Publicidade

Correio Braziliense

Produtoras e DJs da cidade se unem em busca de espaço e visibilidade

Os coletivos são uma forma força à presença feminina no cenário de festas de Brasília


postado em 04/02/2018 07:20 / atualizado em 05/02/2018 11:28

Coletivo M.A.N.A.S. reúne DJs brasilienses em busca de espaço na cena local(foto: Luara Baggi/Divulgação)
Coletivo M.A.N.A.S. reúne DJs brasilienses em busca de espaço na cena local (foto: Luara Baggi/Divulgação)

O cenário de festas da capital federal é majoritariamente masculino. Pelo menos tem sido durante um bom tempo. No entanto, aos poucos, mulheres DJs e produtoras têm buscado espaço dentro desse mercado. Algumas fazem isso sozinhas batalhando por oportunidades, outras optam por se unir para garantir mais visibilidade.

“A gente sabe que a diferença entre homens e mulheres no mercado de trabalho é generalizada. Já existem mulheres na luta dentro desse cenário que estão se empenhando e abrindo caminho para outras. Qualquer festa que você vá, o line up de DJs é predominantemente masculino. Há várias em que isso é 100%. Às vezes, em conversa com produtores, eles dizem que é porque não tem opção, porque não tem muitas mulheres tocando. Mas não tem porque a gente não encontra oportunidade de tocar”, analisa Camila Junqueira, a DJ Camila Jun.

Desde o ano passado, cinco DJs brasilienses decidiram se juntar e formaram o coletivo M.A.N.A.S., sigla para Mulheres Aliadas na Afinidade Sonora. O grupo é composto por Camila Junqueira, Dai Monteiro, Paula Torelly, Deborah Paranhos e Patrícia Branco (estas duas últimas integram o duo Nimic). O coletivo foi criado com uma forma de organização das mulheres para que esse cenário tenha uma mudança. “O coletivo foi feito como forma de visibilidade, realmente para unir forças”, explica Camila Junqueira, que idealizou o projeto.

Assim que terminou o curso de discotecagem, Camila teve a ideia de formar o coletivo e foi atrás de mulheres que já estavam no mercado. “Convidei meninas de estilos diferentes, e todas toparam. Essa não é uma necessidade que eu percebi, qualquer mulher passa por isso. Nesse sentido, tive uma aceitação rápida porque elas também tinham essa vontade”, lembra.


Criação


Dai Monteiro, que é uma das integrantes, afirma que isso foi exatamente o que a atraiu no coletivo. “Ela (Camila Junqueira) deu a sugestão de montar esse coletivo com foco no empoderamento feminino, na abertura de espaço para novas artistas e na questão de visibilidade de produtoras e DJs, algo que não temos aqui em Brasília”, aponta. Atualmente, o grupo é formado por cinco pessoas, mas, como as meninas dizem, o espaço está aberto. “É um coletivo que integra quem quiser fazer parte do movimento. Não é fechado só para mulher, mas realmente é para mostrar a força feminina, levantar essa bandeira de que a gente faz um bom trabalho e faz a diferença”, acrescenta.

Para Dai, o cenário ainda é machista, apesar dos avanços. “Eu já ouvi várias vezes ‘a mina toca bem, toca igual homem’. É um cenário machista e misógino. Está mudando aos poucos e a gente vê que não é algo só em Brasília. É um contexto mundial. Antigamente, raramente se viam mulheres no topo das listas de DJs. É muito mais difícil para a mulher. Também tem muito produtor que confunde a nossa função enquanto artista propositalmente, como se estivéssemos a serviço dele. Há muitas histórias no meio de assédio, de cachês absurdos. O negócio é tão feio que em vários momentos as meninas precisam se unir para tocar nas festas”, afirma.

O coletivo M.A.N.A.S., por exemplo, promove uma festa neste domingo (4/2) dentro do projeto Sonhos de verão, realizado desde o fim de semana passado no Calçadão da Asa Norte (às margens do Lago Paranoá próximo à Ponte das Garças), com um line-up 100% composto por mulheres. Além das integrantes do coletivo, participam da festa, a partir das 15h, as DJs Clari Ann (Tropical Beats), Savana (A Hora do Beat) e Gab J.

Tendência


A iniciativa do coletivo M.A.N.A.S. não é solitária em Brasília. Existem outros coletivos compostos por mulheres em busca de transformar o cenário de festas da cidade. Outro exemplo é o coletivo Tetatronica, formado por Rachel Denti, Gaziela Paes, Ana Ramos e Thay Moura. “Somos parceiras de “rolê” há tempos e sempre conversávamos sobre como seria incrível uma festa realizada só por mulheres, já que temos tantas meninas talentosas na cena e como sabemos que devem existir muitas outras “escondidas” do público. Fizemos nosso primeiro evento no fim de semana passado e, para mim, foi realmente emocionante ver um palco exclusivamente preenchido por mulheres”, explica Rachel Denti, produtora.

