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Correio Braziliense

Blocos de carnaval de Brasília se unem contra assédio e violência na folia

Campanha #FoliacomRespeito surgiu em virtude do crescimento no número de denúncias no ano passado


postado em 27/01/2018 07:20 / atualizado em 08/02/2018 18:46

(foto: Pedro Lino/Divulgação)
(foto: Pedro Lino/Divulgação)
No ano passado, durante os quatro dias de carnaval, as denúncias de assédio sexual subiram 90% em todo o Brasil, de acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres. Só no Distrito Federal foram registradas mais de 2 mil ocorrências no período, número similar ao registrado no mesmo período no Rio de Janeiro, considerado um dos maiores carnavais do país.
 
O aumento dos incidentes, o fato de o carnaval ser um período em que o problema fica ainda mais exposto (com casos de puxões de braço e cabelo, beijos forçados e estupros) e por inspiração de projetos em outras cidades, um coletivo formado por produtores, artistas e pessoas ligadas aos blocos alternativos do carnaval brasiliense lançou a campanha #FoliacomRespeito. “Ela veio de uma necessidade que os blocos já tinham verificado no ano passado com o crescimento dos casos e denúncias. Isso porque muitas pessoas sofrem assédio e acabam se sentindo coagidas e não denunciam. Era algo urgente e necessário”, explica Letícia Helena, do grupo Cantigas Boleráveis, integrante do Bloco do Amor e uma das envolvidas na campanha.
 
Com apoio de 33 blocos alternativos, o objetivo é empoderar as mulheres e também as minorias, como o público LGBT, que se tornou alvo de violência no período em 2017, para se manifestar em casos de violência e assédio. O objetivo principal é pregar também o sentimento de respeito ao longo da folia, que já teve início com as festas pré-carnavalescas e segue até depois do carnaval com as ressacas. “No nosso bloco (Vai com as Profanas), a gente deixa sempre muito claro que não tolera homofobia e machismo. Toda a nossa comunicação é de tentar passar uma mensagem de respeito que veio muito a casar com a campanha articulada pelos blocos”, explica Gabriela Alves, do Bloco Vai com as Profanas, um dos apoiadores do projeto.
 
Totalmente independente, a campanha foi pensada e bancada pelos blocos da cidade que fizeram uma vaquinha entre eles mesmos, em que arrecadaram R$ 1 mil. O valor foi utilizado para a divulgação do projeto, a concepção de vídeos, flyers (confira acima)e até de tatuagens temporárias, essas últimas feitas pela marca local Conspiração Libertina, que já tem como diretriz esse tipo de mensagem, como “Não é não”, “Respeitas as minas, as monas e as manas” e “Meu corpo, minhas regras”.
 
Parte da campanha começou a ser divulgada na internet e, a partir deste fim de semana, tomará as ruas nos blocos integrantes que desfilarão nesse período. É o caso de Vai com as Profanas, Maria Vai Casoutras, Bloco do Amor, Bloco das Divinas Tetas (que estará no projeto Imagina no Carnaval) e todo o chamado “Setor Carnavalesco Sul”, localizado no Setor Comercial Sul. “Esse é um dos temas que acaba sendo deixado de lado no carnaval. Nossa ideia é que as pessoas se sintam empoderadas o suficiente para construir um canal de comunicação”, analisa Letícia Helena.

Ver galeria . 6 Fotos Humberto Araújo/Divulgação
(foto: Humberto Araújo/Divulgação )


 O governo do DF informou que também vai realizar durante o período carnavalesco (que vai do pré ao pós-carnaval), campanhas educativas e informativas nas mídias sociais e em materiais impressos, que serão entregues nos blocos, sobre o combate a diferentes tipos de violência, intolerância e prevenção de doenças. De acordo com a Secretaria de Cultura, os temas que serão abordados são: combate à violência de gênero, assédio sexual, LGBTFobia, exploração sexual de crianças e adolescentes, racismo, machismo, intolerância religiosa e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.
 
Uma das primeiras campanhas divulgadas pelo GDF em suas redes sociais foi relacionada a casos de assédio sexual na folia. Com a frase “Depois do não, tudo é assédio”, que se popularizou nos últimos dias após postagem da youtuber Jout Jout, a imagem também informa sobre as centrais de atendimento à mulher para denúncias.

Movimento pelo Brasil

 
As campanhas contra assédio começaram a aparecer nas folias de todo o Brasil nos últimos anos com a maior exposição do tema. Há dois anos, diversos movimentos, ao lado da revista AzMina, se uniram e fizeram um manual intitulado de Guia prático e didático da diferença entre paquera e assédio, como parte da  campanha #CarnavalsemAssédio. Em 2017, a campanha ganhou um novo tema: #UmaMinaAjudaAOutra, em que as mulheres eram convidadas a ficarem atentas aos casos de assédio que outras poderiam sofrer.
 
No Recife, há dois carnavais é promovida pelo governo local uma campanha nas redes sociais que alerta para casos de assédio por meio do “Manual prático de como não ser um babaca no carnaval”. Em Belo Horizonte, os blocos de rua promoveram no ano passado a campanha “Tira a mão: É hora de dar um basta”.
 
Neste ano, a cidade de Ouro Preto (MG) anunciou que vai aderir a campanha “Aconteceu no carnaval”, lançada no Recife com apoio no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e em João Pessoa. O projeto expõe a naturalização do assédio no carnaval, é um canal de denúncias para as mulheres e um mapeamento de áreas inseguras nas cidades. O projeto é uma iniciativa das redes Mete a Colher, Women Friendly e várias outras organizações no Brasil.
 
Nos dias de folia, serão distribuídos panfletos informativos, as ruas ganharão cartazes sobre o tema e um site estará disponível para a exposição de casos de assédio. A campanha não substitui a ocorrência nas delegacias, mas tem como missão quebrar o silêncio, dar visibilidade e reunir dados específicos dos incidentes. Só no ano passado, segundo relatório disponível no portal, o site registrou como os maiores tipos de denúncias casos de passada de mão nas genitálias ou seios, beijo forçado, agressão verbal, abraço forçado, puxão no braço e agressão física.
 

Como denunciar

Denúncias podem ser feitas pela central de atendimento no número 180 e na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM), na 204/205 Sul.

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