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Correio Braziliense

Bilheterias atuais preocupam a indústria cinematográfica

Novo fenômeno incomoda Hollywood: filmes arrecadam muito, mas são considerados fracassos por não cobrirem os custos


postado em 02/01/2018 07:34

Liga da Justiça é um dos filmes na lista dos que arredaram milhões e, mesmo assim, são considerados um fracasso(foto: Warner Bros/Divulgacao)
Liga da Justiça é um dos filmes na lista dos que arredaram milhões e, mesmo assim, são considerados um fracasso (foto: Warner Bros/Divulgacao)

 
Houve uma época em que a mensuração do sucesso de um filme dava-se somente pelo  que ele arrecadava. Por exemplo, se passava de US$ 100 milhões, era lucrativo. Afinal, poucos tinham custos maiores do que esse valor. Com o maior avanço tecnológico, os valores de produção começaram a subir. Porém, nem sempre o encantamento do público acompanhava as bilheterias. Atualmente, uma nova complexidade está despontando no horizonte de Hollywood: filmes com grandes arrecadações que ainda dão prejuízo para os estúdios, pois têm custos de produção nas alturas. Mas a salvação pode estar do outro lado do mundo.

O maior exemplo dessa nova “tendência” é o filme Liga da Justiça. A produção dirigida por Zack Snynder e Joss Whedon foi considerada pela revista Forbes  “o fracasso líder de bilheteria”. Isso significa, essencialmente, que a produção foi capaz de arrecadar uma quantia absurda – US$ 750 milhões, até o último dia 12 de dezembro –, mas que não conseguiu cobrir seus custos. 
 

Copo meio cheio
Os US$ 750 milhões mundiais de Liga da Justiça foi maior do que a arrecadação de grandes apostas no mundo do cinema. Kong: a ilha da caveira, por exemplo, atingiu US$ 600 milhões, Logan alcançou US$ 616 milhões e Transformers: o último cavaleiro só emplacou US$ 605 milhões. Em tese, os heróis da DC Comics e da Warner foram bem melhor do que seus semelhantes. Mas o que então pode ter dado errado para eles?

Copo meio vazio
O principal erro de Liga da Justiça foi seu alto custo de produção, que não deixou o filme ter rentabilidade. Não existem dados oficiais liberados pela Warner Bros. (produtora do filme), mas a imprensa internacional defende que o estúdio apostou cerca de US$ 300 milhões na produção da película (quase toda a bilheteria arrecadada na segunda parte da trilogia de 50 Tons de Cinza, no começo do ano).

Importante lembrar que, somado aos custos de produção, existe ainda os valores do marketing (que beiram os US$ 150 milhões). Além disso, os estúdios só ficam com cerca de 45% das bilheterias, já que o resto vai para as distribuidoras e exibidores, sendo que essta porcentagem ainda varia caso seja considerado o contexto internacional. Isso significa que, após investir, em média, US$ 450 milhões, Liga da Justiça gerou, em valor bruto, até agora US$ 412, 5 milhões.

Filmes que não conseguem se pagar não são uma exceção, pelo contrário, estão, cada vez mais, presentes. Em 2017, além de Liga da Justiça, um outro exemplo foi o longa medieval Rei Arthur – A lenda da Espada. Custando US$ 175 milhões, a película protagonizada por Charlie Hunnam conseguiu mundialmente uma bilheteria de apenas US$ 140 milhões.

Sob o comando de Johnny Depp e Armie Hammer, O cavaleiro solitário, de 2013, também ficou reconhecido pelo seu fracasso. Mesmo conseguindo arrecadar US$ 150 milhões nas bilheterias internacionais, o filme não cobriu seu custo, de US$ 175 milhões. John Carter – Entre dois mundos é outro que ficou marcado pelo fracasso. O filme de 2012 custou quase US$ 250 milhões para a Disney, porém só conseguiu US$ 126 milhões nas bilheterias do mundo.

