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Correio Braziliense

Cinco jovens pintores de Brasília ajudam a renovar a arte

Silvie Eidam, Pedro Gandra, Talles Lopes, Bia Leite e Hermano Luz são destaques nas galerias de Brasília


postado em 30/01/2018 06:25 / atualizado em 31/01/2018 11:51

Paisagens e figuras humanas são presenças constantes na obra de Pedro Grandra(foto: Luiz Roberto/Divulgação)
Paisagens e figuras humanas são presenças constantes na obra de Pedro Grandra (foto: Luiz Roberto/Divulgação)

 
Se para Leonardo da Vinci pintura era coisa mental, para alguns artistas ela também é física. Ou fisiológica, em certos casos. É difícil fugir do pincel para quem encontrou abrigo nesse tipo de linguagem. E, curiosamente, Brasília é um cenário fértil para esse tipo de operário. A alemã Silvie Eidam encontrou na capital o sossego para pintar. Pedro Gandra veio do Rio de Janeiro e reencontrou a pintura no Planalto Central. Talles Lopes é de Anápolis e de lá conversa com o mundo sobre questões sérias munido de tinta e papel. A capital é uma referência para o jovem goiano. Bia Leite ganhou o noticiário nacional quando um de seus trabalhos foi alvo de ataques no episódio da exposição Queermuseu, no Santander, em Porto Alegre. Eles representam uma nova geração de pintores da cidade, gente que é muito ligada na figura humana e entende a técnica como um espaço de reflexão e narrativas que podem ser, também, muito políticas. Nascido em Recife e criado entre Brasília e Nova York, Hermano Luz procura imagens que resuma o repertório visual de sua geração. Conheça o trabalho e a trajetória desses cinco jovens pintores que fizeram da capital campo de pesquisa e de vivência.

Ver galeria . 4 Fotos Talles Lopes/Divulgação
(foto: Talles Lopes/Divulgação )


Pintura: uma necessidade
Pedro Gandra nasceu no Rio de Janeiro e começou a frequentar a Escola de Artes Visuais do Parque Lage aos 12 anos. Era quase natural  aterrissar diante de um cavalete.  Aos 22 anos, ele sabe bem o peso da formação do Parque Lage. Mas foi em Brasília, cidade frequentada desde a infância, que ele reencontrou a pintura. Em 2011 o artista foi selecionado para participar do Salão do Iate Clube. “A partir dali, fui expondo sem parar”, lembra. As narrativas com as quais trabalha são sempre figurativas e encontram um apoio na fotografia, embora esta última não seja a base. Paisagens e figuras humanas são presenças constantes, assim como a cor. “Eu sempre quis fazer uma pintura figurativa, mas não queria uma pintura fotográfica. Queria uma pintura que não esbarrasse nos registros fotográficos. Mas sei que minha pintura está encharcada de fotografia”, admite. O trabalho tem chamado a atenção de curadores e, atualmente, pode ser visto na coletiva Fronteiras da pintura – Fronteiras da ilusão, em cartaz até fevereiro no Museu dos Correios. “O que a pintura tem de interessante é que ela é muito elástica e me oferece um vocabulário gigantesco”, garante o artista, que no ano passado realizou quatro exposições e venceu, pelo júri popular, o Concurso Garimpo da Revista DasArtes. 


Geografias políticas
Talles Lopes, 20 anos, nasceu em São Paulo e cresceu em Anápolis. Localizada a 211 km de Brasília, a cidade é até hoje o refúgio do artista, que tem formação autodidata e um trabalho cujo conteúdo resultou na seleção para dois salões e uma coletiva. A pintura de Lopes mistura elementos da cartografia e figuras humanas. Para ele, mapas são maneiras de estabelecer discursos sobre o espaço. “E não são tão científicos quanto parecem ser. No fundo, a relação com o espaço é muito subjetiva”, explica. A ligação entre o que chama de estruturas arcaicas de poder  e a cartografia é um exemplo dos discursos que podem ser criados. Lopes lembra que, antigamente, os mapas eram construídos baseados no relato de viajantes sobre paisagens, faunas e floras. Por isso suas pinturas são carregadas de figuras antropomórficas. Uma parte da série está em exposição no Museu dos Correios, mas também foi selecionada para salões como o Anapolino e o de Ribeirão Preto. 

