos de peso na execução da obra. 



Como se deu esse boom indiano? Qual a participação governamental? Esse exemplo seria bom para o Brasil?
Neste ponto, a Índia sempre foi péssima, pior ainda que o Brasil com relação ao seu cinema. Como digo no meu livro, a Índia só reconheceu o cinema como indústria estratégica no ano 2000. Ou seja, antes o governo indiano não ajudava — e, na verdade, atrapalhava muito, com a censura — as produções indianas. O Brasil, pelo menos, começou a ajudar o cinema nacional umas três décadas antes. Agora, a Índia vê o poder suave (soft power) de Bollywood, fundamental para abrir outras fronteiras.



1.986 
Número de filmes produzidos de abril de 2016 a março de 2017
 

* O repórter viajou a convite do governo da Índia
 
 
 
 

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