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Correio Braziliense

Festival de Sundance, a partir de hoje, terá dois brasileiros em cena

Gustavo Pizzi e Aly Muritiba, diretores de Benzinho e Ferrugem, contam ao Correio as expectativas e a sensação de vitória de estar no evento de cinema


postado em 18/01/2018 07:52 / atualizado em 17/01/2018 17:21

Adriana Esteves e Karine Teles estrelam Benzinho(foto: Vitrine Filmes / Divulgação)
Adriana Esteves e Karine Teles estrelam Benzinho (foto: Vitrine Filmes / Divulgação)
 
Apresentar sotaques, sabores e cheiros nacionais, por meio da sétima arte, tudo a serviço de uma experiência de emoção compartilhada. No ideal do diretor Aly Muritiba, à frente do longa Ferrugem, há ainda camadas de maiores satisfações: depois de comparecer ao Festival de Sundance (Estados Unidos), e ter, há quatro anos, o roteiro de Para minha amada morta premiado (além de ver a carreira do filme alargada), ele retorna ao evento para competir com Ferrugem (a ser mostrado sábado), produção ancorada na lida de jovens junto à internet. “A chancela anterior de Sundance acabou ajudando o filme anterior a circular mais. O evento aparece como o grande festival norte-americano, muito voltado para o cinema independente. Ali foram revelados Tarantino, Robert Eggers (A bruxa), Damien Chazelle (La la land). Então estar ali significa estar em foco num dos maiores mercados de cinema do mundo”, avalia, em entrevista ao Correio.
 
Hoje, com sessão para os jurados, outro longa verde-e-amarelo, Benzinho, amplia a participação das ficções brasileiras no evento. E, melhor: também com enorme visibilidade. A protagonista Karine Teles esteve em Sundance por meio do premiado Que horas ela volta?, o que ajuda na divulgação da nova produção da qual ela é corroteirista. “Prêmio depende de júri, de contexto, de sorte. Fizemos Benzinho, e estamos muito felizes e orgulhosos com o resultado. Ser selecionado para a competição internacional não é pouca coisa. São 12 filmes selecionados dentre milhares”, observa o diretor Gustavo Pizzi. O filme é uma coprodução feita entre Brasil e Uruguai, e tem no elenco o grego (de nascimento) Konstantinos Sarris, na pele de um jovem que busca profissionalização no exterior.
 
O diretor Gustavo Pizzi, depois do longa Riscado: mais sucesso na trajetória, com Benzinho(foto: Arquivo pessoal / Divulgação)
O diretor Gustavo Pizzi, depois do longa Riscado: mais sucesso na trajetória, com Benzinho (foto: Arquivo pessoal / Divulgação)
 

Alternando graça e peso, sem ser exatamente drama ou comédia, Benzinho traz para o foco aspectos da adolescência de Fernando (Sarris). “Ele partirá de casa, mas, além disso, a história é contada a partir do ponto de vista da mãe (Teles, ex-mulher de Pizzi, na vida real). Como lidar com a partida prematura do filho mais velho para um outro país, distante da realidade dela, e no meio de uma avalanche de acontecimentos que alteram a vida pessoal de Irene (a mãe)”, explica o diretor. Tratando de dificuldades, Benzinho promete ser esperançoso. “Tudo se passa em Petrópolis, uma cidade serrana do Estado do Rio, nela temos uma família de classe média baixa que luta para seguir com seus objetivos com dignidade”, adianta.
 
O longa assinado por Gustavo Pizzi passa ao largo da capital do Rio de Janeiro. “Acho que ele retrata a vida da maior parte dos brasileiros: não é exatamente pobre nem rica, vive não exatamente no centro onde tudo acontece, mas muito próximo disso. A presença da “capital”, do centro cultural e econômico na vida de quem não faz parte dele é sempre muito influenciadora”, comenta Pizzi. Impactante também é a representação do Brasil, em cinema, pelo que opina. “A partir dos filmes inseridos no mercado internacional, a maneira com que o Brasil tem sido visto lá fora tem mudado. Temos conseguido uma presença massiva nos principais festivais de cinema do mundo e entrada importante nos circuitos comerciais mais fortes do planeta”, reforça.
 
