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Correio Braziliense

Cineasta brasiliense lança comédia sobre o funcionalismo público do país

Santiago Dellape fala sobre o longa 'A repartição do tempo', uma narrativa de ficção científica sobre a burocracia, permeada de humor


postado em 01/02/2018 07:43 / atualizado em 01/02/2018 13:08

Santiago Dellape é o diretor de A repartição do tempo, em cartaz nos cinemas(foto: Luciana Melo / Divulgação)
Santiago Dellape é o diretor de A repartição do tempo, em cartaz nos cinemas (foto: Luciana Melo / Divulgação)

 
Com sete curtas-metragens no currículo, que ainda é integrado por dois longas, o cineasta brasiliense Santiago Dellape experimenta um momento especial: além do lançamento do longa  A repartição do tempo, hoje, nos cinemas, Dellape tem convivido com a recente repercussão do telefilme Meio expediente, ambas as obras ligadas pelo binômio trabalho e Brasília. “Não há desprestígio na relação entre tevê e cinema. Hoje em dia, na tevê, você pode ter coisas tão boas ou até melhores do que as que vemos nos cinemas”, observa o diretor, impactado com a receptividade do telefilme visto por 10 milhões de pessoas.

Funcionário público da Esplanada dos Ministérios, Santiago Dellape sabe do que fala, ao examinar relações mantidas, numa repartição, entre concursados, terceirizados e a máquina pública estatal. Assentado no caminho do absurdo possível para uma ficção científica brasileira, A repartição do tempo inclui elementos da complexidade das relações trabalhistas, bem antes da configuração assustadora do governo pós-Temer.

“Algumas invenções trazidas no filme, como a dos agentes duplos e as idas e vindas no tempo, já tinham sido feitas num longa anterior, que acabou nem produzido, chamava-se O país do futuro. Na trama, tinha o Bina (Bureau de Inteligência Nacional), num paralelo com a Abin, e mostrava um general fazendo um retorno para evitar o insucesso do atentado Rio-Centro”, conta o diretor.

A repartição do tempo mistura, no elenco, atores como Dedé Santana, Selma Egrei e Tonico Pereira com intérpretes de enorme expressão local, entre os quais André Deca e Edu Moraes. O filme traz crédito para 11 colaboradores no roteiro. “Os primeiros trabalhos eram obras de um homem só; mas peguei outro gosto, ao longo da carreira. A integração em cinema  tende a melhorar resultados. Nas leituras, surgem boas opiniões que são incorporadas”, conta Dellape.

Além do encantamento com a audiência de fins do ano passado, com o telefilme Meio expediente, Santiago cita o fator velocidade de produção junto à recente experiência com tevê. “Enquanto A repartição do tempo levou seis anos até o lançamento, houve muita rapidez com o outro trabalho: em nove meses pré-produzimos, em 18 dias filmamos e, em um mês, finalizamos”, aponta.

Já garantido para exibições no Telecine e no Canal Brasil, A repartição do tempo — “que trouxe o desafio de fazer pensar, com o gênero da comédia” — antecede dois  projetos que borbulham na cabeça de Santiago Dellape. “Estou aperfeiçoando o roteiro de um filme que já tem distribuição e se chama O verão da lata. Vem do episódio de 1987, em que latas de maconha apareceram no litoral brasileiro. Além disso, estamos projetando Saçurá, um ambicioso terror inspirado no ciclo do ouro, numa época em que índios foram escravizados por bandeirantes — nisso, surge a figura mítica do Saçurá”, adianta.

Estar no comando, como diretor, especificamente, tem um quê de Big Brother, não?
O 1984 e Admirável mundo novo são livros que sempre me influenciaram bastante. O Lisboa (personagem do longa A repartição do tempo) não deixa de ser um Grande Irmão. Aliás, diretor de cinema tem essa coisa meio voyeurística. Vigiar é uma coisa que me interessa. Meu trabalho final de jornalismo no curso da UnB chama-se Bem vigiado e fala de as pessoas vigiarem as outras. O cinema apresenta isso: ver a vida das pessoas e, às vezes, saber de coisas que nem os próprios personagens sabem. E isso causa o suspense em cinema. Há nisso a prerrogativa do cineasta: mostrar, até onde quer, para o público.



Tens assumidas influências nas artes, em termos de concepção do filme?
Além do 1984 que, certamente, é uma influência grande, tive contato com as leituras de Franz Kafka e do Fiódor Dostoiévski — ambos escreveram muito sobre burocracia e funcionários públicos. Em termos de filme, acho que tive referência de Brazil, o filme (de Terry Giliam); nele, vejo uma obra-prima. Acho que converso também com a despretensão dos filmes da sessão da tarde. Mexemos com entretenimento, acima de tudo. A comédia fica mais sofisticada, quando vem com background, te faz pensar. Mas se, acima de tudo, você quer só fazer pensar, a comédia pode perder a graça.



