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Correio Braziliense

Historiador britânico lança obra 'Viva la revolución - A era das utopias'

A maioria dos textos foi escrita no momento (ou poucos anos depois) em que os fatos ocorreram


postado em 27/01/2018 07:25

Eric Hobsbawm: interesse pelas questões sociais da América Latina(foto: Evelson de Freitas/Folhapress)
Eric Hobsbawm: interesse pelas questões sociais da América Latina (foto: Evelson de Freitas/Folhapress)

O historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012) se sentia em casa na América Latina. Em sua autobiografia, afirmou que, fora da Europa, a região era a única que achava conhecer bem. Atraído ao continente pelo potencial para a revolução social após a Segunda Guerra Mundial, Hobsbawm escreveu muito sobre suas viagens aos países latinos. Viva la revolución — A era das utopias na América Latina traz 31 textos do historiador com suas impressões e análises sobre a situação política da região. Os artigos e ensaios, publicados entre as décadas de 1960 e 1990, trazem com detalhes momentos turbulentos da história latina e análises sobre seus principais personagens.

A Revolução Mexicana, a Revolução Cubana, os movimentos camponeses no Peru e na Bolívia, as guerrilhas na Colômbia e o cangaço do sertão nordestino no Brasil. Quase nenhuma revolta ou revolução — bem-sucedidas ou fracassadas — passou despercebido pela curiosidade de Hobsbawm, que faz até um comentário sobre a bossa-nova: — “um cruzamento entre a música urbana e o jazz, criado nos círculos de jovens ricos do Brasil”.

No Brasil, o pesquisador ficou chocado com o atraso econômico e a pobreza que encontrou em Pernambuco, mas viu enorme potencial para organizações camponesas da região. Ao final da década de 1960, publicou estudo sobre o movimento do cangaço no sertão nordestino entre 1870 e 1930, destacando os passos e o simbolismo de seu principal nome: Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião. Para o britânico, os “bandidos sociais” não eram simplesmente criminosos, mas “foras da lei camponeses” que expressavam o descontentamento com o abandono e as injustiças sociais do país.

A maioria dos textos foi escrita no momento (ou poucos anos depois) em que os fatos ocorreram, o que faz as análises refletirem tensões e dúvidas sobre episódios importantes da história latino-americana. Além do ponto de vista do historiador, Hobsbawm faz questionamentos que deixam em aberto possíveis desdobramentos. Hoje, décadas depois, temos as respostas para algumas dessas perguntas.

Perspicácia

Sua primeira visita à América Latina aconteceu em 1960, quando foi convidado pelo Partido Comunista de Cuba para conhecer o país que acabava de passar por uma revolução. Membro do PC Britânico desde o final da década de 1930, Hobsbawm considerou o movimento liderado por Fidel Castro “cativante e estimulante”, mas com perspicácia que incomodou os companheiros de partido, alertou que os demais movimentos guerrilheiros do continente que tentavam copiar o modelo cubano tinham poucas chances de ter sucesso. “Suas condições eram peculiares e de difícil repetição”, escreveu o historiador, apontando que os revolucionários de Sierra Maestra não eram comunistas ou sequer defendiam ideias marxistas, mas que o cenário da Guerra Fria os fez se aproximar de grupos socialistas.

O médico argentino Ernesto “Che” Guevara mereceu capítulo especial. O texto, publicado seis meses após a morte do líder revolucionário, aborda a imagem criada em torno de Guevara nos anos seguintes à Revolução Cubana e logo após sua morte. “Todos concordam que ele foi corajoso, bonito, relativamente jovem, um intelectual e revolucionário que sacrificou sua vida pela libertação dos oprimidos. No entanto, para além desse ponto, as opiniões divergem”, avalia o britânico.

Depois de acompanhar os movimentos camponeses, Hobsbawm nota “como houve poucas revoltas — até mesmo por comida — nas grandes cidades latino-americanas durante um período em que se multiplicou a massa de seus habitantes pobres e economicamente marginalizados e a inflação ficou fora de controle com frequência”.

No entanto, diante da constatação extrema pobreza em grandes centros urbanos da região durante as décadas de 1960 e 1970, o historiador afirmou que as turbulências e revoluções seriam quase certas. “Quarenta por cento da população de Lima ou do Rio de Janeiro e metade da população de Recife vivem — se é que essa é a palavra apropriada — como refugiados de um terremoto em favelas e acampamentos”, constatou. A falta de mobilização política das pessoas seria questão de tempo para Hobsbawm: “A paixão que é atualmente descarregada sobretudo na torcida de times de futebol não permanecerá longe da política para sempre”, apostou.

VIVA LA REVOLUCIÓN
De Eric Hobsbawm
Companhia das Letras
560 páginas
R$ 69,90 (livro) e R$ 39,90 (e-book)

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