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Correio Braziliense

MPB4 completa 50 anos de trajetória profissional com novo DVD

Milton Lima dos Santos Filho, o Miltinho, e Aquiles Rique Reis, são os únicos remanescentes da formação original


postado em 21/01/2018 07:25

(foto: Dalton Valerio/Divulgação)
(foto: Dalton Valerio/Divulgação)

Considerado o grupo vocal padrão no universo da música popular brasileira contemporânea, o MPB4 celebra meio século de vida sem dois dos seus fundadores: Ruy Alexandre Faria, morto recentemente, aos 80 anos; e Antônio José Waghabi Filho, o Magro, falecido aos 69 anos, em agosto de 2012.

Milton Lima dos Santos Filho, o Miltinho, e Aquiles Rique Reis, os remanescentes da formação original, são responsáveis por perpetuar o trabalho do conjunto — originário do mítico Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes —, um dos mais bem avaliados da MPB. Para isso, já há algum tempo, eles têm a companhia de Dalmo Medeiros e de Paulo Malaguti.

Para celebrar as cinco décadas de trajetória, o MPB4 está lançando o DVD O sonho, a vida, a roda viva, gravado no Teatro Sesc Ginástico, no centro do Rio de Janeiro, com a participação de Kleiton & Kledir, dupla gaúcha que, nos anos 1990, dividiu o palco com os amigos em seguidas turnês. A produção é de João Mário Linhares, do selo MP,B.

Influenciados pelo Os Cariocas e o Tamba Trio —  ícones da bossa nova —, o MPB4 surgiu em 1964, quando o país passou a viver sob o jugo da ditadura militar, que acabara de ser instalada. Ligados à CPC, braço da UNE em Niterói, os jovens músicos e cantores aos poucos foram se profissionalizando e fazendo apresentações em pequenos locais. O Brasil viria a ser apresentado ao grupo pelos históricos festivais da TV Record.

Foi a partir de um deles, o de 1967, quando dividiram com Chico Buarque a interpretação de Roda viva, que passaram a ter o reconhecimento de uma parcela maior do público. À época, já haviam lançado o disco de estreia, no qual predominavam canções do compositor carioca. Com isso, os quatro passaram a ser vistos como os principais intérpretes da obra buarqueana.

Não por acaso, 1967 foi tomado como marco do começo da vitoriosa caminhada do MPB4. O fato de a expressão roda viva fazer parte do título soa como uma espécie de reconhecimento da importância do momento vivido naquele festival. Aliás, na abertura do show, registrado no DVD, simbolicamente é revivido o momento em que Roda viva é apresentada na final do 3º Festival de Música Popular.

Outras canções de Chico Buarque, como Angélica, Cálice e Partido alto estão no roteiro do show; enquanto Apesar de você e Olê olá são ouvidas no bis. A elas se juntam músicas que anteriormente receberam interpretação do MPB4 — entre elas Oração ao tempo (Caetano Veloso), Canção da América (Milton Nascimento e Fernando Brant), Cicatrizes (Paulo Cesar Pinheiro e Miltinho), A lua (Renato Rocha), Vira virou (Kleiton e Kledir), Pois é, pra quê? (Sidney Miller) e Por quem merece o amor (Silvio Rodriguez e Miltinho).

Há ainda, entre as músicas incorporadas ao O sonho, a vida, a roda viva, as que o MPB4 canta pela primeira vez. É o caso de Desossado (João Bosco e Francisco Bosco), Brasileia (Guinga e Thiago Amud), Porto (Dori Caymmi), Ateu é tu (Rafael Altério e Celso Viáfora). 

Entrevista/ Miltinho


O MPB4 surgiu num dos momentos mais difíceis da vida do país, com a implantação da ditadura militar. Como era para jovens que militavam no Centro Popular de Cultura, ligado à União Nacional dos Estudantes, fazer música naquele período?
Nos conhecemos na escola de Engenharia da Universidade Fluminense , em 1961, e passamos a participar ativamente das atividades do CPC, braço da UNE em Niterói. Era um momento de muita efervescência artística. Muita coisa estava acontecendo no país e estávamos com olhos e ouvidos abertos a tudo. Inicialmente, Ruy, Aquiles e eu tomávamos parte em shows, peças teatrais, recitais e poesia. Eu tocava violão, o que me favorecia bastante. Aí conhecemos o Mago, que se juntou a nós.