Você acha que, com A repartição do tempo, não está reforçando aspectos da Brasília típica do funcionalismo público?
Querendo ou não, reforça o estereótipo da Brasília burocrática. Mas isso não é feito sem reflexão. Não é uma caricatura sem sentido. Não há heróis e vilões: todos têm um discurso político, mas não é isso que conta. A gente não quer, com o filme, falar que quem está certo é centro, esquerda ou direita. Uma baita coincidência, aliás, o filme ter vindo num momento tão oportuno. Quando filmamos, era outro governo e outro panorama político. Reforma trabalhista ainda não era uma pauta prioritária.



Quais foram as maiores dificuldades com o longa?
Tive que fazer o plano de filmagens de cinco semanas caberem em quatro, diante do orçamento limitado. Na maioria dos dias, tivemos que recorrer a horas-extras. A gente acabou entrando, em determinado momento, num conflito trabalhista. Foi uma metalinguagem  com o filme — uma situação louca (risos). O filme é justamente sobre isso: um confronto entre patrão e empregados. Houve um momento, em que integrantes da equipe passaram, nas filmagens, a me chamar de Lisboa (o explorador patrão do filme). Houve tensão; mas, hoje em dia, a gente superou, e até acha engraçado. No final das contas a arte e a amizade falam mais alto.



Teve mais algum momento de a vida imitar a arte?
Sim. O filme, inicialmente, chamava Licença prêmio. Num teste de audiência feito com o falecido Márcio Curi, em São Paulo, houve contestação por parte das pessoas com relação à popularidade e identificação com o nome do filme. Ficamos impressionados de como a cultura do funcionalismo público é algo característico de Brasília. Para filmar o filme, precisei de um tempo de três meses — e que veio justamente da minha licença- prêmio (risos).



Como foi equilibrar o elenco local com atores de fora de Brasília? 
Acho importante valorizar o elenco da cidade, quando há possibilidade. Temos muitos talentos por aqui. Tive ainda a enorme sorte de conseguir alguém como o Eucir de Souza, de fora da cidade, para fazer o protagonista Lisboa. Eucir é muito bom e estava envolvido em milhões de projetos, ao mesmo tempo. Confesso que me senti até intimidado de dirigi-lo, em vários momentos. Ele tem muita bagagem.



Burocracia é um tema forte no teu novo longa. De onde vem o tema?
Burocracia é um tema que me interessa há muito tempo. No filme Nada consta, meu primeiro curta premiado pelo roteiro no Festival de Brasília, isso já estava presente. Unia a ficção científica com o universo brasiliense da burocracia. O personagem precisava de um nada consta para viajar para a lua. Meu parceiro de roteiro Davi Mattos e eu gostamos do tema. Temos no Brasil essa realidade de atraso e de precariedade. De orçamento, agora, com A repartição do tempo tivemos R$ 1 milhão do FAC e a finalização da fita, de 
R$ 500 mil, foi toda custeada por nós.



De onde veio a vontade de trazer história em quadrinho para o filme?
A HQ foi uma influência: quando era jovem, lia muito. Tirei muitas referências visuais, mesmo. HQ e cinema são linguagens que dialogam bem, e os filmes de super-heróis estão aí para não me deixar mentir. Sempre curti muito as graphic novels. Animação, entretanto, não estava prevista no roteiro original de A repartição do tempo. Foi uma solução já que o final do filme, filmado, não funcionou muito bem. Fiz escolhas de direção, iniciais, que não funcionaram. Por uma conjunção astral, pintou a Flávia Lima, aluna na época de artes plásticas da UnB. Vimos os desenhos da Flávia num ambiente sujo e tudo combinava muito com o filme.



Como foi a experiência do especial de fim de ano, na tevê, com o teu filme Meio expediente?
Ficamos com Ibope acima da audiência média do horário, quando batemos 15 pontos — contra os habituais 11 pontos daquele horário. Pelas nossas contas, 10 milhões de pessoas assistiram — nisso, há uma dimensão muito grande. É um público que, dificilmente, a gente terá no cinema ao longo de toda a nossa vida. Já era o tempo em que qualquer filme fazia 1 milhão de público. Nossa expectativa é a de emplacar 10 mil espectadores nas salas de cinema. É um número mil vezes menor do que o que assistiu ao Meio expediente na televisão!



Como você percebe o alcance dos filmes nacionais, hoje?
Estamos num momento delicado. Parece que as pessoas perderam um pouco do interesse. É difícil e desanimador. Estamos com a O2 como distribuidora, no caso do nosso filme. No lançamento, teremos concorrência com A forma da água! Fico desanimado com a perspectiva de poder ser pouco visto. Gostaria de ter um público de ao menos 100 mil espectadores. Mas, atualmente, é quase inalcançável. Vejo a debandada das salas de cinema. É o disco dos Ops Não tá tudo bem! As pessoas estão perdendo o interesse pelas salas de cinema e pelos filmes nacionais. Ano passado, três ou quatro títulos fizeram mais do que 1 milhão de público. É muito pouco. Não saberia como reverter isso. A distribuição traz a campo uma guerra desleal.



“Se, acima de tudo, você quer só fazer pensar, a comédia pode perder a graça. O segredo está em colocar temas de forma subliminar. Há forma sutil de se falar sobre a miséria social e das nossas mazelas” 

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