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Correio Braziliense

Prestes a completar 70 anos, o músico Danilo Caymmi terá shows na capital

Caymmi se apresenta hoje (dia 05/02) e amanhã no Clube do Choro. Ao Correio, ele lembra histórias do passado e se diz esperançoso com a música brasileira


postado em 05/02/2018 07:45 / atualizado em 04/02/2018 17:38

Danilo Caymmi terá duas apresentações no Clube do Choro(foto: Demian Jacob/Divulgação)
Danilo Caymmi terá duas apresentações no Clube do Choro (foto: Demian Jacob/Divulgação)
 
 
Caçula de Dorival Caymmi e da cantora Stella Maris, Danilo Caymmi não fugiu (como toda a família, na verdade) da sina talentosa do sobrenome. Exímio flautista, fez participações em diversos discos clássicos da música brasileira e acompanhou por muitos anos Tom Jobim, como integrante da Banda Nova.

Foi o maestro soberano, inclusive, que descobriu a voz de Danilo e o incentivou a cantar. Autor de clássicos, como Andança (que faz 50 anos em 2018), ele foi além da flauta e se lançou na carreira de cantor e compositor. Em entrevista ao Correio, Danilo, que faz 70 anos em março, lembra histórias dessa trajetória, como no festival em 1968, em que teve que vaiar a própria música. “Eu ainda estava fazendo arquitetura, então eu era obrigado a vaiar Andança, porque nós e o DCE apoiávamos o Vandré com Pra não dizer que não falei das flores”, recorda.

Bem humorado, ele garante que a aparência séria dos Caymmi (que o bigode ressalta) é só fachada. “Não somos nenhum talibã”, brinca. Esperançoso, passa longe de visões apocalípticas da música brasileira e acredita que  logo as coisas vão melhorar. “Dá para fazer boa música dentro de um contexto contemporâneo. Acho que a palavra é ousar.”

Com toda essa bagagem, Danilo Caymmi se apresenta hoje (dia 05/02) e amanhã (dia 06) no Clube do Choro (Eixo Monumental),  em um show em que relembra sucessos, canções de Tom Jobim e promete interações divertidas com a plateia.

Seu primeiro disco solo, Cheiro verde, completou 40 anos em 2017. Ele foi feito de uma maneira contra a corrente de 
como as gravadoras faziam, foi independente já naquela época. Como isso aconteceu?
Não foi a primeira iniciativa de produção independente. Mas foi o segundo disco dessa nova leva, que começou com o Feito em casa, do Antônio Adolfo. Ele me passou uma lista de lojistas e rádios do Brasil inteiro e o caminho das pedras. Eu saí com a Ana Terra, que era minha mulher na ocasião, e a gente saiu vendendo. E conseguimos fazer, negociar o disco e foi muito bom. Porque a gravadora sempre tem diretores, produtores, e o disco seria inadequado para aquele momento do mercado.

Você, de algum modo, temia que as gravadoras atrapalhassem essa maneira diferente de fazer e lançar disco?
Não, até então não. Mas quando a produção independente começou a ameaçar justamente com as 80 mil cópias vendidas pelo disco do Boca Livre, aí coisa começou a ficar difícil.

Isso incomodou a eles…
Começou a incomodar, sim. Porque a gravadora era outra coisa. Hoje é diferente, a produção independente tem muitos intermediários, gravadoras pequenas, que têm outros problemas, como às vezes não pagar o direito do autor. Naquela época, você não tinha intermediário. Botava o disco na mochila e saía vendendo. Mas, para mim, foi uma experiência muito boa.

Você disse que algumas coisas o incomodam hoje no Cheiro verde, como a maneira que você cantava... 
Sim, sim. Porque ali eu não tenho técnica nenhuma de cantar. Minha voz está mal localizada. As tonalidades não estão boas. Eu sou barítono e o violão não favorece muito a quem tem essa textura vocal. Tanto que quem descobriu a minha voz foi o Tom Jobim quando eu entrei na Banda Nova, ele que me chamou para cantar.