Essencialmente, os números apontam  que existem exagerados custos de produção. Não se engane nem por um momento achando que existe alguma espécie de crise na arrecadação cinematográfica mundial, pelo contrário. No último dia 26, os estúdios Disney quebraram um novo recorde de ganhos, somando, em 2017, a marca de US$ 6 bilhões graças a lançamentos de grande popularidade como Thor (os estúdios Marvel pertencem à Disney), A Bela e a Fera e Star Wars: os últimos Jedi.

O ano de 2017, em geral, ficou marcado pela presença de três filmes com arrecadação de mais de 1 bilhão de dólares:  A Bela e a Fera, Velozes e Furiosos 8 e Meu Malvado Favorito 3. 

Mercado internacional
A produção chinesa Zhan Lang 2 teve pouca expressão para o ocidente. Mesmo assim, conseguiu desbancar gigantes de Hollywood em arrecadação, como Guardiões da Galáxia Vol. 2, Thor: Ragnarok e Mulher-Maravilha em bilheteria. Zhan Lang 2 é o quinto filme mais assistido de 2017, com um ganho de quase US$ 900 milhões. E ele nem precisou entrar em cartaz por aqui. Afinal, a China tem um trunfo capaz de virar o jogo no que significa sucesso de bilheteria: uma população economicamente ativa de 1,379 bilhão de indivíduos (até final de 2016).

O filme de ação aponta para uma tendência do futuro: o poder do público chinês perante o cinema. E se o custo de produção em relação à arrecadação já é um fator cada vez mais relevante para o sucesso de um filme, como ele se sai em outros países também é algo que os estúdios começam a processar.

A instituição norte-amerciana U.S – China Filme Summit & Gala prevê que a força do cinema chinês tenha ultrapassado, em 2017, pela primeira vez na história, a arrecadação dos Estados Unidos nas telonas. Os chineses conseguiram US$ 11.9 bilhões, enquanto os emricanos ficaram com US$ 11 bilhões. Naturalmente, essa potência de público na China não está sendo ignorada por Hollywood, que já começou a adaptar o conteúdo e a história de filmes para que o mercado do dragão aceite com mais facilidade as produções. Será cada vez mais comum ver heróis chineses e plots que envolvam o país em produções norte-americanas.

Sobre a mudança de conteúdo para a entrada de filmes no mercado chinês — e, em consequência, a maior lucratividade —  as opiniões do meio divergem. A cineasta Luana Nelgaço já teve a experiência de não conseguir colocar um filme dentro do mercado chinês por conta de seu conteúdo. Ela mantém opinião firme sobre o assunto: “Não, eu não tenho essa intensão de fazer filme só pra atingir um mercado. O lucro nesse sentido não me interessa. Mexer no filme não funciona para mim”.

Já Santiago Dellape entende que a discussão é relativa: “A princípio, não vejo com bons olhos essa situação. No geral,  não sou muito a favor de qualquer tipo de censura, mas, por outro lado, também acho que é uma coisa subjetiva: se for para tirar uma cena específica, talvez eu não ache muito problema”. Dellape ainda completa: “O cinema é arte, mas também é indústria. Se tem uma fórmula que dá certo, provavelmente ela será usada”.

Futuro
Para 2018, o jogo promete chegar a novo nível, principalmente com o mercado chinês. Lançamentos como Vingadores: guerra infinita, Deadpool 2, X-Men: novos mutantes, Jurassic World 2, Han Solo, Os Incríveis 2 e Aquaman são alguns dos títulos que prometem acirrar a competição por ganhos de bilheteria.


Escalada da bilheteria

Confira as três maiores arrecadações de 2017 (com exceção de Star Wars: os últimos Jedi, que continua em cartaz neste 2018):

1 – A Bela e a Fera: arrecadou mundialmente US$ 1,263 bilhão e se tornou o mais rentável do ano.

2 – Velozes e Furiosos 8: O filme foi péssimo nas bilheterias norte-americanas (US$ 225.8 milhões), mas foi salvo pelos chineses (US$ 1 bilhão). No final, arrecadou US$ 1, 235 bilhão.

3 – Meu Malvado Favorito 3: A animação conseguiu arrecadar pouco mais de US$ 1 bilhão mundialmente.





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