Tetatronica é outro coletivo composto por mulheres para promover festas na cidade(foto: Arquivo pessoal/Divulgação)
Tetatronica é outro coletivo composto por mulheres para promover festas na cidade (foto: Arquivo pessoal/Divulgação)


Depois da estreia na última semana, o Tetatronica tem o desafio de colocar um bloco de carnaval totalmente feminino na rua. O grupo desfila em 11 de fevereiro, no Setor Comercial Sul, no chamado Setor Carnavalesco Sul, a partir das 15h. “A proposta é a mesma: apenas mulheres comandando o som e os visuais, mas desta vez ao ar livre e em clima de carnaval”, completa.

Rachel Denti, que também faz parte de um coletivo misto chamado SNM, diz que tem notado um crescimento da presença das mulheres não só na cena de festas, mas também em outros espaços tradicionalmente ocupados por homens. “Como a música eletrônica é tão ligada a uma expressão de resistência de grupos oprimidos e aos movimentos marginais, acabou que esse debate sobre questões de gênero, raciais e afins chegou muito rápido dentro da cena. Os produtores e DJs homens que perceberam essa movimentação foram abrindo mais espaço, mas acredito que essa conquista se deve principalmente à atitude tomada pelas próprias mulheres nos últimos anos. A quase total dominância dos nomes masculinos nos line ups passou a incomodar e hoje em dia temos mais confiança pra questionar — e mais, produzir nossos próprios espaços se esses outros espaços não são cedidos a nós”, analisa.


Confira entrevista com Rayssa Coimbra, do coletivo Sintra FM

(foto: Shake it/Divulgação)
(foto: Shake it/Divulgação)

Temos visto um movimento mais forte das mulheres no cenário noturno, tanto como DJs, como produtoras. Tem existido mais espaço para a mulherada? Ou é um movimento que vem das próprias mulheres em busca de ocupar esses espaços?
Acho que, de fato, tem existido mais espaço, por consequência do aumento do número de festas na cidade, o que está diretamente relacionado ao movimento das mulheres nesse cenário. Novos núcleos de música eletrônica surgiram em Brasília no último ano, e esses núcleos são também integrados por mulheres, o que, com certeza, botou em destaque essa questão dentro dos próprios coletivos. Houve um aumento do número de festas e um aumento da atuação feminina na produção dessas festas. É um cenário bastante desafiador, mas as mulheres estão cada vez mais unidas e trabalhando em prol dessa causa.

Quais são as dificuldades para uma mulher dentro desse cenário?
Pra começar, o número de homens atuando no cenário eletrônico ainda é massivamente maior que o de mulheres, principalmente, nas posições de poder e de destaque. Falta representatividade. Mulheres são minoria nos line ups de festas e festivais, precisam trabalhar muito mais do que os homens para provar seu valor, não são igualmente remuneradas, muitas vezes não levam créditos pelos trabalhos que fazem e, ainda por cima, são objetificadas e julgadas pela aparência que têm, como se isso interferisse na qualidade do trabalho que desempenham. É extremamente necessário que os integrantes do cenário eletrônico reconheçam esse desequilíbrio entre homens e mulheres no nosso meio e entendam a importância de se trabalhar em conjunto pra acabar com ele. 

O fato de integrar um coletivo ajuda a sua inserção no cenário?
Definitivamente ajuda, porque por meio do coletivo eu posso atuar diretamente na construção do cenário eletrônico da minha cidade, e até mesmo do meu país. Produzindo eventos, estou movimentando meu nicho, trazendo visibilidade e conquistando público para música eletrônica. Posso trazer DJs de outras cidades pra tocar em Brasília, convidar DJs locais pra tocar nas nossas festas, o que aumenta meu networking e pode me abrir portas tanto dentro quanto fora da cidade. 

Você é um dos nomes que têm movimentado a cena. Quais projetos você têm tocado? E quando os faz o que leva em consideração?
Eu sou integrante de um núcleo brasiliense chamado sintra FM, onde atuo como DJ e produtora. Nós transmitimos DJs tocando ao vivo todas as noites de domingo e fazemos festas. Também estou me formando em comunicação na Universidade de Brasília e meu trabalho de conclusão de curso é um zine sobre as primeiras DJs de Brasília. O que levo em consideração é o que posso acrescentar à cultura eletrônica, enquanto DJ, produtora e pesquisadora. Meu objetivo é trazer informação pra nossa cidade, educar o público e fazê-lo crescer, proporcionar experiências alternativas ao que têm sido oferecido e trabalhar para que tenhamos uma cena consolidada, saudável e igualitária.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade