Publicidade

Correio Braziliense

Último livro de Ariano Suassuna é autobiografia poética

O paraibano passou três décadas escrevendo a obra, lançada postumamente pela família


postado em 30/12/2017 07:30

 
Ariano Suassuna escreveu e reescreveu O Romance de Dom Pantero por mais de três décadas(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 15/4/14)
Ariano Suassuna escreveu e reescreveu O Romance de Dom Pantero por mais de três décadas (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 15/4/14)
 
O Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores chega para coroar a obra de um dos escritores e dramaturgos mais importantes de nosso tempo. Ariano Suassuna escreveu a obra ao longo de 33 anos (de 1981 até 2014, ano de sua morte) e mostrou nela sua vontade de realçar a cultura popular por meio das páginas. O manuscrito inédito estava guardado no escritório do autor paraibano e foi localizado por sua família, que reuniu a obra e cuidou da publicação. Entre as mais de mil páginas, Suassuna mostra sua paixão pela literatura e o talento para contar boas histórias.

Considerado uma autobiografia do escritor, o livro é dividido em dois volumes: O Jumento Sedutor e O Palhaço Tetrafônico. A edição preparada cuidadosamente pela Nova Fronteira conta com um projeto gráfico primoroso e ilustrações feitas pelo próprio autor. O manuscrito foi definido por Suassuna como “Cartas, Depoimentos-Entrevistosos e Diálogos-de-Narrativa-Espetaculosa” e revisita seu trabalho que passa por múltiplas linguagens. Entre as páginas é possível encontrar o olhar de Ariano, sob a narrativa de Dom Pantero, para o teatro, a poesia e o romance.

A direção de arte ficou a cargo do artista plástico Manuel Suassuna, filho do autor. Ele lembra que este é um livro central de toda a obra de seu pai, uma autobiografia musical, dançarina, poética e teatral. “Essa é uma obra de arte extraordinária, na qual um artista pôde se mostrar em suas mais diversas expressões. As diferentes linguagens foram unidas de forma pessoal, única e bem ao gosto e talento do autor”, destaca Manuel. Entre o choro, o riso e a ansiedade, a família se uniu para dar vida à publicação, alimentando a esperança de deixá-la como Suassuna gostaria que fosse feita.

O nome de Ariano se consagra como expoente do teatro e do romance moderno brasileiro. Para dar continuidade ao importante legado do pernambucano, outros lançamentos devem ser feitos pela família, e o leitor pode aguardar, com ansiedade, por títulos como: O sedutor do sertão, O auto de João da Cruz, O arco desolado e O desertor de princesa.

Carlos Newton Júnior, poeta, ensaísta e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), lembra que o romance é especial, principalmente, por ser um livro planejado pelo autor para ser o coroamento de sua obra, uma espécie de súmula de tudo o que ele produziu ao longo de sua vida. O próprio autor o considera uma autobiografia, mas uma autobiografia poética, transfigurada pelo espelho da arte. 

“Os fatos da vida que lhe serviram para o livro foram trabalhados ficcionalmente. O livro contém todas as possibilidades literárias: romance, poesia, teatro, carta, artigo de jornal, ensaio, entrevista”, destaca o professor. Ele lembra que, nos próximos anos, diversos livros inéditos de Suassuna, entre peças de teatro, romances e textos de crítica, devem vir a público.
 
Ariano se mostrava interessado pelo desenvolvimento e conhecimento das formas de expressão populares tradicionais(foto: Editora Nova Fronteira/Divulgação)
Ariano se mostrava interessado pelo desenvolvimento e conhecimento das formas de expressão populares tradicionais (foto: Editora Nova Fronteira/Divulgação)
 
 
Ariano já vinha trabalhando a fusão de gêneros havia algum tempo e em Dom Pantero há um aprofundamento dessa fusão. Para ele, o autor deixou como legado uma visão otimista do Brasil, do seu povo e do seu destino. Ao longo dos anos, a visão da cultura brasileira se aprofunda em seu trabalho literário, partindo do romance popular nordestino, passando pela arte rupestre brasileira e chegando a dialogar com a arte popular dos países do terceiro mundo. Todos os livros do escritor pernambucano são expressões de um mesmo universo ficcional, rico e fecundo.

Carlos Newton destaca que Ariano apresenta um sertão diferente do sertão descrito pelo Regionalismo de 30. Trata-se de um sertão mais mítico e fabuloso. “O Romance de Dom Pantero talvez seja o que o represente de maneira mais forte, pelo evidente aspecto autobiográfico, sem esquecer que A Pedra do Reino representa uma introdução ao Dom Pantero, nas palavras do próprio autor”, lembra o professor.





Dom Pantero
Na obra, o protagonista Antero Savreda — nome verdadeiro de D. Pantero —, ministra ‘aulas espetaculosas’ com ensinamentos e encenações, nas quais revisita obras e personagens de Suassuna. Escritor frustrado, Savreda sonha em fazer uma grande obra a partir do sucesso literário de seus irmãos famosos: Auro Shapino, romancista, Adriel Soares, dramaturgo, e Altinho Soares, poeta.

Ariano escreve para o grande leitor de qualquer época e alguns dos seus textos são mais acessíveis ao público jovem, como as peças de teatro ligadas à vertente cômica. Outros, como o Romance d’A pedra do reino ou o Romance de Dom Pantero, são dirigidos a um público mais maduro. O legal deixado por Ariano Suassuna e sua contribuição para a literatura e cultura popular brasileira são inegáveis. O romance atual chega como mais uma mostra impressa de sua genialidade e a relação íntima com a arte de contar histórias. Aos leitores, fica a possibilidade de acompanhar um pouco de sua trajetória sob o olhar encantado de Dom Pantero e aguardar pela publicação de novas páginas deixadas pelo pernambucano.


O Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores mostra forte influência da cultura popular brasileira(foto: Editora Nova Fronteira/Divulgação)
O Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores mostra forte influência da cultura popular brasileira (foto: Editora Nova Fronteira/Divulgação)


Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2017
Páginas: 1024
Preço: R$189,90




"Ao longo desses 33 anos, Suassuna continuou a escrever e tudo o que ele produzia servia como matéria-prima para Dom Pantero. O resultado é um romance-síntese, no qual o autor revisita tudo o que escreveu” 
Carlos Newton Júnior, professor da Universidade Federal de Pernambuco

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade