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Correio Braziliense

Boate Kiss e guerra da Síria são temas de dois livros

As duas tragédias são narradas em livros que reconstituem as vidas das vítimas


postado em 05/02/2018 07:30 / atualizado em 05/02/2018 14:28

Daniela Arbex fez livro que dá voz e rosto às vítimas da boate Kiss(foto: JR Faria Studios/Divulgação)
Daniela Arbex fez livro que dá voz e rosto às vítimas da boate Kiss (foto: JR Faria Studios/Divulgação)
 
 
Há muitas histórias humanas entre as tragédias e, por mais absurdo que possa parecer, às vezes não é fácil reconhecê-las. A overdose de notícias causa a anestesia, mas basta um pouco de empatia para compreender que o drama do outro pode, também, ser o nosso. As jornalistas Patrícia Campos Mello e Daniela Arbex fazem isso com muita habilidade e coragem. A primeira trouxe de Kobane, na Síria, a história do casal que resistiu ao cerco do Estado Islâmico (EI) na cidade próxima à fronteira com a Turquia. A segunda foi atrás das vítimas do incêndio da boate Kiss, que matou 242 pessoas em Santa Maria em janeiro de 2013, para contar uma tragédia que continua a assombrar dezenas de pessoas.

Quando desembarcou na rodoviária de Santa Maria, em 2016, para dar início à primeira leva de entrevistas, Daniela Arbex pensou: “O que eu estou fazendo aqui?”. Vinha do interior de Minas Gerais, onde mora e onde escreveu Holocausto brasileiro, o livro sobre a morte de 60 mil pacientes de um hospital psiquiátrico  que vendeu mais de 250 mil exemplares. Repórter especial do jornal Tribuna de Minas, em Juiz de Fora, Daniela seguiu o conselho de um amigo radialista que sugeriu entrevistar pessoas da equipe médica responsável por atender as vítimas do incêndio naquela madrugada de 27 de janeiro.

Daniela encontrou em Santa Maria um cenário de desolação. Mães invisibilizadas por uma dor que muitos não querem mais ver, profissionais de saúde que nunca mais falaram sobre aquela noite e bombeiros até hoje perplexos com o que viram. Depois de cinco viagens e centenas de entrevistas, ela escreveu Todo dia a mesma noite —  a história não contada da boate Kiss, um livro que dá rosto e voz a vítimas, médicos, enfermeiros, estudantes, mães, pais, irmãos, amigos, bombeiros e voluntários cujas vidas mudaram para sempre.

Boa parte do livro é centrada nos depoimentos de mães e pais que perderam os filhos no acidente. Daniela evitou iniciar a narrativa pela noite da tragédia. É com a aparente calmaria no Samu e no Corpo de Bombeiros, que atenderam a apenas uma ocorrência naquela semana, que ela dá início ao livro. A busca dos parentes pelos jovens, a angústia de não saber o paradeiro dos filhos, as idas ao hospital e ao ginásio no qual os corpos eram enfileirados, o volume desproporcional de atendimentos médicos em poucas horas, detalhe para o qual a cidade não estava preparada, a solidariedade dos habitantes de Santa Maria e também a falta de humanidade de alguns alimentam uma narrativa pela qual é difícil passar ileso.

Daniela só percebeu que tinha um livro em mãos quando estabeleceu os primeiros contatos com as famílias das vítimas. “Foi quando fui a primeira vez que comecei a ouvir as famílias e a perceber o quanto elas estavam emocionalmente abandonadas, o quanto de traumas elas carregavam, de dor e sofrimento, e o quanto estavam invisibilizadas”, conta. A primeira parte do trabalho envolveu a construção de laços de confiança. As famílias já haviam se sentido usadas o suficiente para rejeitar a ideia. Foi Ligiane Righi da Silva, mãe de Andrielle, que estava na boate com as amigas Vitória, Flávia, Gilmara e Mirela, todas mortas no incêndio, quem primeiro respondeu à mensagem de Daniela. “Ligiane estava aberta, mas outras famílias não, havia muita desconfiança. Eles já tinham sido muito explorados”, lembra.

Entre os silêncios quebrados pelo livro está o dos profissionais de saúde que atenderam às vítimas. Durante uma entrevista coletiva com parte da equipe, Daniela se deu conta de que eles nunca conversaram sobre a noite da tragédia. Profundamente abalados e psicologicamente fragilizados pela quantidade de jovens que viram morrer em suas mãos, médicos, enfermeiros e assistentes começaram a lembrar do acidente.

No livro, os depoimentos revelam como a dedicação, a persistência e a solidariedade foram fundamentais para salvar o maior número possível de vidas. Se a primeira parte do livro é marcada pelo heroísmo e pela dor, a segunda mergulha na história de um crime possibilitado pela sucessão de descasos e negligências que culminaram no segundo maior incêndio do Brasil em número de mortos.
 
