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Correio Braziliense

Multi-instrumentista Novelli relembra trajetória na música

Garanhuns ficou pequena para Djair de Barros e Silva, o Novelli, nos anos 1960. O crooner da banda de bailes Nouvelle Vague partiu para o Rio de Janeiro, onde fez carreira ao lado dos principais nomes da música popular brasileira


postado em 13/01/2018 07:20 / atualizado em 12/01/2018 17:44

Novelli: uma vida musical desde Garanhuns(foto: Reprodução /Museu Clube da Esquina)
Novelli: uma vida musical desde Garanhuns (foto: Reprodução /Museu Clube da Esquina)
Fernando Brant gostava de segredar, para evitar ciumeira, que o Clube da Esquina deveria ter a mesma dimensão musical da bossa nova e do tropicalismo. Entre os amigos, na roda de chope no Feitiço Mineiro, ninguém discordava. Claro! Brant estava certo. E foi desse escrete de virtuoses, em que Milton Nascimento era o camisa 10, que aparece para o grande público o multi-instrumentista pernambucano Djair de Barros e Silva, o Novelli. Tímido, de poucas palavras (feito mineiro) e com um sotaque marcante da terra de Chico Science, Novelli falou com o Correio sobre a trajetória, as amizades musicais e, com sutileza, criticou a falta de sensibilidade que vem assolando o país. “Ouçam o último disco de Chico Buarque, de Francis Hime e de Edu Lobo comemorando 70 anos”, destaca o autor de Toshiro, uma das músicas mais perfeitas do disco Clube da Esquina 2, do qual o próprio Novelli foi o produtor musical. 

Como e quando o rapaz de Recife esbarrou, em pleno Rio de Janeiro, com os meninos mineiros do Clube da Esquina?
Entre 1965 e 1966, no Rio de Janeiro, tinha feito amizade com vários personagens do Clube da Esquina, e tocava com a maioria deles. O Clube ainda não existia, mas eu convivia musicalmente com  Wagner Tiso, Helvius Vilela, Nivaldo Ornelas, Celinho do Piston, Toninho Horta, entre outros. No Festival da Canção de 1967 foi que conheci Milton Nascimento e outros mineiros mais jovens, o que seria o embrião do Clube da Esquina.

Nasci em Recife, em 1945. Pequeno, fui morar com a família em Garanhuns, quando meu pai, comerciante na capital, resolveu transferir o negócio que tinha para a serra pernambucana — por ter um clima mais ameno e ter, quando rapaz, trabalhado naquela cidade. Lá, eu e alguns amigos formamos, em 1963, um conjunto para tocar em bailes, festivais  etc.. Eu tinha 18 anos naquela época. O grupo se chamava Nouvelle Vague.  Sempre fui autodidata. Em 1964, depois de um ano tocando em Garanhuns e em cidades vizinhas, resolvemos tentar a sorte em Recife. Na capital, eu ganhei o meu nome artístico Novelli, dado por um baixista chamado Oswaldo Guedes. Já tendo a carteira da Ordem dos Músicos, pensava em vir para o Rio de Janeiro, a fim de tocar com os músicos-cantores que eu tanto admirava. 

Você é, ao lado de um seleto time, protagonista da melhor música brasileira produzida na segunda metade do século 20. Qual foi a grande mudança no cenário musical do país?
O que mudou a música brasileira a partir dos anos 1960, na minha opinião, foi o impacto da bossa nova. Os conceitos rítmicos, harmônicos e poéticos tinham o sabor de novidade, que se tornaram internacionalmente consolidados.

Ver galeria . 7 Fotos Novelli acompanhando Toninho Horta, amigos desde os anos 1970Arquivo Pessoal
Novelli acompanhando Toninho Horta, amigos desde os anos 1970 (foto: Arquivo Pessoal )

Hoje em dia, a música é servida em “drágeas”, pelos serviços de streaming. Perdemos o conceito do álbum, da sequência das canções e até do design da capa. Isso empobreceu a obra do artista? 
A música que é servida em “drágeas” pelos serviços de não sei quem, ou o quê, é, no meu entender, a consequência da falta de sensibilidade que assolou e volta a assolar nosso país.