Quando e como você percebeu essas coisas?
Eu tive uma atividade paralela muito intensa como músico profissional. Se você pegar muitos discos importantes, importantes mesmo, da década de 1970, verá que meu nome está lá. Mas eu não me ligava muito com a arte de cantar, de interpretar, eu só fui prestar atenção nisso depois que eu entrei na banda do Tom. Aí comecei a reparar: “Poxa, está errado aqui, eu deveria ter cantado em outro tom”.

Mas, antes disso, o primeiro álbum assinado com seu nome na capa foi um disco de 1973 em conjunto com Toninho Horta, Novelli e Beto Borges, que depois virou um clássico. Como foi aquela experiência?
Nós gravávamos muito naquele momento para a Odeon e me parece que o Novelli ou outro de nós (lembro que eu não fui) conseguiu que se gravasse esse disco. Então, eles deram uma noite para a gente fazer. Uma coisa ou outra foi feita depois, mas a base, 90% do disco, foi feita em uma noite. A gente fez, lançou e é um disco icônico hoje. Foi muito bom, porque a gente teve a oportunidade de mostrar um trabalho não engajado com o que estava sendo feito na época.

Vocês gravaram em uma noite, mas houve uma preparação, seleção das músicas?
Não teve preparação nenhuma, não. E todos os discos importantes dessa época também partiram da improvisação, da criatividade desses músicos da minha geração. É uma geração privilegiada, a que eu pertenço, de músicos.

Lô Borges conta que você fez o arranjo da flauta de Calibre, no Disco do tênis, que ele chegou a você e lhe  pediu sem ter ideias. Como foi?
Olha, provavelmente deve ter sido improviso meu também. Eu improvisava muito, então me chamavam muito para isso. Inclusive, no disco do Boca Livre foi improviso, tem uma sonoridade diferente de flauta e eu acho que você fica bem como músico quando as pessoas reconhecem que é você, sabem que a flauta é do Danilo. E eu fiz muita coisa no improviso. Por exemplo, Viola fora de moda, do Edu Lobo, a flauta parece que é da música, mas foi também um improviso. Então, o Calibre deve ter sido assim também.

E como você chegou à flauta, como decidiu ou percebeu que ela era seu instrumento principal?
Tinha uma loja aqui no Rio de Janeiro (na Rua da Carioca) chamada A Guitarra de Prata. Meu pai trouxe uma flauta-block (que eu tenho até hoje), dessas flautinhas que as crianças tocam na escola. E eu comecei a me interessar e a tocar, daí foi natural. Até que eu fui apresentado por um amigo do papai à flauta transversal. Eu nunca tinha visto aquilo. Quando peguei, já saí tocando. Eu me lembro que estava até com febre, tinha 11 anos de idade.

Você foi parceiro de muitos músicos mineiros. Qual foi a contribuição da música de Minas Gerais para você?
Era o mesmo grupo. Não era a questão assim de uma influência. Eu era muito colado no Nelson Ângelo, que é um dos maiores compositores que eu conheço. Então, com o Nelsinho é que conheci outras pessoas, como o Toninho Horta, que é sensacional. Nós nos reuníamos aqui no Rio, não só eu, mas outros cariocas como a Joyce, o Paulinho Jobim, então a gente pertencia a esse grupo. Eu toco, por exemplo, no primeiro disco do Milton. Minha mãe era mineira e adorava receber os músicos mineiros, como o Fernando Brant. A gente era muito ligado.

Você que pertenceu a uma época tão rica para a nossa música, como vê a o que é produzido no Brasil hoje?
Eu acho que tem solução, que tem escape. Eu vejo pela minha filha Alice Caymmi, vejo que o que eles fazem é um trabalho inteligente, contextualizado e usando elementos pop. Dá para fazer boa música dentro de um contexto contemporâneo. Acho que a palavra é ousar. Isso é o que eu vejo nela e é como uma saída para muita coisa. Tudo mudou, você está num ambiente digital, então tudo isso é novo, mas vai explodir, como um big bang, de criatividade para todas as direções e não vai ficar tão encapsulado como está no momento. Acho que isso vai acontecer. Eu vejo isso aqui com a Alice e os amigos dela, como o Rodrigo Gorki. Estou sentindo com bons olhos, parece um revival dos anos 1970 com a coisa digitalizada.

