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Correio Braziliense

Após pausa de 44 anos cineasta Sérgio Ricardo lança 'Bandeira de retalhos'

Filme de Sérgio Ricardo reconstitui o movimento que impediu a remoção de parte da favela do Vidigal, no Rio de Janeiro


postado em 24/01/2018 09:18 / atualizado em 24/01/2018 09:38

Sérgio Ricardo fez Bandeira de retalhos para celebrar uma vitória do cidadão comum (foto: Beto Staino/Universo Produção)
Sérgio Ricardo fez Bandeira de retalhos para celebrar uma vitória do cidadão comum (foto: Beto Staino/Universo Produção)

Tiradentes (MG) — “Essa apatia atribuída ao povo brasileiro não existe, é irreal. Fiz Bandeira de retalhos para lembrar de  uma vitória do cidadão comum sobre injustiças cometidas pelo governo contra a população”, diz Sérgio Ricardo sobre seu novo filme, exibido na noite de domingo na programação da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O longa-metragem, o primeiro do veterano músico, escritor e realizador paulista de 85 anos desde O espantalho (1974), recria o movimento popular que impediu a remoção de parte da favela do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em 1977.

Morador da comunidade carioca desde os anos 1970, quando se separou da primeira mulher, Sérgio Ricardo foi testemunha em primeira mão do ato de resistência da população. “O filme foi sendo estruturado dentro de uma forma dramática que fosse de fácil entendimento para o povo. Eu  vivo no meio dele, eu me considero parte dele”, lembra o diretor, que foi colaborador de Glauber Rocha nas trilhas sonoras de Deus e o Diabo na terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969). “Às vezes, a arte se distancia do povo. O pessoal do Cinema Novo percebeu isso e  tentou restabelecer contato com o público comum”.

Originalmente orçado em R$ 3 milhões, Bandeira de retalhos acabou sendo realizado com pouco mais de  R$ 90 mil, a partir de uma parceria com o Canal Brasil. Mas ele só se tornou viável com o apoio e o empenho dos moradores do Vidigal, que ajudaram na construção de cenários e figurinos, e a contribuição do coletivo de teatro Nós no Morro, que já havia montado uma versão do roteiro para o palco. “Dramatizei um fato histórico e a população da favela, identificada com aquela história, que era dela, resolveu participar também. Sou grato a todos eles”.

Sérgio Ricardo entrou para a história da cultura popular brasileira ao quebrar o violão após ser desclassificado no 3º Festival de Música Popular, da TV Record, em 1967, e do qual saiu sob vaias. Mas sua contribuição se estende também à literatura e ao cinema. É autor de títulos como Esse mundo é meu (1964), crônica de uma amizade interracial no Rio, e A noite do espantalho, outra história sobre desapropriação de terras – esta ambientada numa pequena comunidade do interior do sertão nordestino. Desde então esteve condenado ao ostracismo: o desejo de fazer Bandeira de retalhos remonta aos anos 1980.

 “Hoje em dia só faz filmes quem é milionário ou faz parte da patotinha que está ligada ao dinheiro (de fomento)”, acusa o diretor. “A gente pode aparecer com a ideia de um filme genial, ou com um tema importante, mas não pinta dinheiro se você não faz parte de determinados grupos privilegiados. Agora que o filme finalmente está pronto, o problema é outro: como fazer que ele chegue ao povo, seja exibido nas favelas e em cinemas de todo o país? Todos os meus filmes têm essa cara de guerrilha, acabam virando peça de museu”.

 Talvez estimulado pelos aplausos recebidos por Bandeira de retalhos em Tiradentes, Sérgio Ricardo agora alimenta o desejo de realizar outros projetos engavetados. “Tenho dois filmes ainda para fazer. O primeiro é A história de João e Joana, adaptação do único cordel que o (Carlos) Drummond (de Andrade) escreveu na vida. A (extinta) Embrafilme até já tinha aprovado a ideia, mas ai veio o Col.
 

Homenagem a Babu Santana 

 
Grande homenageado da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que termina no próximo sábado, Babu Santana interpreta o tributo como um momento para refletir sobre a própria carreira. “É como se o tempo tivesse parado para eu contemplar o que já fiz na profissão até agora”, diz o ator carioca de 37 anos, conhecido por papéis em filmes como Cidade de Deus ( 2002), de Fernando Meirelles, Estômago (2007), de Marcos Jorge, Tim Maia (2014), de Mauro Lima, e Café com canela, de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que abriu o festival mineiro na noite de sexta-feira.

Em pouco mais de 15 anos de cinema, a imagem de Babu esteve quase sempre associada a papéis de bandidos, policiais ou tipos das periferias. Ivan, o médico gay que sofre com a morte do companheiro em Café com canela, oferece uma oportunidade ao ator de quebrar o estereótipo construído ao longo de sua trajetória. “Pensamos em convidar o Babu logo depois que o assistimos em um programa de TV em que ele confessou o desejo de fazer um homossexual. Para nossa surpresa, ele topou trabalhar conosco, dois realizadores estreantes”, conta Rosa.
 
“O maior desafio de fazer o Ivan era uma sequência em que envolvia um beijo do personagem no marido dele. Cheguei a pensar: ‘Putz! Chegou a hora... Minha boca faz parte do meu corpo, não dá para simplesmente ignorar isso. Mas vamos lá’ E olha que o Ivan nem é uma bicha qua-quá, é um sujeito discreto e coisa e tal. 
 

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