Você teve uma relação profissional bastante produtiva com Cacaso, seu parceiro que fez a poesia virar letra — tendência seguida por Paulo Leminski até chegar em Arnaldo Antunes. Como era essa ligação? 
Sobre o poeta Cacaso (Antônio Carlos de Brito), nossa parceria começou na casa do Francis Hime, um encontro feliz. Aí, comecei a frequentar a casa dele, que tinha um piano, e ele a minha casa, onde também tinha um piano (risos). Nos anos 1980, em dois anos, tínhamos composto umas 30 músicas, sempre nos pianos. Doze dessas canções, se não me engano, estão gravadas por vários craques da nossa cantoria. As outras esperam pela possibilidade de também serem gravadas.

Há uma passagem sua por Paris, que resultou no disco Saravah. Como foi essa experiência?
A ida a Paris, na verdade, foi porque eu tinha uma música com letra feita pelo cantor francês chamado Bernard Lavilliers. Foi gravada aqui no Rio por ele, com músicos brasileiros em 1980 e 1981. Em 1983, recebi um telefonema do Bernard, que estava no Rio, me comunicando que tinha sido um sucesso, vendido muitos discos e que havia um bom direito autoral para mim. Só que eu tinha que viajar a Paris, para ter acesso a esses direitos.

E rumou para a Cidade Luz...
Fui e, chegando lá, enquanto esperava a movimentação para o acesso ao dinheiro, conheci um jovem francês que trabalhava na Fnac e que conseguiu um financiamento para produzir um disco meu. Esse rapaz se chama Philippe Moreau e me ajudou, ao lado do baterista Nenê, um dos grandes músicos brasileiros, fazendo os arranjos, tocando e, também, arregimentando grandes instrumentistas franceses. O disco se chama Canções Brasileiras e tem capa do Cafi, grande amigo, grande fotógrafo de capas de discos, da música mais linda do planeta. Mas, em 1973, gravei, também em Paris, o disco Novelli, Nelson Angelo e Naná Vasconcelos, produzido por Pierre Bahout e Michel Legrand.

Você representa uma geração gloriosa que está na casa dos 70 anos de idade, como Caetano, Chico Buarque, Alceu Valença e tantos outros... E depois de vocês, o que nos resta?
Geração gloriosa... Obrigado por me colocar nessa turma. Essa geração continua gravando trabalhos primorosos. Ouçam o último disco do Chico Buarque, do Francis Hime, do Edu Lobo comemorando seus 70 anos, com músicas de vários tempos em sua trajetória. É um prazer ouvir obras-primas produzidas em vários momentos. Temos de ouvir Dori Caymmi, Danilo Caymmi, Egberto Gismonti, Taiguara, Airto Moreira, Carlinhos Vergueiro, Guinga, Fátima Guedes, Djavan, Geraldo Azevedo, Toninho Horta, Tavinho Moura, Beto Guedes, Lula Queiroga, Lenine e tantos outros, que são de uma geração posterior, mas que são continuadores da qualidade que permanece como um dos pilares da nossa cultura.

Voltando ao pessoal de Minas Gerais, Milton Nascimento e cia. Você produziu discos de Bituca e tem músicas gravadas em álbuns icônicos com ele. Fale um pouco dessa relação, quais discos você considera fundamentais em sua carreira (Clube da Esquina 2, por exemplo) e como foi gravar os seminais Minas e Geraes?
Sobre o trabalho com o Milton, considero um privilégio o fato de ter participado de tantos clássicos, como músico, compositor e um produtor bissexto. Não dá para destacar algum, já que todos têm o mesmo valor e orgulho para mim. Uma honra ter a música que abre o disco Minas, com a canção homônima, e fechar o álbum Geraes, com Minas Gerais, letrada por Ronaldo Bastos.

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