Publicidade

Correio Braziliense

Atriz e escritora, Fernanda Torres lança o segundo romance

A obra tem um texto envolvente sobre um ator decadente: na arte, se reinventar é questão de sobrevivência


postado em 17/12/2017 07:30

O primeiro romance, Fim, publicado em 2013, já anunciava a habilidade literária de Fernanda(foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
O primeiro romance, Fim, publicado em 2013, já anunciava a habilidade literária de Fernanda (foto: Bob Wolfenson/Divulgação)

 
Mario Cardoso é um ator acomodado, que acabou por confundir emprego com profissão depois de viver uma época de ouro da televisão brasileira. Conseguiu contrato fixo em uma grande rede, nunca mais repetiu o brilhantismo exibido no palco em uma única peça, degringolou e só se reencontrou mesmo como ator depois de uma tragédia que o jogou nos braços de Macbeth. É um personagem que já nasceu homem, conduzido por um narrador levado a pulso firme por outra atriz, Fernanda Torres. A glória e seu cortejo de horrores, segundo romance da artista, é uma prova de que a reinvenção constante pode abrir portas para universos inimagináveis.

O primeiro romance, Fim, publicado em 2013, já anunciava a habilidade literária de Fernanda. Com personagens cujas vidas risíveis e inúteis rendiam mortes grandiosas “pela simples tragédia de que tudo é passageiro”, nasceu de um convite de Fernando Meirelles para que escrevesse um conto adaptável para uma série de televisão. Virou um dos melhores romances lançados em 2013 e esteve entre os finalistas do Prêmio Jabuti. A ironia, o humor negro na medida certa e a elegância do texto colocaram o nome da atriz na estante da literatura contemporânea brasileira.
 

A glória e seu cortejo de horrores vai além. Talvez por Fernanda estar mergulhada no mesmo universo de seu personagem e ser tão lúcida e consciente das implicações de sua profissão, talvez porque o mundo da escrita seja uma consequência do palco, um espaço de reflexão mais pausada e sincera, o fato é que o romance está entre os textos mais saborosos e inteligentes publicados nestes últimos meses de 2017. “A maturidade te traz a ciência da sua profissão, por outro lado, perde-se o viço, a novidade, é uma carreira que exige a reinvenção diária, e castiga aqueles que se acomodam, como é o caso do Mario Cardoso”, explica a atriz, em entrevista ao Correio. O título do livro, ela tirou de uma frase repetida pela mãe, mas ouvida pela primeira vez da primeira mulher de Jô Soares, Teresa Austregésilo, que dizia preferir a morte e seu cortejo de horrores a fazer algo que não queria. “Adoro essa frase, que resume, como nenhuma outra, a ansiedade em torno de uma profissão exposta, pública”, diz Fernanda.

A escrita entrou para a vida da atriz graças a um convite de Mario Sergio Conti para assinar um artigo na revista Piauí sobre o medo de estar em cena. “Era um texto longo, e vi que eu tinha fôlego e prazer de escrever”, conta. A parceria rendeu e ela virou colaboradora da revista para depois escrever regularmente na Veja Rio e na Folha de São Paulo. Fernanda passou então a ter uma rotina de escrita produtiva. Agora, aos 52 anos, ela faz o caminho inverso: adaptou Fim para uma série de televisão prevista para ir ao ar em 2020. É o ciclo da reinvenção a qual Mario Cardoso não conseguiu se impor e no qual sua criadora mergulha com gosto. “Escrever me dá liberdade de criar sozinha, sem ter que levantar a produção de uma peça, de um filme, ou de depender de convites, basta a sua imaginação, bons editores, tempo e uma certa capacidade de concentração. Uma atividade completa a outra, porque a solidão da escrita pode se transformar em algo insalubre, solitário, e aí, atuar, que é uma profissão física e coletiva, compensa o isolamento”, acredita.



