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Correio Braziliense

James Franco expõe narcisismo de Tommy Wiseau no longa Artista do desastre

O filme mostra o cineasta cult que faz coro com outros derrotados tipos da sétima arte


postado em 28/01/2018 07:30 / atualizado em 26/01/2018 17:58

The room: sucesso entre legiões de público alternativo tem os atores Tommy Wiseau e Greg Sestero em cena(foto: The room: sucesso entre legiões de público alternativo tem os atores Tommy Wiseau e Greg Sestero em cena)
The room: sucesso entre legiões de público alternativo tem os atores Tommy Wiseau e Greg Sestero em cena (foto: The room: sucesso entre legiões de público alternativo tem os atores Tommy Wiseau e Greg Sestero em cena)

 
Incorporando referências tão notáveis quanto promissoras — que vão do diretor e pedagogo cênico Stanislavski aos mestres Shakespeare e Hitchcock, passando por Marlon Brando —, o longa-metragem Artista do desastre poderia muito bem despertar séria consideração. E, na verdade, deve ser levado em conta, mas não pelas altas expectativas; ao contrário. Indicado ao prêmio de melhor roteiro adaptado, no Oscar, o filme examina precisamente o método de criação de um dos piores diretores da atualidade — o excêntrico Tommy Wiseau.

Artista do desastre analisa os bastidores do filme que o crítico Ernest Mathijs (coautor de The cult film reader) taxou de “o Cidadão Kane dos piores filmes”. Tommy Wiseau (no filme, interpretado por James Franco) quer ser tudo — astro, diretor, roteirista e produtor de The Room —, e, desembolsando estimados US$ 7 milhões, consegue.
 
 
O mais divertido em toda a história da vida real é que, depois de faturar prêmio de público, pelo Festival Internacional de Filmes e Vídeos Independentes de Nova York, Wiseau viu The room ter salas repletas de espectadores (em sessões alternativas) e ganhar, nos auditórios de faculdades, status de cult.

Sotaque

Com o ego inflado à décima potência, Wiseau, em Artista do desastre, busca o sucesso em Los Angeles (que abriga Hollywood) vaticinando que vencer, por lá, não se trata de sorte. “É questão de ser o melhor!”, pontua. Um sotaque absurdo, uma languidez permanente, o olhar rebaixado e a adoção de um tom monocórdio definitivamente não abrem as maiores das portas para Wiseau na meca do cinema.

Meio confuso, involuntariamente engraçado, nada talentoso, enquanto galga uma carreira pelas beiradas, na ensolarada Califórnia, o tosco cineasta cria uma espécie de bordão (endossado na vida real), pedindo que todos ignorem sua vida pessoal. Investindo alto, ele se recusa ao tradicional aluguel de equipamentos cinematográficos, optando pela compra da parafernália da produção que terá enormes atrasos de cronograma.

Renegando “tratamento especial” para o amigo e companheiro de set Greg Sestero (também um personagem da vida real, interpretado por David Franco), o protagonista se aventura, pouco ciente das imperfeições da fita que cria, na impressão de “sua visão de mundo para o planeta”, e também pouco alerta dos próprios veios de ditador na condução da equipe arregimentada. Carente, ambicioso e com pausas dramáticas ridículas (aos moldes de um James Dean, mas sem talento), Johnny Wiseau é uma catástrofe, em cena.

Além da crença de que tudo, em cinema, pode ser justificado pela “emoção” e pela diversidade do “comportamento humano”, o hilário diretor expõe, em The room, uma trajetória de martírio para seu personagem Johnny. A quem interessar possa: Johnny é traído por deus e o mundo, repete (a  d nauseam) caretas de uma forte interpretação e prega um aprendizado duro para todos que o cercavam — suicida, pretende causar um remoroso coletivo. Ciúmes, doenças e vícios — além de toda a sorte de misérias — se fundem em The room. Mas, inesquecível mesmo é uma das falas do esforçado e tosco Johnny: “Você está me magoando, Lisa!”. Só vendo, para crer.
 
 Num mundo em que o indicado ao Oscar Darren Aronofsky (de Cisne negro) pode viver o revés da indicação ao Framboesa de Ouro (atribuído aos piores), por Mãe! (título com o qual competiu no Festival de Veneza), dá para se entender que gosto não se discute. Confira a seguir altos pontos baixos daqueles diretores que estão longe da unanimidade:


Tortura selvagem — A grade (2000)
A ação, de fato, descontrolada e a incoerência voltaram a marcar presença no longa dirigido pelo cineasta bombeiro, em 1999. Morto em 2003, Afonso Brazza conduziu, sob a bênção (ou maldição) de Zé do Caixão, este filme que mostra um injustiçado catador de papel preso em forjado flagrante.

Glen ou Glenda? (1953)
Foi justamente ao longo da década de seu falecimento, que o nova-iorquino Edward D. Wood Jr. ganhou o lastro de cult, depois de 17 filmes escandalosamente ruins. Com Glen ou Glenda?, ele, para além dos erros brutais de continuidade, destila o péssimo gosto para a trilha sonora, colocando um nada ético doutor a discutir hábitos de pacientes: um é crossdresser e o outro pretende mudar de sexo. Na produção Ed Wood (1994), Johnny Depp interpretou o diretor.

Estou com Aids (1985)
“Queria um filme forte — a própria doença não deixaria dúvidas —, esclarecedor, sem erotismo ou pornografia. Até porque não combinava”, registra David Cardoso, na autobiografia que ele batizou como Rei da Pornochanchada. Mesmo com o “erro” assumido, em torno de Estou com Aids, David não apaga o constrangimento com a fita em que, num roteiro que mistura ficção e realidade, personalidades erram na mão, com direito a declarações bizarras.



Filmes bem estranhos



Faster, pussycat — 
Kill! Kill!, de Russ Meyer (1965)



O ataque dos tomates assassinos, de John De Bello (1978)



O vingador tóxico (1984), de Lloyd Kaufman e Michael Herz


Que pedaço de mulher (Frankenhooker) (1990), de Frank Henenlotter
 
 
 
 



 
 
 
 
 

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