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Correio Braziliense

Símbolo de força: confira algumas mulheres que mudaram a indústria em 2017

A força feminina dentro de uma indústria do entretenimento machista se tornou uma marca de poder para várias mulheres ao redor do mundo, confira o símbolo desta mudança com três artistas


postado em 28/12/2017 07:00 / atualizado em 27/12/2017 19:58

A atriz Ashley Judd foi uma das primeiras a dar o nome publicamente em denúncia contra o produtor Harvey Weinstein(foto: JEWEL SAMAD)
A atriz Ashley Judd foi uma das primeiras a dar o nome publicamente em denúncia contra o produtor Harvey Weinstein (foto: JEWEL SAMAD)
 
No começo de outubro deste ano, uma denúncia surgia no horizonte de uma das indústrias mais poderosas do mundo. Cinco mulheres foram a público no jornal The New York Times para denunciar o produtor Harvey Weinstein — um dos homens mais poderosos do ramo —contra assédio sexual. Por mais que os jornais tenha se focado na queda dele e outros grandes poderosos do cinema, as que realmente merecem atenção foram as mulheres, que com uma boa dose de coragem — e coletividade, mudaram para sempre uma cultura de machismo ao longo deste mercado de trabalho.

Em diversos outros níveis, as mulheres também não se limitaram a ficar “no seu lugar” e buscaram topos que muitos homens não conseguiriam, e o melhor de tudo: se tornaram o símbolo para a luta e empoderamento de várias outras mulheres que não são estrelas, mas também buscam seus direitos. A luta delas não se limita a assédio, mas engloba vários outros temas, como representatividade, e busca por igualdade. Confira três mulheres que, entre tantas outras, lutam por um mundo onde o gênero não seja algo definidor de carreira, posição social, ou sucesso.

Ashley Judd – A primeira a denunciar Weinstein
 
Eleita como uma das pessoas do ano pela revista Time, Ashley pode até não ser muito conhecida, mas foi uma das primeiras a empreender a verdadeira mudança de paradigma na indústria do cinema hollywoodiano. Ela foi a primeira mulher a concordar em conversar com o jornal The New York Times para denunciar Weinstein.

Em um momento em que a indústria poderia simplesmente virar o rosto a suas denúncias e finalizar sua carreira, ela seguiu em frente contra um dos homens mais poderosos do cinema. “Eu quero falar como isso não é só sobre sexo, é sobre poder. Eu quero falar como cada uma em três, ou quatro mulheres, passam por uma experiência de assédio nessa indústria”, afirmou a atriz ao jornal norte-americano.

Dentro de um contexto em que apenas 20% dos cargos executivos em Hollywood são para mulheres, e apenas 28% dos empregos criativos dessa indústria do entretenimento englobam o sexo feminino, a ação de Ashey mudou paradigmas. Após a denúncia da atriz, mais de 30 mulheres foram a público denunciar a má conduta de Weinstein. Entre vários outros grandes nomes, mais de 50 já tiveram suas carreiras seriamente afetadas por denúncias de abusos morais e sexuais.
 
Taís Araújo se tornou um símbolo da importância de se discutir a posição da mulher e do negro no Brasil(foto: João Miguel Jr/TV Globo )
Taís Araújo se tornou um símbolo da importância de se discutir a posição da mulher e do negro no Brasil (foto: João Miguel Jr/TV Globo )
 

Taís Araújo – “Como criar crianças doces num país ácido”

Não é de hoje que a atriz Taís Araújo se recusa a manter o silêncio sobre a discussão racial e de gênero no Brasil. Com forte lucidez sobre o tema, Taís se tornou uma referência para expor o que muito enfrentam todos os dias calados. No começo de novembro, a atriz chamou a atenção do país ao protagonizar uma palestra do movimento TEDx com o título “Como criar crianças doces num país ácido”.

Com palavras emocionadas, Taís explicou como o racismo é brutal, e afeta até mesmo a criação de crianças. “Liberdade não é um direito que ele vai poder usufruir se ele andar pelas ruas descalço, sem camisa, sujo, saindo da aula de futebol. Ele corre o risco de ser apontado como um infrator. Mesmo com 6 anos de idade. Quando ele se tornar adolescente, ele não vai ter a liberdade de ir para sua escola, pegar uma condução, um ônibus, com sua mochila, com seu boné, seu capuz, com seu andar adolescente, sem correr o risco de levar uma investida violenta da polícia, ao ser confundido com um bandido. No Brasil, a cor do meu filho é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e blindem seus carros. A vida dele só não vai ser mais difícil que a da minha filha”, argumentou a atriz sobre a futuro de seus filhos.

Mais do que a palestra, as palavras da atriz repercutiram no país, que além da sonora discussão, abriu portas na mente de milhares sobre o que é ser negro no Brasil.


Leandra Leal – Divina representação


A atriz Leandra Leal, além de comandar o histórico teatro Dulcina de Moraes no Rio de Janeiro, também expôs em 2017 o documentário Divinas divas. O longa-metragem que aborda o trabalho do grupo de travestis na década de 1960, levanta uma série de discussões sobre o que significa ser transexual, em um país líder mundial no número de mortes a este grupo da população.
 
 

Mais do que representatividade, o trabalho de Leal faz o público pensar sobre o que a cultura brasileira — e mundial — tem de enfrentar em pleno 2017. Em entrevista ao Correio em junho, na estreia do documentário, Leandra afirmou: “É muito contraditório que, atualmente, todas as liberdades individuais que foram conquistadas por elas, de estarem na rua, do nome social etc., e mesmo assim, elas terem menos espaço para se apresentar. A sociedade encaretou! A gente assiste ao crescimento de uma onda conservadora, que diminui o espaço para essas artistas. Porque o país é o que mais mata trans no mundo. Então, a gente está em um momento de preconceito exacerbado, de ódio”.

Palavra de especialista

A professora de psicologia do Instituto de Ensino Superior de Brasília (IESB), Cynthia Ciarallo, falou ao Correio sobre o momento atual e a posição das mulheres. Segundo a professora, a maior exposição e preponderância do gênero é um processo que está sim em crescimento, e que faz parte de um movimento coletivo, que não se trata apenas de uma outra mulher. “A palavra empoderamento é uma experiência coletiva, a gente está falando de um processo crescente e social”.

Cynthia explica um pouco mais sobre esse processo: “Dois elementos fizeram as mulheres ganharem maior visibilidade nos últimos anos: a maior circulação de notícias, que ampliou o conhecimento de mundo e direitos, e a legislação, que também vem evoluindo, a lei Maria da Penha é um exemplo no contexto nacional”.

Sobre a preponderância de nomes públicos para representar a maior busca de direitos e representatividade para as mulheres, a professora aponta uma análise cuidadosa. “Partindo do princípio de que as denúncias não sejam panfletárias, mas verdadeiras, é válido sim que existam esses símbolos. Outras mulheres podem ver uma denúncia pública de assédio, por exemplo, e pensar 'Nossa, isso acontece comigo, eu passo por isso, tenho de denunciar também', e possam então se posicionar”, sustenta.

A professora ainda complementa: “Eu entendo que denúncias e posicionamentos públicos podem promover mais sensibilidade e conscientização, mas é importante lembrar que a violência não está restrita a um grupo, ela é endêmica de uma sociedade machista, e precisa ser combatida diariamente”.
 
* Estagiário sob a supervisão de Igor Silveira. 
 

 
 

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