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Correio Braziliense

Exposição traz a Brasília gravuras originais de Francisco de Goya

Série Disparates ganha exposição na Caixa Cultural


postado em 10/01/2018 07:30

 
 
(foto: Reprodução/Francisco de Goya)
(foto: Reprodução/Francisco de Goya)
Francisco de Goya era um sujeito curioso. Trabalhava para a corte de Fernando VII, da Espanha, o rei que mandou a turma de Napoleão para casa com ajuda dos iluministas e depois deu um fim nos aliados ao trazer de volta a inquisição. Era o pintor oficial, fazia retratos da realeza e o que mais a monarquia absolutista exigisse. Eram tempos de perseguição religiosa acirrada, muita opressão, mulheres queimadas em fogueiras, torturas e julgamentos sumários.

Enfurnado no centro do poder, Goya estava de olho em tudo isso. Convivia de perto com as questões do reino, mas nem sempre concordava com seus reis, por isso comprou uma quinta para trabalhar sossegado e escondido sobre os temas que considerava relevantes. Dessa iniciativa nasceram as séries de gravuras nas quais critica e reflete sobre um largo espectro da vida social espanhola da época. São preciosidades como Disparates, que a Caixa Cultural exibe na exposição Loucuras anunciadas.

As imagens gravadas por Goya em metal são poderosas. No total, formavam um lote de 22, uma série posterior e bem menor que Caprichos. Se nessa última o artista se debruçou sobre a sociedade e sua moral questionável, em Disparates ele mergulha num universo sombrio. Violência, sexo, crítica aos costumes, ao clero e ao absolutismo estão em primeiro plano. Instituições como a igreja e sua implacável inquisição são fuziladas em um conjunto de alegorias sombrias.
(foto: Reprodução/Francisco de Goya)
(foto: Reprodução/Francisco de Goya)

Selecionada pela curadora Mariza Bertoli para dar início à exposição, Disparate fúnebre traz um renascimento peculiar. Assistido por uma coruja, um corpo se levanta como se retornasse da morte. O animal, com rosto feminino maduro e enigmático, o aguarda. Segundo a curadora, a coruja com rosto humano representa a alma. O corpo em questão seria o do próprio artista. Ao redor, surgem figuras aleatórias que o observador poderia identificar com o povo.

Goya sempre traz o povo para suas imagens, mas dá a ele um sentido pejorativo. É uma obra reveladora do período no qual o espanhol produziu a série. “Essas gravuras são de um momento muito especial, um momento em que ele muda sua atitude em relação à arte e aos temas que está tratando”, explica Mariza. “É uma época em que está maduro, fez tudo que tinha que fazer, tinha conquistado ser o artista de câmara do rei e também era o diretor da Academia de Belas Artes de San Fernando. Essas gravuras, ele faz para ele.”

Goya não publicou os Disparates. Temia a perseguição da igreja e preferiu guardar as provas de artista em um baú, na Quinta do Surdo, onde também realizou as Pinturas negras. Morreu em 1828, sem nunca ter editado os trabalhos. Curiosamente, no entanto, escolheu para a série a técnica da gravura, cuja reprodução em larga escala é uma das características. Sabia e queria que, em algum momento, sua visão crítica da Espanha da época chegasse ao maior número de pessoas possível.
 
(foto: Reprodução/Francisco de Goya)
(foto: Reprodução/Francisco de Goya)
 

As gravuras foram editadas pela própria Academia de Belas Artes de San Fernando em um lote de 350 álbuns sob o nome de Provérbios. Foram adquiridas em 1864, depois de passar por dois colecionadores privados. São essas primeiras tiragens que a Caixa recebe em Brasília, com título dado pelo artista e numeração original.


Surdez

As obras pertencem a um colecionador privado cujo acervo é administrado pela empresa italiana The art company. Aqui não estão as 22 gravuras originais, e sim 19 delas. Além das temáticas políticas e sociais da época, Goya também retrata seus próprios dramas. Acometido por uma surdez aos 46 anos, ele se sentia isolado. Os ensacados, um grupo de homens e mulheres presos em sacos e apenas com a cabeça exposta, retrata bem a angústia da solidão e o sentimento de ser inapropriado.

Os sacos remetem à ideia das camisolas usadas por loucos, doentes e velhos em asilos e hospitais da época. A subjetividade de Goya se acentuou depois da doença, que o manteve isolado na Quinta do Surdo. No Disparate matrimonial, é o casamento o alvo do artista ao criar um monstro com duas caras e oito pés. Disparate pobre, Disparate ridículo, Disparate feminino e Disparate de carnaval questionam costumes e vêm sempre pontuados por figuras grotescas. Em muitos momentos, as alegorias do espanhol parecem apropriadas para os tempos contemporâneos. Criadas há mais de dois séculos, foram tão diretas no questionamento da natureza e da condição humanas que não ficaram datadas. Vale visitar a exposição com a mente ligada nas dinâmicas sociais e políticas do século 21. Goya sabia do que estava falando.

Loucuras Anunciadas — Francisco de Goya
Exposição de gravuras de Francisco de Goya. Visitação até 4 de março, de terça a domingo, das 9h às 21h, na CAIXA Cultural Brasília – Galerias Piccola I e II (Setor Bancário Sul Qd. 4)
 

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