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Correio Braziliense

Crônicas de Lima Barreto fazem retrato do cotidiano do Rio de Janeiro

Livro é bela reunião de crônicas de um dos maiores gênios da literatura brasileira


postado em 30/12/2017 07:30

 

 

Romancista e contista, Lima Barreto foi também um excelente cronista que registrou com impressionante riqueza de detalhes a vida de sua cidade — São Sebastião do Rio de Janeiro — no começo do século passado. Quem já leu textos jornalísticos de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) sabe que ele não gostava de futebol, odiava o carnaval e não tinha muita consideração pela inteligência feminina. Quem ler agora a belíssima edição de Lima Barreto – cronista do Rio (Editora Autêntica, Biblioteca Nacional) vai encontrar tudo isso, mas terá também muitos artigos excepcionais sobre aspectos que não foram registrados por outros escritores que viveram naquela cidade e naquele tempo.

Negro, alcoólatra, funcionário público que ocupava um cargo irrelevante, morador do subúrbio e caminhante compulsivo, Lima Barreto registrou com agudeza e cumplicidade o cotidiano das pessoas desimportantes que moravam nos bairros periféricos. Descreveu suas festas e seus bailes, suas feiras e mafuás, seus enterros. Mostrou a movimentação dessa gente na segunda classe de trens apinhados. Em suma, descreveu a batalha diária dos pobres pelo pão.

Aliás, nada muito diferente do que é hoje. “No corredor central, entre duas fileiras de bancos de madeira, muita gente de pé. As plataformas eram compactas muralhas de corpos humanos. O dia estava fresco, mas lá dentro era um forno”, registra Lima Barreto em Na segunda classe.

Em A estação, uma das melhores entre as 50 crônicas reunidas, o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma demonstra como, ao longo do tempo, alguns bairros do Rio de Janeiro — Méier e Cascadura, por exemplo — se formaram em torno de um terminal ferroviário.

O Estrela, reminiscências do menino Afonso a respeito da Revolta da Esquadra, em 1893, e Tenho esperança que..., em que o escritor lista os professores que foram centrais na sua formação intelectual, são outros dois trabalhos excepcionais.

Mau humor

Ao lado da paixão pela paisagem das margens da cidade, que descreve sempre com carinho, o autor não perde oportunidade de mostrar seu mau humor para com tudo aquilo que hoje chamaríamos elitista.

- Quando, meu Deus, ficaremos livres da burguesia? — pergunta em O jardim botânico e suas palmeiras.

Crítico ferrenho das obras de modernização da cidade — abertura de grandes avenidas após a destruição do labirinto de ruelas do Rio antigo —, denuncia que “esse furor demolidor vem dos forasteiros, dos adventícios, que querem um Rio-Paris barato ou mesmo Buenos Aires de tostão”.

Ataca os recentemente construídos Teatro Nacional e Biblioteca Nacional. “A minha alma é de bandido tímido, quando vejo desses monumentos, olho-os, talvez, um pouco, como um burro; mas por cima de tudo como uma pessoa que se estarrece de admiração diante de suntuosidades desnecessárias”.

Sugere que a construção de várias pequenas casas de espetáculos em bairros centrais teria sido mais sensata porque — julga — que não há público na cidade para manter um teatro “cheio de mármores, de complicações luxuosas... que exige casaca, altas toilettes, decotes, penteados, diademas, adereços”. Protesta, em O prefeito e o povo, contra o fato de que o governo local esteja asfaltando “os areais desertos de Copacabana”.

Sobre o futebol, lamenta que os brasileiros estejam apaixonados por “umas marradas e uns pontapés dominicais, debaixo de um sol ardente” e antecipa (em um século!) o Fifagate ao dizer ironicamente que “os clubes de football são de uma pobreza franciscana, tanto assim que uns compram vitórias a peso de ouro, peitando jogadores dos contrários a contos de réis e mais...”

Festa estúpida


Sobre as marchinhas de carnaval — que considera “a festa mais estúpida do Brasil” — diz que “são o supra-sumo da mais profunda miséria mental”. E anota em O pré-carnaval: “Os ranchos, os blocos, os grupos e os cordões saem de suas furnas e vêm para o centro da cidade estertorar cousas infames”.

Em A polianteia dos burocratas, sobra para as senhoras: “Ninguém nega que a mulher tenha as qualidades subalternas e secundárias que são exigidas para o exercício de um simples cargo público”.

A pancadaria mais pesada, no entanto, fica para o barão do Rio Branco, na crônica intitulada A corte do Itamarati. “Porque ele não ‘nomeava’, não ‘provia’, dava empregos. Devagar, mansamente, o notável diplomata brasileiro pôs-se acima da lei, em tudo e no que tocava a empregos. Começou a residir na própria secretaria e, abuso manifesto e exceção singular, quando os outros seus colegas moravam em suas casas particulares. Não contente com pouca comodidade, quando sentia muito calor, mudava-se para Petrópolis, levando uma boa parte da secretaria, cujos funcionários seguiam-no, tendo grossas gratificações.”

Lima Barreto – Cronista do Rio traz dezenas de fotografias, captadas nos primeiros anos do Século 20 por Marc Ferrez e Augusto Malta, que mostram uma “Cidade, desde sempre, de desigualdades, onde prazer e sofrimento pareciam partilhar tantas vezes o mesmo espaço. Cidade sedutora e injusta. Cidade de que é tão difícil se afastar e onde é tão difícil viver”, como registra Beatriz Resende no prefácio.

 

“Reúne as virtudes de uma genuína biografia literária às de uma reportagem perfeita e em grande estilo”, escreveu Sérgio Buarque de Holanda sobre A vida de Lima Barreto, de autoria do jornalista e escritor Francisco de Assis Barbosa, que ganha agora reedição pela editora Autêntica. Logo, a obra se tornou um clássico sobre Lima Barreto. As pesquisas de Francisco Barbosa resgataram os manuscritos do Diário do hospício.

Além disso, resultaram na organização da obra completa de Lima Barreto em 17 volumes. Francisco de Assis Barbosa introduziu uma abordagem inovadora no gênero biografia, ao entrelaçar aspectos pessoais a uma contextualização histórica, social e cultural, relevante para a compreensão da obra do escritor carioca.

Lima Barreto era um aluno arredio e excêntrico, não partilhava a visão de mundo e as brincadeiras dos colegas: “Apesar da pouca idade, Lima Barreto não tinha jeito de menino”, afirma um colega de escola: “Antes parecia um velho. Não gostava de brincar. Enquanto os outros corriam pelo recreio, ele vivia metido nos cantos, com os seus livros e os seus problemas. Raras eram as suas expansões.”

É uma vida dramática, marcada pela penúria, o preconceito, a incompreensão, o alcoolismo e a doença. Francisco de Assis trança um retrato pungente de Lima Barreto, fundamental para a compreensão da obra do escritor carioca. Ele deixou como legado uma obra de rara agudeza crítica sobre as mazelas e ridicularias do Brasil, muitas delas se estendem até hoje, em que o país se vê reduzido à condição de cemitério dos vivos ou dos muito vivos. (Severino Francisco)

A vida de Lima Barreto
De Francisco de Assis Barbosa
Ed. Autêntica
430 páginas
Preço: R$ 54,90
 

 


Lourenço Cazarré é jornalista e escritor

Lima Barreto, cronista do Rio
Lima Barreto/Ed. Autêntica
240 páginas/Preço: R$ 38

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