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Correio Braziliense

Athos Bulcão é festejado com exposição no CCBB

Mostra de 300 obras celebra centenário de nascimento e investe em tornar a diversidade da obra conhecida pelo Brasil


postado em 14/01/2018 06:10

Athos Bulcão pode ser um patrimônio brasiliense, mas é um tanto desconhecido quando se ultrapassa as fronteiras do Distrito Federal. Sabe-se bem, além-Goiás, do lugar do artista quando se trata de arte e arquitetura, mas há um grande desconhecimento sobre a produção de pinturas, desenhos, gravuras e objetos. É um pouco para reparar essa falha que a exposição 100 anos de Athos Bulcão, com inauguração marcada para terça no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), foi imaginada. A mostra comemorativa do centenário do artista vai circular por Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro depois de passar por Brasília.

Com curadoria de Marília Panitz e do artista gaúcho André Severo, a exposição ocupa as duas galerias da instituição com 300 obras provenientes, principalmente, da Fundação Athos Bulcão e de coleções particulares de Brasília. “Essa exposição dá conta de reapresentar o Athos para o Brasil, porque é impressionante uma produção tão grande não ser conhecida”, explica Severo. “A gente tem um estereótipo do Athos que é essa relação de arte com arquitetura, mas a complexidade da construção de toda essa poética, a gente não tem ideia. Sempre fui muito apaixonado pelo trabalho dele, mas o que eu conhecia era as fotomontagens e o trabalho na relação de arte com arquitetura.”
 
Athos também criou uma série de vestimentas litúrgicas(foto: Fundação Athos Bulcão/Divulgação)
Athos também criou uma série de vestimentas litúrgicas (foto: Fundação Athos Bulcão/Divulgação)
 
 
É muito difícil dividir a produção de Athos Bulcão em fases porque elas se intercalam e se alimentam umas das outras. Não há uma cronologia precisa para o uso de cada técnica, linguagem ou tema. O trânsito do artista por várias searas era muito orgânico. Os curadores decidiram então propor relações mais livres, semelhantes à liberdade com a qual Athos trabalhava. “Dividimos a exposição em núcleos para poder pensar em cada uma das diferentes coisas que ele trabalhou, mas a gente evitou trabalhar como se fossem fases, porque seriam muitas”, justifica Severo.

Assim, aspectos como a figuração, as fotomontagens, as colagens inéditas que deram origem a essas obras, as máscaras retratadas em pinturas, desenhos, gravuras e objetos, a relação entre a geometria e a poesia, as investidas no teatro e a relação com a arquitetura formam os núcleos da exposição. O conjunto revela algumas surpresas, como as roupas litúrgicas e os figurinos para óperas encenadas em Brasília, ou as capas de revistas e discos, ou ainda os lenços femininos desenhados em Paris e reproduzidos a pedido dos curadores. Há ainda um conjunto de desenhos de cenários e figurinos confeccionados para o Tablado, no Rio. No entanto, não há divisão clara entre os segmentos no espaço expositivo, o que permite transitar com fluidez entre os temas.
 
As máscaras eram inspiradas no carnaval(foto: Vicente de Mello/Divulgação)
As máscaras eram inspiradas no carnaval (foto: Vicente de Mello/Divulgação)
 
 
Cada um dos oito núcleos são pontuados por frases e comentários do próprio artista, retirados de uma entrevista concedida a Carmem Moretzsohn em 1997. “Nossa ideia é mostrar que ele tinha muito consistente a estrutura da linguagem poética e isso atravessava tudo que ele fazia”, diz Marília Panitz. Para encerrar a exposição, Marília concebeu uma segunda mostra, com  várias gerações de artistas de Brasília influenciados por Arhos Bulcão. “O Athos marca como mestre pela obra que ele deixa e pela convivência que ele teve com os artistas. Temos rastros de Athos das gerações mais antigas às mais novas, então a gente faz uma conversa dele com esses artistas”, avisa a curadora.
 

Marca registrada

Athos Bulcão nasceu no Rio de Janeiro, em julho de 1918. Chegou a ingressar no curso de medicina antes de se dedicar à arte. Aos 21 anos, foi ser assistente de Portinari durante a execução do mural de São Francisco de Assis, na Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte. Nos anos 1940, estudou desenho e litografia em Paris graças a uma bolsa concedida pelo governo francês. A parceria com Oscar Niemeyer começou em 1955, com os azulejos externos do Hospital da Lagoa no Rio de Janeiro. Quando Brasília foi inaugurada, em 1960, vários prédios já continham os azulejos de Athos Bulcão, um marco de integração entre arte e arquitetura que daria corpo à carreira do artista. A arquitetura talvez seja o viés mais conhecido da produção de Athos, mas ele também foi um grande pintor. Transitava entre a figuração e a abstração, tinha apreço por temas profanos, especialmente pelo carnaval, e fazia da cor um personagem de suas obras.

 



100 anos de Athos Bulcão
Curadoria: Marília Panitz e André Severo. Abertura 16 de janeiro. Até 1º de abril, de terça a domingo, das 9h às 21h, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB -SCES Trecho 2, Lote 22)

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