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Correio Braziliense

Livro de Glen Weldon investiga o fascínio em torno do personagem Batman

Na obra recém-lançada no Brasil, fala das mudanças ao longo do tempo e da relação do herói com o nascimento da cultura nerd


postado em 28/01/2018 07:30

(foto: Reprodução/Internet)
(foto: Reprodução/Internet)

Afinal, quem é Batman? O super-herói violento e sombrio dos quadrinhos de Frank Miller e dos filmes de Christopher Nolan ou o engraçado e desengonçado personagem interpretado por Adam West nas séries de tevê dos anos 1960? Todos eles e um pouco mais, garante o escritor americano Glen Weldon em A cruzada mascarada — Batman e o nascimento da cultura nerd, recém-lançado no Brasil.

No livro, Weldon, ele mesmo um obcecado pelo personagem, investiga as razões para o fascínio dos fãs pela figura do Batman, as mudanças do herói ao longo do tempo e a relação da obsessão pelo Homem Morcego com o surgimento e o fortalecimento da cultura nerd no mundo todo.

Logo no início, o autor tenta derrubar alguns mitos. A ideia de que Batman é gente como a gente e que qualquer um poderia ser como ele, para o escritor, não tão é verdade, ainda que seja um dos grandes pilares para a paixão pelo herói.

Ele também nega, por exemplo, que o morcego seja um personagem mais elaborado do que o Superman, como muitos apregoam. “Esse livro tenta mostrar que um monte de gente diz isso porque Batman é humano e Superman, essencialmente, um deus, mas essas pessoas estão ignorando o fato de que Batman tem um superpoder, algo que o diferencia da humanidade: sua riqueza, que funciona, em qualquer história de Batman, essencialmente, como mágica”, disse Weldon ao Correio.

Weldon dá também outros pontos de vista ao herói para além da figura sombria e sempre em conflito. A esperança, garante o autor, está sempre presente na trajetória do alter ego de Bruce Wayne. “Ver Batman apenas como uma criatura psicologicamente torturada é ignorar o fato de que ele é um personagem que vive na esperança — que tem se dedicado à noção altruísta, a um ideal nobre como o do Superman”, completa.

Autor de Dicionário do Morcego (com 1,5 mil verbetes sobre o herói), o jornalista Sílvio Ribas defende, no entanto, que o fascínio por Batman se dá, sim, muito pela humanidade do personagem. “Ele, a rigor, é um humano comum, que se fez por conta própria e não deixa de ser o herói da força de vontade, da autorrealização, da resiliência. E isso cria uma identificação”, aponta.

Catalisador


Outro ponto de destaque no livro de Weldon é a ideia de que Batman foi fundamental para o desenvolvimento da cultura nerd. Além de ser porta de entrada para muitos obcecados pelo mundo geek (nos quadrinhos, no cinema ou na tevê), o próprio Bruce Wayne era um nerd obcecado por bugigangas tecnológicas e conhecimento. “Ele tem dinheiro para usar a tecnologia para fazer o máximo que o ser humano pode. E isso para cultura geek é incrível”, observa Ribas.

Antes disso, na visão de Weldon, os nerds tinham vergonha da própria condição e eram vistos como figuras desengonçadas e estranhas. “Nerds, historicamente, viram-se atraídos por ele tanto porque  compartilham muitos dos atributos de sua personalidade quanto porque eles se viam como próximos. Ele não é um estrangeiro”, diz o escritor americano.

Então, Batman deu a eles a possibilidade de sair da caverna. “Foi Batman — o Batman obsessivo, o Batman maior dos nerds — que serviu de catalisador para bilhões de normais adotarem essa cultura que antes eles renegavam ou rejeitavam”, escreve Weldon em trecho do livro.

Juramento


Para Weldon, por mais brega que possa parecer aos fãs mais fascinados pelo lado obscuro e violento do herói, o que realmente prende o público a Batman é justamente a forma como ele mantém a esperança e se mantém fiel ao juramento feito quando viu os pais morrerem. “Ele representa a noção de autossalvamento por meio de altruísmo. Pense nisto: ele tem todo o dinheiro do mundo, e uma raiva dirigida contra a injustiça feita a ele como uma criança. E o que ele faz com tudo isso é se dedicar a uma noção simples: ‘Nunca Mais. O que aconteceu comigo nunca vai acontecer com qualquer outra família’”, explica.

“E juro, pelos espíritos dos meus pais, vingar suas mortes, dedicando o resto da minha vida à guerra contra todos os criminosos”, diz o herói pela primeira vez na revista Detective Comics, número 33, de 1939. O juramento comprova a ideia de que, apesar de tudo, é a esperança que move o Morcego. O que salva Batman da perdição é a promessa de passar a vida evitando que o que aconteceu com ele se repita com outras pessoas.

Ribas concorda com a visão de Weldon de que o Morcego é o herói da esperança. “Uma criança que toma a decisão de não se autodestruir ou destruir qualquer um, mas a de que ninguém mais pode viver o sofrimento e a tragédia que ele viveu. Ele escolhe o caminho de valorização da vida, de que as pessoas não sejam condenadas a ser vítimas para sempre. Ele é, de fato, um ícone de esperança.”

Duas perguntas // Glen Weldon

Assim como Superman e outros heróis dos quadrinhos, Batman também tem uma dimensão política?
Algumas pessoas gostam de compará-lo a Trump, ou vê-lo como um oligarca reacionário, um vigilante de direita que agride cidadãos sem o devido processo. Há uma parte dele que é assim. Mas, nos anos 1990, quando violentos anti-heróis mostravam toda a raiva nos quadrinhos, o código de Batman contra o homicídio, contra o uso de armas, o distinguia. Para muitos leitores, isso o fazia parecer fora de contexto, leve, antiquado. Mas seu compromisso com um código contra assassinato —  e a dedicação de Bruce Wayne à filantropia e, vou dizê-lo, à justiça social —  o torna atípico, no mundo cada vez mais sombrio e niilista dos super-heróis.

O que você acha da representação recente do personagem nos filmes?
Batman de Tim Burton foi mais um personagem Tim Burton do que Batman. Joel Schumacher foi um retorno para os dias de Adam West (e eu faço uma defesa muito vigorosa de West e de Schumacher no livro). Batman de Nolan estava tão obcecado com uma hiper-realidade cinzenta que um pouco da diversão foi deixada para fora. E o Batman de Snyder parece  sempre que está sentado no repolho cozido.

(foto: Editora Pixel/Divulgação)
(foto: Editora Pixel/Divulgação)
A cruzada mascarada – Batman e o nascimento da cultura nerd
Glen Weldon. Editora Pixel. 344 páginas. R$ 49,90.

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