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Correio Braziliense

Antologia recoloca em circulação poesia de Torquato Neto

Obra foi organizada por Ítalo Moriconi


postado em 23/12/2017 07:20

Torquato Neto influencia até hoje gerações de poetas e de compositores que carregam nas palavras o inconformismo lírico(foto: Arquivo de Família)
Torquato Neto influencia até hoje gerações de poetas e de compositores que carregam nas palavras o inconformismo lírico (foto: Arquivo de Família)

Quando eu nasci um anjo torto, muito louco, veio ler a minha mão. O poeta é a mãe das artes e das manhas em geral: alô poetas, poesia no país do carnaval. Só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder. A coisa mais linda que existe é ter você perto de mim. Vá bicho, desafinar o coro dos contentes, despentear todos os dentes. Let’s play that. Eu sou como sou vidente. E vivo tranquilamente todas as horas do fim.

Os versos de Torquato Neto (1944-1972) estão pulverizados nas redes sociais e se tornaram referência fundamental de radicalidade para as novas gerações. A obra de Torquato se expandiu com as pesquisas sobre textos inéditos reunidos nos livros Torquatália, Juvenílias e O fato e a coisa, organizados por seu primo George Mendes. Mas todos os livros do poeta tropicalista estão esgotados e fora de catálogo. Daí surgiu a ideia de reapresentá-lo para as novas gerações com a antologia Torquato Neto essencial, organizada por Ítalo Moriconi (Ed. Autêntica).

A poesia é a mãe das artes e das manhas em geral, dizia Torquato. E, de fato, as letras que escreveu para o movimento tropicalista resistem à leitura no papel. E passam pelo teste de permanência do tempo, esse terrível crítico literário. Torquato proclamava que um poeta não se faz com versos, mas com o risco. No entanto, ele era um artesão exigente, perfeccionista e minucioso. As rimas e os cortes cinematográficos de suas letras são precisos.

Autor de Geleia geral e Coisa mais linda que existe, entre outras canções marcantes do tropicalismo, Torquato se desgarrou cada vez mais rumo a uma radicalidade e a um extremismo que o isolaram dos antigos amigos e companheiros de viagem. Tomou partido do Cinema Marginal na polêmica com Glauber Rocha. Se desentendeu com antigos parceiros. Mergulhou no álcool e nas experiências lisérgicas.

Escorpiano, sempre invocou a morte em poemas e canções: “Há urubus no telhado e a carne seca é servida/Um escorpião encravado em sua própria ferida/Não escapa, só escapo pela porta da saída”. Ele também havia escrito quase como uma advertência a si mesmo: “A morte não é vingança”. Apesar do alerta, em novembro de 1972, Torquato abriu o gás e se suicidou. 

O parceiro da Tropicália, Gilberto Gil, comentou: “Uma coisa que eu gostaria muito era ter conseguido amadurecer a seu lado. Muitas coisas que eram problemáticas e torturantes para ele, hoje já teriam ficado mais simples”. Ao passar por Teresina, durante uma turnê, sob o impacto do encontro com o pai de Torquato Neto, Caetano Veloso compôs o baião metafísico Cajuína, que revela a origem tão pungentemente nordestina do menino piauiense. 

Embora Moriconi tenha evitado enveredar pela biografia de Torquato, ele reconhece que, no caso, vida e obra se tocam de maneira indivisíveis. Torquato proclamou e viveu uma poética do risco e do perigo.

» ENTREVISTA / Ítalo Moriconi

(foto: Café Literário/Divulgação)
(foto: Café Literário/Divulgação)


Torquato Neto está envolvido pela aura do mito. Como situar a relevância e o lugar da obra de Torquato Neto na literatura brasileira e também na música brasileira?
Situo neste lugar mitológico e estimulante. É uma referência permanente, quase uma nebulosa, sempre que se busca uma referência da poesia e da arte como insubordinação permanente. Ele é ponto de partida para o trabalho poético e para a criação artística. Todas as obras de Torquato estão esgotadas. Por isso, topei na hora o convite de organizar uma antologia, visando, principalmente, as novas gerações. 

É possível afirmar que a internet projetou o nome e o mito Torquato Neto para as novas gerações?
Acho que esse interesse é permanente, sempre esteve presente, mas, muitas vezes, eles nem conhecem o texto completo. É o que ocorre com outros escritores que se tornaram mitos da internet, como é o caso do Veríssimo ou da Clarice Lispector. No caso de poetas que se suicidaram, as obras costumam ser póstumas. Os últimos dias de Paupéria, o primeiro livro de Torquato Neto, é uma obra a quatro mãos, organizada pela viúva e por Waly Salomão. Ao organizar este Torquato Essencial, me senti um coautor. Ela não tem a pretensão de ser exaustiva e nem de trazer grandes novidades. A intenção é apenas de recolocar a obra de Torquato em circulação. O texto dele se coloca como oficina de experiências. Trabalha com apropriação, paródia, pastiche. É uma caixa de ferramentas para quem quer desenvolver uma linguagem experimental.
 
A obra de Torquato tem conexão com os tempos em que vivemos?
Talvez. É uma obra inconclusiva de uma vida inconclusa. É adequada para quem vive a inconclusão. 

O mito do poeta desaparecido tragicamente influencia a avaliação de Torquato?
Acho que a linguagem do Torquato é muito do momento, para cima na fase tropicalista, e para baixo na fase da contracultura. Estou me tornando especialista em poetas suicidas. Anteriormente, organizei livros de Ana Cristina César e de Caio Fernando de Abreu. O Caio via na Aids uma forma de suicídio. Mas existem poetas suicidas que não deixam legado nenhum. Não é o caso do Torquato, da Ana ou do Caio. Torquato buscou a radicalidade entre poesia e vida. É uma relação de vida ou morte. É mais sofrida quando ocorre o suicídio. No caso dele, existe uma dimensão não literária da depressão, um mal da saúde. Há um isolamento em relação à primeira geração dos tropicalistas. Mas eu resolvi não entrar nos aspectos da biografia de Torquato.

Se existe um questionamento sobre o poeta de obra inconclusa, que avaliação faz do letrista Torquato Neto?
Como letrista, está no DNA da música popular moderna do Brasil, é top de linha. Selecionei Geléia geral, Pra não dizer adeus, entre outras que se tornaram clássicos absolutos. Pessoalmente, gosto bastante. Eu era um adolescente, tinha 16 e 17 anos e, para o meu grupo de amigos, o tropicalismo era fundamental. A revista Navilouca parece datada para muita gente, mas eu tenho uma identificação muito grande. O texto de Torquato Neto é universal. É impressionante como ele se tornou uma figura inspiradora para os poetas da nova geração.

(foto: Ed. Autêntica/Divulgação)
(foto: Ed. Autêntica/Divulgação)

Torquato Neto Essencial
Ed. Autêntica / 235 páginas

» Trecho
Coisa mais linda que existe
Coisas linda neste mundo
É sair por um segundo
E te encontrar por aí
E ficar sem compromisso
Pra fazer festa ou comício
Com você perto de mim
Na cidade em que me perco
Na praça em que me resolvo
Na noite da da noite escura
É lindo ter junto ao corpo
Ternura de um corpo manso
Na noite da noite escura
A coisa mais linda que existe
É ter você perto de mim

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