Entrevista /Fernanda Torres



O personagem de A glória e seu cortejo de horrores é um ator de 60 anos que tenta repetir um sucesso de quando era jovem e percebe a necessidade (e a dificuldade) de sempre se reinventar. Você passou por isso?
Passei por isso muitas e muitas vezes. A arte nunca te deixa em paz. No teatro, é preciso repetir tudo no dia seguinte, um diretor de cinema carrega o andor de um filme por quatro, cinco anos e, quando estreia, assim como acontece com um escritor, te perguntam qual é o seu próximo trabalho. E não é uma atividade necessária, aparentemente não, é algo inútil, criar, não há nada de concreto nisso, você faz por pura necessidade de fazer. A profissão de ator, para ficar nela, é feita de muitos fins. As peças sempre acabam, as novelas, os filmes. Você vive um idílio ou um pesadelo que jamais te deixa seguro. É diferente da perspectiva de um emprego de longo prazo, em que  você galgará uma posição numa empresa, não há essa lógica. Os primeiros vinte anos são fáceis, depois complica, minha mãe sempre me disse essa frase. No início, apesar da falta de prática, tudo é lucro, qualquer papel é papel, e você conta com o fato de ser inédito, de ninguém saber dos seus limites. Ali pelos trinta, senti angústia de fazer uma profissão tão dependente de convites, de oportunidades passageiras. Comecei a produzir teatro e a escrever sem compromisso. O Mario é um pouco de todos nós, atores brasileiros, que lidam com um mercado pequeno, num país caótico.



Escrever na pele de um homem muda alguma coisa? 
Ajuda a me afastar de mim, a não ser confessional. Como me conhecem, eu não conto com o mistério oculto naquela voz. Eu nem pensei se ele seria homem ou mulher, o Mario já nasceu homem, antes mesmo de eu decidir. Acho que é para não ser eu.



Em determinado momento, o protagonista se dá conta de que confundiu emprego com profissão.Como evitar isso em uma carreira longeva?
É dificílimo. O cansaço vem, as contas aumentam, os filhos. Eu nunca tive contratos longos, o que me dava muita ansiedade. Depois dos Normais, achei que fecharia um contrato, mas quis fazer os Budas, o Casa de Areia, e acabei ficando sete anos trabalhando por obra certa na televisão. O Tapas e Beijos foi o mais perto que cheguei de uma relação longa de emprego na minha profissão. Íamos de março a dezembro, foram cinco anos convivendo com um elenco maravilhoso, no mesmo cenário, com os mesmos personagens, eu jamais havia experimentado isso. Como eu não tenho o fôlego da Andréa (Beltrão), que conseguia ensaiar teatro, estrear, trabalhar de segunda a segunda, comecei a escrever. Você vai achando brechas para não se acomodar, para aproveitar a bênção de ter um programa como o Tapas e beijos, por exemplo, e remar por fora, se diversificar, para não ficar dependente deste ou daquele êxito.



“Gritar es fácil, Mario, lo difícil es hacerse oír; y no lo serás, si no comprender lo que decís”, diz o diretor ao protagonista. Você, Fernanda, sempre soube disso?
Eu sempre acho que não vou dar conta, leio os papéis e acho que não vai dar certo. Você aprende, com o tempo, a não querer brilhar de cara, a controlar o ego, a atacar com humildade o personagem. Fiz muito teatro de improviso, depois, fui atrás do Tchekov, na Gaivota, que me ensinou muito sobre como se aproximar de um personagem, e depois fiz os Budas, que considero meu trabalho mais maduro nesse sentido. O Renato Borghi me disse, depois do Rei da Vela, que levou 50 anos para fazer aquele texto sem esforço. Atingir esse paraíso do não esforço, esse lugar em que você é o personagem, em que você domina, sem prepotência, o papel, é o nirvana, mas nada garante que se chegará lá. Controlar a expectativa de acerto, ficar receptivo, tentar compreender o que se está dizendo, são coisas que não se ensinam, não se aprende nada disso, você experimenta na prática. E também não há garantia de que aquilo vá se repetir, é tudo muito fugaz, movediço, a arte não é uma ciência exata.



