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Correio Braziliense

Mago das trilhas sonoras ganha mostra no CCBB

Em 2018, o músico Ennio Morricone, criador de músicas únicas, fará 90 anos.O evento celebra a data, com retrospectiva de 22 títulos nos quais trabalhou


postado em 30/01/2018 06:20 / atualizado em 29/01/2018 17:56

Teorema, de Pasolini, apresenta um personagem transformador, na mostra do CCBB(foto: Sinny Assessoria/Divulgação)
Teorema, de Pasolini, apresenta um personagem transformador, na mostra do CCBB (foto: Sinny Assessoria/Divulgação)
 

 

Em cinema, existe praticamente uma casta que, dada a experiência e o grau de especialização, pouco se renova, mas, obviamente, nunca deixa de se reciclar: são os compositores de trilha sonora. Nesse leque de intensa musicalidade, há quem tenha sido esquecido, como Alfred Newman (morto em 1970, depois de incontáveis trilhas de cinema), e há também quem nunca deixa de ser lembrado; caso do compositor John Williams, que, aos 86 anos, já teve mais de 46 indicações ao Oscar. Sem desmerecer Williams, vale a lembrança da eterna união dele com o cinema comercial, em regulares parcerias com Spielberg e outros medalhões. Neste cenário de excelência, jogando em títulos bem mais alternativos, desponta o italiano Ennio Morricone. No ano em que completará 90 anos, ele ganha a mostra Sonora: Ennio Morricone, a partir de hoje, no CCBB (com programação, ocasionalmente, gratuita).


Há 11 anos, Morricone recebeu o Oscar Honorário, pela “magnífica e multifacetada contribuição” ao cinema, tendo trabalhado com Federico Fellini, e assinado a trilha de obras de criadores como Terrence Malick, Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar e Bernardo Bertolucci. Curioso é que foi apenas na singela sexta indicação ao Oscar (por Os oito odiados, título incluído na mostra do CCBB), que Morricone tenha ganhado um Oscar competitivo. Naquela premiação, há dois anos, ele estendeu o tributo ao estimado John Williams, e completou, no discurso, que “não existe uma grande trilha, exceto que haja um grande filme que a inspire”.


Até 25 de fevereiro, será possível conferir 22 filmes destes títulos aos quais Morricone se referiu, com uma data especial — 4 de fevereiro —, quando, às 17h, a jovem orquestra Reciclando Sons fará apresentação no local. Antes da abertura oficial, hoje, às 19h, com exibição de A missão, será possível, às 16h, conferir, de graça, Três homens em conflito (de Sergio Leone), um western em que Ennio pregava parte de seus recursos musicais: o uso de coros e de assobios. De dramas intimistas ao emoldurar de épicos, a produção de Ennio é tão intensa — batendo a casa dos 500 filmes — que ele até se dá ao luxo de adotar pseudônimos como os de Leo Nichols e Nicola Piovani. No terreno das trilhas, em que se afirmaram talentos como e Danny Elfman, Elmer Bernstein e Alexandre Desplat; Morricone é referência absoluta.1


Diversificada, a exemplo da carreira do colega Elmer Bernstein (morto em 2004), a trajetória de Ennio Morricone pode adquirir o tom emocional de fitas afetivamente estridentes como as de Giuseppe Tornatore, quando entram em cena títulos como Malèna (2000), em torno do rito de passagem de garotos que mais do que admiram a viúva de um soldado, e Cinema Paradiso (1988), uma ode à sétima arte. Ambos os filmes incluídos na programação conversam com a sonoridade de A missão (1986), outro ponto alto de Ennio, e que mostra a crise ética vivida por um padre e ex-mercador de escravos que, no século 18, fica pressionado por forças ligadas a poder financeiro.

Vários estilos

Filmes de terror como O enigma de outro mundo (1982), assinado pelo mago John Carpenter, e títulos como Cão branco (1982), de Samuel Fuller, em que se faz necessário reeducar um cachorro doutrinado a atacar pessoas negras, são bons espectros da diversidade do cinema compactuado por Morricone. Amanhã, o CCBB exibe (de graça), às 16h30, O cérebro do mal (1972), filme de Sergio Solima que revela o destino de uma criança parricida internada em hospital psiquiátrico. Com o mestre do terror e compatriota Dario Argento, Ennio fez O pássaro das plumas de cristal (1970), em que um escritor desacredita das forças da polícia, ao deparar com uma série de assassinatos em Roma.


Nessa mesma cidade, Ennio seguiu literalmente a herança de trompetista do pai com quem tocou jazz, por muitas noitadas. Foi na Itália também que estão gêneses das obras-primas da mostra do CCBB, entre as quais Os intocáveis (1987), sobre a corrupção vigente à época da lei seca, com destaque para o Al Capone criado por Robert De Niro, nesse filme de Brian De Palma, e 1900 (de 1976, a ser mostrado sexta, às 15h30), em que Bertolucci tratou da germinação do fascismo e do comunismo, ao examinar os 45 anos das vidas de Olmo (Gérard Depardieu) e Alfredo (De Niro). 1900 é desenvolvido em mais de cinco horas de enredo. Teorema (1968), feito há mais de 50 anos, é outro clássico (no caso, de Pier Paolo Pasolini) da mostra. No filme, há dispersão de costumes numa família provocada pela visita de um homem bastante provocador.

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