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Correio Braziliense

Há poesia feminina em primeiro plano, nas telas do cinema

De Cora Coralina à criação do mito da Mulher-Maravilha, as estreias de cinema estendem tapete vermelho para o desfile de mulheres bem especiais


postado em 14/12/2017 07:02

Walderez de Barros dá vida, por momentos, a Cora Coralina, no filme de Renato Barbieri (foto: Gaya Filmes/ Reprodução)
Walderez de Barros dá vida, por momentos, a Cora Coralina, no filme de Renato Barbieri (foto: Gaya Filmes/ Reprodução)

 

Quando assistimos ao filme brasiliense Cora Coralina — Todas as vidas, que mescla carga de documentário e encenação, percebemos a precisão expressa no título. Cora, a poetisa, se afirma como um agente multiplicador de si: ela, que morreu em 1985, em Goiânia, produziu uma literatura singular e de leitura em camadas. Ao revirar o baú de memórias e o legado da quase centenária Cora (morta, aos 95 anos), quais seriam os aspectos mais vívidos e as grandes descobertas, na visão do diretor Renato Barbieri (As vidas de Maria)?

“Algumas descobertas! O senso comum nos leva a pensar Cora como escritora e doceira. Mas ela foi também ambientalista, comerciante, empreendedora, ativista política em defesa da mulher e dos lavradores, militante social em defesa dos presidiários, dos idosos e do menor abandonado, espiritualista e leitora voraz”, observa o cineasta.

Para o diretor, a poetisa transcendeu a pessoalidade. “Ela passou 45 anos de seus 95 no estado de São Paulo. Quando retornou à Cidade de Goiás, aos 66 anos, Cora já estava formada, afirmada como um ser social completo”, comenta Barbieri.

Fundida à natureza, como artista gerada no “ventre escuro da Terra”, Cora teve boa parte da vida passada na Fazenda Paraíso (Goiás). De rica vida interior e ativa agitação braçal, Cora manejou o plantio de rosas e, como acusa sua poesia, quebrou “pedras e plantou flores”, além de ter zelado pela “consciência de fazer bem-feito”. Viúva, em duas ocasiões, a escritora morou em sítio, recebeu o hábito da Ordem Terceira Franciscana e se desdobrou com esforços em palanques, enxadas, e, claro, à frente do papel e do lápis.

Com o nome de batismo Ana Lins dos Guimarães Peixoto Breta, Cora Coralina foi exaltada, entre outros, por figuras como Carlos Drummond de Andrade e Bruna Lombardi. O filme de Reanto Barbieri é, em parte, baseado no livro de Clóvis Britto e Rita Elisa Seda, Raízes de Aninha. Apoiada por entidades como o Museu Casa de Cora Coralina, a produção faturou prêmios importantes, como o Margarida de Prata da CNBB e o troféu Candango, dado pela preferência do público, na Mostra Brasília do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Conquista feminima

Candidato suíço a uma vaga entre os finalistas do Oscar de melhor filme estrangeiro para 2018, Mulheres divinas chega aos cinemas tratando de tema libertador: a conquista do direito ao voto, por parte das mulheres dos anos de 1970, numa pequena aldeia europeia. Sob direção e roteiro assinados por Petra Biondina Volpe, o longa traz a mobilização de Nora (Marie Leuenberger) para que as mulheres tenham participação política no dia a dia de pacato vilarejo. Casada com o empreendedor Hans (Max Simonischek), Nora contará com o apoio de Vroni (Sibylle Brunner), uma experiente comerciante aposentada.

Com Herbie: meu Fusca turbinado (2005), outra diretora de cinema — Angela Robinson — prestou homenagem à nostálgica imagem do Fusca falante que fez parte da infância de muitos. Retomando essa verve de celebrar o passado, no mais recente filme dela, Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas, Angela Robinson cavoca no passado do acadêmico William Moulton Marston, interpretado por Luke Evans (A Bela e a Fera).

O psicólogo, que contribuiu na elaboração do detector de mentiras, entre outros feitos de inventor, foi o criador de ninguém menos do que a icônica Mulher-Maravilha. Mulheres presentes na vida amorosa dele (a mulher psicóloga, e uma ex-aluna) teriam dado substrato à criação da heroína.


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Lumière! A aventura começa
 
Josh Hartnett é o astro de O poder e o impossível, em cartaz na cidade(foto: Internet/ Reprodução)
Josh Hartnett é o astro de O poder e o impossível, em cartaz na cidade (foto: Internet/ Reprodução)
 
 
O poder e o impossível 

Tudo é projeto


Duas perguntas // Renato Barbieri

Qual o senso de direção reservado às atrizes que revolveram material tão delicado?
Tive o privilégio de trabalhar com um elenco formidável de mulheres talentosas e íntegras, mulheres verdadeiras e viscerais. Estiveram conosco, entre outras, Walderez de Barros, Camila Márdila, Zezé Motta, Tereza Seiblitz e Beth Goulart. Elas trouxeram valores que guiaram nossas escolhas. Busquei ajudá-las a entenderem a intensão final de cada cena e, na hora de filmar, esperava ser surpreendido pelas atuações. E fui surpreendido por todas!