Mesmo sem a crença na competição disposta em Sundance, Pizzi aponta estar cercado por filmes fantásticos, inclusive Ferrugem, de Aly Muritiba. “Eu admiro muito o trabalho dele. Estaremos na concorrência com um filme grego que tem roteiro do Efthimis Filippou (corroteirista de The lobster) e ainda por fitas de iniciantes como Idris Elba (de Yardie) e de Cathy Yan (que responde por Dead pigs). Esse longa tem produção do Jia Zhangke, um dos mais importantes cineastas em atividade hoje no mundo”, comemora Gustavo Pizzi.
 
Nos bastidores, um trabalho em família literalmente respaldou Benzinho: Pizzi filmou com os próprios filhos (gêmeos) e com a ex-mulher. “Foi uma experiência e tanto ter os meninos com a gente, e num modo tão ativo. Ao mesmo tempo, é sempre um desafio dirigir crianças em filmes, e os seus próprios filhos! Mesmo complicada, foi a melhor decisão que tomamos. Nós trabalhamos muito com as crianças do filme de um jeito muito lúdico, com um entendimento geral sobre o filme, o universo, mas nunca dando texto para eles decorarem”, explica. Se nos improvisos e nas nuances impensadas, as crianças surpreenderam, Karine Teles se mostrou incrível, dada a experiência. “Nos separamos, mas criamos nossos filhos numa parceria muito grande, somos muito amigos. É um privilégio poder trabalhar com atores como a Karine, inteligente e criativa”, conclui.
 
O diretor Aly Muritiba competirá em Sundance, com o filme Ferrugem (foto: Internet / Reprodução)
O diretor Aly Muritiba competirá em Sundance, com o filme Ferrugem (foto: Internet / Reprodução)
 

QUATRO PERGUNTAS // ALY MURITIBA
 
Por qual meio atrai jovens espectadores?
 
Eu acredito que sejam ávidos por boas histórias. Então, se o filme tiver uma boa história capaz de engajá-los, virão ao cinema. No entanto, há fatores nesta equação como o poder do marketing e a comodidade, que é o que muitas vezes faz a balança pender para as séries ou games (que podem, eventualmente, contar boas histórias). Mas o cinema tem uma coisa ritualística que se aproxima muito das experiências transcendentes e religiosas, ou mesmo tribais, que nenhuma forma audiovisual atingiu.

Quão prudente foi ao debater, em Ferrugem, a questão da exposição na internet? O ser humano ficou mais humano, nadando em tecnologia?

Ao me preparar para realizar este filme eu tomei o cuidado de escutar aqueles para quem o mundo virtual nunca esteve dissociado do real; ou seja, jovens que nasceram no mundo pós-internet. E ao fazê-lo, tentei não julgar. Acredito muito na importância da escuta, e ao exercer esta faculdade junto aos jovens com quem conversei no processo de escrita do roteiro de Ferrugem, me dei conta de que o mundo virtual, notadamente as redes sociais, nada mais são que o reflexo maximizado de uma necessidade muito primal: a necessidade de estar junto, de ser aceito no grupo, de se expressar. Nesse sentido, o mundo virtual nos torna, em alguma medida, mais humanos, com tudo de bom e de ruim que isso implica. A pergunta que fica é: “os jovens estão sendo preparados para lidar com todas as implicações que essa hiper-humanização das redes sociais oferecem?”

Como acredita que a representação da violência, nas telas impacte espectadores?
 
Acho que qualquer representação na tela é poderosa. A imagem em movimento já provou ser forte o suficiente para difundir ou sustentar regimes políticos, além de moldar mentalidades e expandir/impôr modelos culturais. Leni Riefenstahl, Serguei Eisenstein ou Hollywood estão aí pra comprovar. Então mostrar a violência pode ser tanto espetáculo, quanto pedagogia, vai depender muito da forma e a que serve a imagem violenta. Não faço filmes para passar mensagens, mas obviamente espero que Ferrugem suscite debates.

Como vê isso de representar o Brasil lá fora, em período tão tumultuado?

Para todos os efeitos este é um filme brasileiro, e me orgulho muito de representar meu país nos festivais por onde passo. Mas se a pergunta fosse acerca deste governo ilegítimo que aí está a resposta seria, não, Ferrugem não tem nada a ver com ele.
 
 
 

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