Dori disse uma vez que seu pai, Tom Jobim e Carlos Drummond de Andrade tinham virado estátuas esquecidas. Você concorda? Somos mesmo um país sem memória?
Não acho, não. Se você conversar com esses jovens, os caras sabem tudo. Eles conhecem Tom Jobim, Joyce, Nelsinho. Eu fiz um show em Petrópolis recentemente e depois de mim tocava uma banda de rock. Foi chegando um público jovem, que era público dessa banda, e eles cantaram tudo que eu toquei. Acho que isso é uma impressão, mas eles estão vivos na cabeça desses jovens. Então, acho que a memória está salva por aí.

Você quase se formou em arquitetura e já disse que, de alguma maneira, ela e a música se conectam. Como isso se dá?
Pelo minimalismo. Eu gosto de compor canções pequenas e densas, é como se fosse a casa mínima, que é sala, quarto, banheiro e cozinha. Eu penso assim. Gosto também de fotografia minimalista, participo de grupos na internet e tudo. E essa é a ideia também quando vou fazer uma música. Exemplos disso são O bem e o mal, Meu menino, são canções curtas, mas com muito conteúdo.

Você trabalhou com Tom durante muitos anos e seu disco mais recente é com canções dele. Que peso ele tem na sua maneira de compor, de cantar, de ser músico?
Olha, não foi nem tanto na maneira de cantar e tocar, mas eu aprendi muita coisa. Ele acreditava muito no meu trabalho e me respeitava muito como compositor, como músico e como cantor também, ele me descobriu como cantor. Mas o mais importante foi o que eu aprendi com o homem que o Tom Jobim era, a pessoa dele. Esses artistas, assim como meu pai, eram pessoas muito simples, muito preocupados com a música, com a beleza, com a estética. Foi uma troca muito boa. E eu gravei esse disco na premissa de que ele gostaria da minha interpretação.

Andança participou daquele festival icônico em 1968 com Pra não dizer que não falei das flores. Como foi aquele momento?
Ali nós estávamos em uma crise muito forte. Aquele ano foi dividido antes e depois do AI-5, quando a coisa ficou mais difícil. Eu ainda estava fazendo arquitetura, então eu era obrigado a vaiar a minha própria música, porque nós e o DCE apoiávamos o Vandré. Andança ficou em terceiro lugar e ficou sendo o melhor terceiro lugar do mundo, porque as três músicas (além de Andança, Sabiá e Pra não dizer que não falei das flores) ficaram para sempre.

O mercado da música hoje é outro. Como foi se adaptar? Qual a maneira de conseguir seguir em frente nesse novo mundo?
Eu converso muito com os garotos e tenho projetos também de usar essa linguagem contemporânea. Eu sou ousado mesmo. Meu pai já me ensinou esse negócio. Papai detestava aquela frase “naquele tempo é que era…”. Meu pai era meu amigo, fui o último a sair de casa, então a gente trocava muito essas coisas. Então, eu vejo isso na Alice também, de ousar, de procurar novos caminhos. E penso: “Por que não eu?”. Eu me coloco na posição de aprender com ela e com esses meninos.

O Brasil passa, há um tempo, por momentos de instabilidade, de descrença. Isso se refletiu no seu trabalho de alguma forma?
Sim. Eu não consegui fazer o lançamento do disco. Cheguei a ensaiar uma banda, mas não consegui ir para estrada, mesmo com apoio da gravadora. Isso me pegou, foi um ano muito difícil. Agora que estou sentindo uma melhora.

Você já veio a Brasília diversas vezes. Como é a sua relação com a cidade e como serão os shows no Clube do Choro?
Gosto e me divirto muito aí. Vou tocar nesse show com o pianista Antônio Carlos Bigonha e o violonista Davi Mello, que são meus amigos. Vamos nos divertir muito. Vou fazer algumas brincadeiras com a plateia. Porque o humor faz parte de nós, embora a gente tenha esse bigode que parece muito sério, não somos talibã, não. Eu gosto de rir e fazer com que o público se divirta. Vou pegar um repertório de músicas que gosto, Da cor do pecado, Manhã de carnaval, o essencial do Jobim e minhas músicas como Andança, que está fazendo 50 anos.

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