Qual foi o legado da experiência de trabalhar com o saudoso produtor Marcio Curi?

O Marcio Curi foi um grande parceiro de três longas, duas séries para tevê e 10 anos de Teste de Audiência, com 102 longas brasileiros testados, em sessões especiais. Lamentavelmente, nos deixou há um ano. Devo a ele e ao Paulo Salles (neto de Cora) o convite irrecusável para dirigir e roteirizar Cora Coralina — Todas as vidas. Hoje o filme é uma realidade, depois de anos de intensa labuta. Lamento ele não estar conosco nesse momento especial de “embalar a criança” para o mundo. Mas o legado do Marcio é palpável e indissociável do bravo cinema candango.

 


De graça, quase uma centena
de curtas vai compor mostra
no Cine Brasília 
 
De graça e no espaço nobre do Cine Brasília (EQS 106/107), o 6º Curta Brasília — Festival Internacional de Curta-Metragem será apresentado entre hoje e domingo, com apanhado de filmes selecionados entre 987 inscritos de todo o Brasil. “Convidamos uma comissão para a pré-seleção e passamos por várias etapas até chegarmos em 30 curtas para a mostra competitiva e cerca de 50 para as mostras especiais, isso além da curadoria internacional, feita em parceria com festivais e institutos estrangeiros”, conta Ana Arruda, idealizadora do evento, ao lado de Alexandre Costa. A abertura será hoje, às 19h30. Dois blocos de filmes estarão na sequência, às 20h e às 22h.

Especialistas na área do audiovisual, Steye Hallema, Ramón Lasaosa e Laurent Tremean estarão na capital, em que, além de breves consultorias com cineastas locais, acompanharão parte da extensa programação. Além de mostra competitiva, integrada também por videoclipes, o evento terá na composição seleções batizadas de À Francesa, Mostra Holanda em Curtas, Espanha em Curtas, além de produtos criados por universitários da cidade. Um dos destaques caberá à retrospectiva com a obra do pernambucano Kleber Mendonça Filho (responsável pelos longas O som ao redor e Aquarius).

A temática recorrente em vários filmes vem calibrada por inconformismo com a realidade. A capacidade de reação e o estímulo à intervenção baliza alguns títulos. Filmes inseridos no ambiente da realidade virtual e uma mostra chamada Calanguinho (dedicada à criançada) completam o programa. (RD)

R$ 30 mil
serão distribuídos, ao total, na premiação


Duas perguntas // Ana Arruda

O curta ultrapassou, em termos de linguagem, a ideia de servir como trampolim para a feitura de longas?
O curta tem uma aderência e interesse junto ao público nos dias de hoje muito maior que em outras décadas, e se torna assim uma oportunidade aos realizadores do poder de síntese e de aprofundamento para mais pessoas em diversas plataformas. Em termos de linguagem, é uma escolha de formato mesmo para realizadores de longa carreira por essa oportunidade de alcance e também de maior liberdade narrativa. Alejandro Gonzáles Iñarritu, por exemplo, teve seu filme Carne y Arena premiado no Oscar — é um curta-metragem de excelência enquanto cinema e também enquanto novo formato de experiência audiovisual, indicando novos caminhos para o curta enquanto formato preterido por realizadores em novos contextos estéticos e de mercado também.


Como o Brasil se comporta, em termos de aprovação e de reconhecimento internacional?
O Brasil já vem com um selo de criatividade, diversidade e de uma expectativa de crítica e de público quanto a filmes autorais com próprio sotaque. O curta A moça que dançou depois de morta, de João Paulo Miranda, ganhou prêmio no Festival de Cannes e teve repercussão mundial em outros festivais também. Ele foi exibido no Curta Brasília, inclusive. O curta Rosinha, de Guilherme Campos, levou o DF para mais de 100 festivais em todo o mundo, assim como Meu amigo Nietzsche, de Fauston da Silva, rodado na Estrutural. Quando se tem o cinema como propósito de compartilhar algo que te inquieta, feito de forma sincera e profissional com esse olhar posto sob sua realidade, a empatia com o público é visível. Outro exemplo é o Walter Salles que participou esse ano de um projeto com realizadores de todo o mundo realizando curtas-metragens em suas respectivas realidades, falando de questões locais e universais.

  

 

 

 

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