Kobane se libertou graças a seus habitantes e à milícia curda(foto: Bulent Kilic / AFP)
Kobane se libertou graças a seus habitantes e à milícia curda (foto: Bulent Kilic / AFP)
 

Guerra e encontros


A tragédia narrada por Patrícia Campos Mello em Lua de mel em Kobane é a da guerra, mas também a de um encontro e de um amor. A jornalista se preparava para ir à Turquia a convite de uma instituição quando se deparou com a foto do menino Alan Kurdi, a criança de três anos que morreu afogada depois de cair de um bote com imigrantes sírios que tentavam chegar à Grécia. Impactada, como o resto do mundo, Patrícia queria ir até Kobane, onde moravam os avós do menino. “Queria explicar como é a vida de uma pessoa para que ela decida passar por esse risco de embarcar com os filhos num barco, mesmo vendo um monte de gente morrendo”, conta a jornalista.

Kobane se tornou um símbolo de destruição e resistência. Ocupada pelo EI entre setembro de 2014 e outubro de 2015, a cidade síria resistiu graças aos civis e às milícias curdas que não deixaram os extremistas se instalarem. Houve ajuda dos Estados Unidos com armas e bombardeios, mas a resistência dos locais transformou o cerco de Kobane em um símbolo de luta contra o EI. Kurdi fugiu da cidade com os pais e os irmãos, mas os avós ficaram. Patrícia fez a matéria sobre como viviam, conforme havia planejado, mas foi além. Encontrou ali uma história improvável, a de Barzan e Raushan. O casal se conheceu no exílio, pelo Facebook, e decidiu voltar à região natal para combater, reportar e impedir o avanço dos radicais sobre o que restava de suas raízes.

Barzan, um curdo cujos irmãos já estavam envolvidos na luta armada contra o EI, era o fixer de Patrícia, o contato que assessora os jornalistas estrangeiros em regiões de conflito. O rapaz também é jornalista e, com Raushan, filha de uma russa com um curdo e estudante de direito antes da guerra, monta boletins, faz relatórios, vídeos, reportagens e dá depoimentos para veículos de comunicação estrangeiros envolvidos na cobertura do conflito. Faz parte de uma espécie de rede de locais que alimentam a mídia internacional quando ninguém consegue chegar aos territórios em guerra. “Quando atravessei a fronteira, eles estavam me esperando e achei totalmente insólito. Era um casal, ela estava com um gatinho no colo. Ao longo de 12 horas de viagem, eles começaram a contar tudo, porque viviam lá desde o cerco”, afirma a jornalista.

Patrícia percebeu haver um livro e, possivelmente, um documentário na história do casal. Era setembro de 2015, ela colheu os depoimentos, fez a matéria sobre os avós de Alan Kurdi e retornou ao Brasil. Em março de 2016, voltou à Síria uma segunda vez para completar as entrevistas. “Era uma história muito legal e, para contar, eu precisava de um livro. Para fazer o livro, precisava voltar. Na segunda vez, a gente fez 40 horas de entrevista gravada porque eu não sabia se a gente faria um documentário. Queria voltar mais uma vez, mas a fronteira estava complicada”, lamenta. Inúmeros telefonemas ajudaram a completar a apuração e também a manter os laços de amizade criados com Barzan e Raushan.

Hoje, os dois estão em Afrin, onde mora a mãe de Raushan. A cidade tem sido constantemente bombardeada pelos turcos, que não aceitam a ajuda americana concedida aos curdos. Lua de mel em Kobane não é só sobre uma inusitada história de amor. É uma aula de história e geopolítica sobre a situação dos curdos no norte da Síria. Graças a eles, o EI recuou, embora ainda ocupe alguns vilarejos na região. E as relações entre curdos, árabes e turcos nunca foram muito amigáveis.

Com o desmonte do Império Otomano após a Primeira Guerra e a repartição dos territórios entre França e Inglaterra, que montaram um novo mapa para a região desconsiderando desavenças tribais e ocupações étnicas de certos territórios, os curdos ficaram sem país e se dividiram entre Turquia, Iraque e Síria. Por medo de eventuais ideias nacionalistas e separatistas, os governos desses países sempre trataram de conter e isolar os curdos. 

Olhar para essa questão é fundamental para compreender o que se passa em parte do Oriente Médio. “A autonomia ou independência dos curdos na Síria poderia ser o primeiro passo para desfazer as fronteiras artificiais delineadas pelo acordo Sykes-Picot, que permitiu às potências coloniais retalharem o Oriente Médio de acordo com suas conveniências (...)”, escreve Patrícia.


Lua de mel em Kobane
De Patrícia Campos Mello. Companhia 
das letras, 194 páginas. R$ 49,90
 

Todo dia a mesma noite De Daniela Arbez. 
Intrínseca, 248 páginas. R$ 39,90

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