Mas quando o grupo foi formado?
Antes formamos um quinteto instrumental, que se chamava MPB5. Mas, influenciados pela bossa nova e tendo Os Cariocas como referência, criamos o quarteto vocal com a sigla MPB-4 , sugerida por mim, e pelo Magro. 

Quando foi a estreia do conjunto?
Inicialmente, gravamos um compacto duplo pelo selo Sarau, no qual interpretávamos clássicos como Mascarada (Zé Keti e Elton Medeiros) e Samba da minha terra (Dorival Caymmi). Aí fomos para São Paulo, onde os festivais de música começavam a ser promovidos. Lá, conhecemos o crítico musical e produtor Chico de Assis, que montou um show nosso com o Quarteto em Cy, que fizemos numa casa noturna paulistana. O Chico conseguiu também uma apresentação nossa no Fino da Bossa, programa apresentado pela Elis Regina na TV Record. O mesmo show, mas com a participação da violonista Rosinha de Valença e do conjunto de Oscar Castro Neves, foi levado para a boate Zum Zum, em Copacabana, no Rio.

Mas foi o Festival da Record de 1967, quando dividiram a interpretação de Roda Viva com Chico Buarque (autor da canção) que os fizeram conhecidos nacionalmente. Esta é a data que vocês tomam, oficialmente, como marco do início da trajetória?
Na verdade, antes havíamos lançado o primeiro LP pela Elenco e participado de um Festival da Record de 1966, defendendo Canção de não cantar, do Sérgio Bitencourt, classificada em quarto lugar. Naquele ano, o Chico Buarque, com A Banda; e Geraldo Vandré, com Disparada, foram os vencedores. Aí, veio o festival de 1967, e, ao acompanhar o Chico em Roda viva (para a qual o Magro criou os arranjos instrumental e vocal), classificada em terceiro lugar, fomos, digamos assim, descobertos pelo Brasil. Tomamos esta data como marco inicial da carreira, em razão do reconhecimento do nosso trabalho pelo público.

A partir dali a carreira decolou de vez?
Depois do festival passamos a fazer muitos shows com o Chico, que, até por timidez, não queria se apresentar sozinho. Mas aí, com o endurecimento do regime militar, artistas começaram a deixar o Brasil.  Seguramos as pontas por aqui. As coisas estavam difíceis para artistas que se posicionavam contra a situação.

O Ruy deixou o grupo em 2004. A saída dele foi deteminada por divergências de que ordem?
A saída do Ruy, uma decisão dele, foi muito traumática para o grupo. Estávamos juntos há 40 anos, mas, na época, a relação já não era mais a mesma, entre ele e os demais integrantes do MPB4. Para nós foi muito difícil, pois o Ruy era um grande cantor, uma primeira voz aguda e marcante, solista em boa parte do nosso repertório. Felizmente, o Dalmo Medeiros, que o substituiu, veio de outro conjunto vocal, o Céu da Boca, e tem uma voz linda e perfil semelhante ao do Ruy. O show de lançamento do DVD, no Imperator, aqui no Rio, foi marcado pela emoção, pois homenageamos o Ruy, três dias após a morte dele.

Que falta faz o Magro, responsável pelos belos arranjos vocais do MPB-4?
O Magro morreu em 8 de agosto de 2012.  Ele era a razão da existência do MPB4. Além de criador de todos os arranjos, era responsável pela direção musical, distribuição das vozes e era quem comandava os ensaios. Quando ele morreu, pensamos em parar, mas acabamos decidindo pela perpetuação da nossa obra, com participação de Paulo Pauleira, outro grande cantor e arrajador que veio do Arranco de Varsóvia.

Na plenitude da maturidade, como vocês, que surgiram artisticamente nos anos de chumbo, verem o Brasil que se desenha atualmente, em meio a problemas de toda ordem?
Nos revoltamos, nos indignamos com o que vemos hoje no país, em vários segmentos. Há um retrocesso em relação a muitas das conquistas. Mas vamos manter viva a esperança, na expectativa de que melhores dias virão.

(foto: Som Livre/Reprodução)
(foto: Som Livre/Reprodução)
O sonho, a vida, a roda viva – MPB4 50 anos ao vivo 
DVD do grupo, com a participação de Kleiton & Kledir, lançamento do selo MPB. Preço sugerido: R$ 30.

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