Pintura não pode
Quando chegou a Brasília, há 14 anos, a alemã Silvie Eidam descobriu que pintar não era apenas uma possibilidade, mas um vasto campo de  pesquisa. Nascida em Frankfurt e hoje com 33 anos, ela havia aprendido, durante um ano de curso no Goldsmiths University of London (Inglaterra), que tinta e pincel eram coisas ultrapassadas. “Eu pintava antes de ir para a Inglaterra, mas lá aprendi que não podia pintar porque era careta. Só fui retomar a pintura há uns quatro anos, aqui em Brasília, porque tem uma pesquisa, principalmente entre artistas da minha geração”, conta. Em 2017, ela mostrou a série Masculinidades no Elefante Centro Cultural, um conjunto de pinturas de rostos de homens realizadas a partir de fotos do Facebook com a intenção de questionar papeis sociais. Agora, Silvie está mergulhada em pesquisa mais intuitiva, ancorada nos próprios sonhos. A artista anota os sonhos para depois utilizá-los em composições às quais mistura autorretratos. Chamou a série de Fora do lugar. “É o corpo no lugar de alteridade, do diferente, do outro”, avisa, que, no ano passado, expôs em Frankfurt e em Brasília.


Internet como fonte
O nome de Bia Leite, 27 anos, ganhou as manchetes no ano passado quando uma de suas pinturas exposta na mostra Queermuseu, no Santander de Porto Alegre, foi considerada apologia à pedofilia. Os quadros discutiam questões para as quais, segundo a artista, a sociedade prefere fechar os olhos. Tinta e pincel são os instrumentos que Bia considera apropriados para falar desses temas, mas ela não se limita a eles e utiliza a internet como fonte infinita de imagens que sempre a levam diretamente para a pintura. Na rede, ela colhe as fotografias depois transpostas para os quadros em uma releitura particular. “O que faço é me apropriar de imagens e colocar no universo da pintura. E aí adquire outro significado”, explica. Cinema, medicina, publicidade, desenhos infantis e produções amadoras são alguns dos temas com os quais gosta de trabalhar. Bia nasceu em Fortaleza e veio para Brasília em 2010 para cursasartes visuais na UnB. Começou a pintar quando fez o curso de desenho para a prova de habilidade específica e continuou a experimentar com tinta e pincel durante as aulas de pintura na universidade. O cinema foi uma das primeiras influências na pintura de Bia, que se apropriou de posteres de filmes na internet e levou as composições para as telas. " A pintura tem uma relação direta com o cinema. O cinema é criador de um imaginário da soceidade", explica.

Ícones de uma geração
O material de trabalho de Hermano Luz é a própria memória e as referências nela embutidas. Nascido em Recife, o pintor cresceu entre Brasília e Nova York e é cria da Universidade de Brasília (UnB). Na tela, Luz procura imprimir imagens colhidas no que acredita ser o repertório visual de sua geração. Depois de um mestrado na Universidade de Castilla-La Mancha (Espanha), ele se deu conta de que suas referências eram bem brasileiras. “Notei que imagens e ícones que eu considerava globais e memoráveis na minha infância eram desconhecidos por meus colegas”, conta. No repertório, ele inclui coisas como o seriado do Jaspion, as videocassetadas e as locadoras de filmes. “Essas imagens e a cultura que carregavam, em parte pelos avanços tecnológicos, perderam sua função ou terminaram caindo no esquecimento. Trata-se do processo de morte de mídia recente, da minha geração”, explica. Aos 26 anos, o artista está com obras em cartaz na exposição Fronteiras da Pintura, Fronteiras da Ilusão. Em 2017, a pintura de Luz chamou a atenção de curadores do Rio e de São Paulo. No ano passado, ele esteve na coletiva Experiência N.11, realizada no Rio e com curadoria de Efraim Almeida e Marcelo Campos, e em Imersões, também com curadoria de Almeida a Marcelo Campos, além de Marisa Florido. Em São Paulo, foi selecionado para o 45ª Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto e para a 28ª Mostra de Artes da Juventude no Sesc de Ribeirão Preto. Também expôs no projeto Biblioteca do amor, de Sandra Cinto, em Cincinatti (Estados Unidos).
 
 
 
 
 



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