Há muitas citações no romance, sempre muito bem colocadas e sempre associadas ao humor e à ironia. Pode falar um pouco sobre como a combinação desses dois elementos são importantes quando você escreve?
Não escolho a ironia ou o humor. É o que sou. O Sérgio Rodrigues disse que eu sou tragicômica, sempre achei que a vida é tragicômica, que não há tragédia sem comédia, e vice-versa, isso é algo que experimentei atuando. Li muito Flaubert na adolescência, foi o primeiro autor que li em série. Jamais esqueci a crueldade, da ironia dele e, ao mesmo tempo, do sentido trágico da pequenez humana que ele descreve tão bem. E tem Nelson Rodrigues, que é o escritor que mais nos traduz, feroz, louco, cômico e trágico. Não chego ao Nelson, e muito menos ao Flaubert, mas sou marcada por eles. As citações já estavam no Fim, mas sobre pessoas que ninguém conhece, acho que todo escritor tem essa alma de ladrão.



O teatro, o cinema e a TV refletem o Brasil de hoje? 
De sempre. Estamos num momento de ataque à arte. Só poderíamos estar, o país está insatisfeito consigo mesmo, há uma raiva, um recalque que se reflete no ódio à cultura. Foi sempre assim. O Zé Celso disse, outro dia, que a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Arena e o Oficina foram paridos pelo suicídio de Getúlio. Minha mãe conta que a estreia de O Mambembe, no Municipal, foi uma comoção como ela nunca viu. Hoje, ela entende que o público estava comungando ali, no teatro, com Arthur de Azevedo, o fim da Capital do Rio de Janeiro, que se mudaria para Brasília pouco depois. A retomada do cinema e os favela movies vieram junto com a redemocratização. O fim da Embrafilme aconteceu na mesma penada do confisco da Zélia Cardoso de Mello. Tudo que foi feito na música, no cinema e no teatro, durante a Ditadura Militar, refletia o enfrentamento a um inimigo comum. A arte é um reflexo direto do país, não é diferente agora.



O que te deprime no Brasil de hoje?
Quase tudo. Os séculos de ignorância que deram nesse Congresso que vota contra nós mesmos. A criminalização da Cultura. A ameaça ao sincretismo religioso. Impressiona a dificuldade de se chegar a um meio termo, um livre mercado sadio, regulado com a ajuda do estado, para diminuir a desigualdade social. Isso é tido como esquerdopatia. O nível de discussão anda muito baixo e oportunista, feroz, agressivo. O Rio de Janeiro ter chegado a esse grau de rapina é tudo muito chocante. E essa discussão imbecil entre esquerda e direita, como se houvesse esquerda e direita num país sem saneamento básico. A questão hoje é como lutar contra a concentração de riqueza, que só piorou, e que está disseminando essa insatisfação geral, esse niilismo ofensivo do quanto pior, melhor. Não é só no Brasil, é um fenômeno mundial de empobrecimento da sociedade, de medo e falta de saída.



O personagem também reflete muito sobre como se fazia teatro e televisão no Brasil nos anos 1960 e 1970 e como está hoje. Para você, Fernanda, o que mudou essencialmente nessa área?
Tudo, o próprio meio de produção. A internet mudou tudo, estamos em plena revolução. Eu só assisto à televisão em celular, vejo filmes em VOD, não há mais diferença física entre cinema e televisão, é tudo pixel. Está todo mundo viciado em internet, por outro lado, o livro físico sobreviveu, os jovens leitores gostam de comprar livros. Aos poucos, jornais como o The Guardian provam o quanto é importante uma curadoria confiável, em meio ao oceano de fake news.



A criação literária é diferente da criação de um personagem na dramaturgia?
Mas eu não conheço gênero mais difícil do que o teatro, para se escrever. Minha mãe, certa vez, perguntou ao Drummond o porquê de ele não escrever para o teatro e ele respondeu: “muito difícil”. A escrita dramatúrgica é feita de ação, não há gordura, não há descrição, é seco, é árido. Para mim, a literatura se assemelha ao subtexto que um ator cria entre as falas. Tudo o que não é dito, tudo o que se imagina para dar corpo a um personagem. A voz interior.



A glória e seu cortejo de horrores
De Fernanda Torres. Companhia das Letras, 214 páginas. R$ 44,90
 
 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade