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Correio Braziliense

Apesar das dificuldades, blocos mantêm o carnaval vivo fora do Plano Piloto

Neste ano, Taguatinga retorna com a tradição de bailes de carnaval


postado em 07/02/2018 07:00 / atualizado em 08/02/2018 18:50

Menino de Ceilândia buscou referências na cultura pernambucana(foto: Reprodução/Facebook)
Menino de Ceilândia buscou referências na cultura pernambucana (foto: Reprodução/Facebook)

O carnaval é mais do que Plano Piloto. Em 2018, 61 blocos animarão o carnaval em outras regiões, o que representa 33% de aumento em relação ao ano passado. O crescimento do número de blocos e eventos nas RAs reflete uma tendência que aconteceu outras vezes no DF. Em 1982, Taguatinga reuniu 60 mil pessoas em cinco dias de carnaval com bailes no Clube Primavera. De 2005 a 2012, Ceilândia foi a casa dos desfiles das escolas de samba, que eram realizados no Ceilambódromo.

Apesar do crescimento, os blocos reclamam de falta de apoio e enfrentam dificuldades para sair às ruas. Jorge Simas, um dos organizadores do Mamãe Taguá, conta que, neste ano, o bloco corre o risco de não ir às ruas. “Estamos tentando preparar o carnaval, correndo atrás de verbas. Não sabemos como será este ano exatamente por causa de recurso”, afirma.

Criado em 1995, o bloco Mamãe Taguá participou do carnaval brasiliense pela primeira vez a pedido do próprio governo, segundo Simas. O grupo foi formado por artistas plásticos e atores da região de Taguatinga que acabaram indo brincar o carnaval. “O público no carnaval das regiões administrativas cresce à medida que a gente consegue fazer a folia”, completa.

Folia acessível


Um dos blocos mais tradicionais das regiões administrativas, o Menino de Ceilândia nasceu justamente da vontade de criar um carnaval que contemplasse os moradores da região em 1995. “Não tínhamos condições para pular carnaval fora daqui, então planejamos um evento de rua que fosse acessível para o povo de Ceilândia em que as pessoas poderiam ir da maneira como quisessem sem precisar gastar”, explica o coordenador do bloco, Ailton Velez.

A inspiração veio da cultura nordestina. “Nós quisemos resgatar aquela tradição do carnaval de rua de Recife, Olinda. Por isso, criamos um boneco gigante (com o mesmo nome do bloco) e começamos a trazer passos e ritmos do frevo”, lembra.

Para Ailton, é fundamental que existam blocos das próprias regiões administrativas para que a população possa participar da festa. “A proposta é que a nossa comunidade possa brincar sem ter que sair daqui, sem ter gastos”, afirma.

Ele critica, porém, a falta de apoio. O GDF, segundo ele, prioriza os eventos no Plano Piloto e não dá a devida atenção às manifestações de outros locais. “O único apoio vem pela estrutura, que também não é igual à do Plano, mas eles pensam que, para fazer o carnaval, basta colocar um trio elétrico e ligar um pendrive para tocar. A gente é um bloco artístico, forma passista, dá cursos na área de música, vai além disso”, reclama.

Em nota, a Secretaria de Cultura afirma que, dos R$ 6,4 milhões investidos no carnaval, R$ 1,17 milhão será destinado aos eventos nas regiões administrativas fora do Plano Piloto. Além disso, a Secretaria investiu R$ 525 mil em cachês para artistas e grupos locais que se apresentam durante a folia.

A Secult explica que a estrutura (incluindo equipamentos de som, iluminação, palco, UTI móvel, banheiros) segue as características e o porte de cada evento. 

Aproximação das raízes


Desde 1987 nas ruas, o Asé Dudu surgiu dentro do Pacotão. O bloco foi criado por um grupo de pessoas negras que não se sentiam representadas dentro do carnaval brasiliense. A ideia era colocar a cultura afrobrasileira no centro das atenções. “Pouco tempo depois, ele se desvencilhou do Pacotão e foi para a Avenida das Palmeiras em Taguatinga”, conta Elizabeth Cintra (mais conhecida como Betinha), atual presidente do bloco.

A cultura negra é o foco do Asé Dudu, que desfila em Taguatinga(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
A cultura negra é o foco do Asé Dudu, que desfila em Taguatinga (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)


A mudança para Taguatinga, explica Betinha, foi, na verdade, uma aproximação das próprias raízes. “Quase ninguém é do Plano, o bloco é formado por pessoas de várias outras cidades”, comenta.

A folia nas regiões administrativas é uma maneira de afirmação de cada um desses locais, acredita. “Lutamos para firmar o carnaval na satélite e para reafirmar que elas são, sim, muito importantes”, salienta.

Resgate da tradição


Depois de pelo menos 10 anos sem bailes carnavalescos nos clubes de Taguatinga, a cidade terá um resgate da antiga tradição. A iniciativa é da Associação Portuguesa de Brasília (QS 5 14), que promoverá no sábado, no domingo e na terça-feira de carnaval matinês para as crianças e um baile de máscaras para os adultos.

“Houve a quebra dessa tradição em Taguatinga, muito por uma ausência de público que acabou se perdendo com o fim das entidades sociorecreativas da região. Estamos tentando retornar essa tradição, com bailes de máscaras com marchinhas e músicas tradicionais para animar o público”, afirma Marco Antônio, atual presidente da Associação Portuguesa de Brasília.

Ver galeria . 10 Fotos Getúlio Romão/Divulgação
(foto: Getúlio Romão/Divulgação )


O fotógrafo e pioneiro do carnaval de Brasília, Getúlio Romão, conta que nos anos 1980 era Taguatinga a dona do título dos bailes de carnaval mais animados do DF. “Praticamente não tinha o carnaval de rua, dos blocos, tudo era feito entre quatro paredes e Taguatinga desenvolveu vários bailes no Primavera e no CIT, eram os melhores carnavais de clubes de Brasília”, explica.

Ele é responsável pelo bloco Bafafá, que terá estreia hoje, a partir das 12h30, com a entrega dos abadás no Restaurante Plataforma Flamingo na Cidade do Automóvel, em Taguatinga. “Naquele tempo, a sociedade era mais unida e, com a chegada da tecnologia, as pessoas deixaram de ir para as ruas. Esse sucesso dos blocos carnavalescos em Brasília é um negócio extraordinário. Até criamos um bloco, o Bafafá, que tem como lema: carnaval sem dinheiro público”, conta.

Um público mais que fiel


Fundador do bloco Calango Alternativo, de Samambaia, Paulo Lima critica a centralização do carnaval brasiliense e conta que o bloco também surgiu da necessidade de promover a festa dentro da própria região. “Queríamos fazer um carnaval acessível em que não precisássemos sair daqui, porque muita gente não tem disponibilidade para ir ao Plano por diversas razões”, explica.

O bloco, fundado em 2009, passa por diversas regiões da cidade para mobilizar a população. “Vamos passando e levando o pessoal. Já temos um público fiel, de seguidores e, no mínimo, 2 mil pessoas nos acompanham”, conta.

Na visão de Paulo, o carnaval fora do Plano está cada vez mais deixado de lado. “Não conseguimos sair em 2016 e 2017 e antes havia um evento maior promovido pela administração que não existe mais. Até agora, não temos certeza se teremos apoio de estrutura neste carnaval. A gente se sente prejudicado”, lamenta.

Em 2011, Joãozinho da Vila idealizou um bloco de carnaval, o Vilões da Vila, na Vila Planalto. A ideia de João ao criar um grupo carnavalesco era fazer com que a população criasse e fortalecesse uma identidade cultural própria. No ano passado, ele morreu. Mas o bloco permanece vivo graças ao filho, André Rolin da Costa.

Tradição


“A ideia é manter o bloco, essa tradição na Vila (Planalto). Essa será a nossa sétima saída. Não quero deixar acabar, morrer de certa forma. O que me motiva é poder fazer parte disso tudo, acompanhar a formação do carnaval de rua local, sob uma nova possibilidade, que alguns chegam a chamar de neofanfarrismo: uma releitura das potencialidades urbanas para as festas”, analisa Costa.

Bloco Vilões da Vila ocupa às ruas da Vila Planalto desde 2011(foto: Arquivo pessoal)
Bloco Vilões da Vila ocupa às ruas da Vila Planalto desde 2011 (foto: Arquivo pessoal)


Inspirado no carnaval de Recife, o bloco segue para o sétimo desfile com uma parceria com produtores de cervejas artesanais e a bateria composta por instrumentos comprados ainda por Joãozinho da Vila. “Todos os 25 instrumentos do grupo foram um investimento que meu pai fez. Se ele dependesse de alguém, o bloco não aconteceria. Por isso criamos nossa própria bateria com a população da Vila”, lembra. Para manter a figura do patriarca na folia, André mandou fazer um boneco do pai, aos moldes dos bonecos de Olinda. O boneco já passou pelo Cafuçu do Cerrado e estará no Galinho de Brasília e no Pacotão.

Criado em meio a essa cultura carnavalesca, André Rolin da Costa, que também integra o Calango Careta (que sai na Asa Norte), o jovem diz que tem notado uma maior mobilização nas regiões administrativas. “Começo a notar essa movimentação em outras cidades, porque não é tão acessível se for falar em transporte público. O grande diferencial da Vila é a própria disposição da rua, a geografia do lugar que remete às ruas estreitas de Ouro Preto e Diamantina”, completa.

A cantora Dhi Ribeiro é a idealizadora do bloco Pipoka Azul, que desfila nas ruas do Guará II. “É onde moro e onde coloco o bloco na rua. Fizemos para dar uma alegrada no pessoal da região”, explica.

A criação do grupo tem a ver com a origem de Dhi: nascida no Rio de Janeiro e criada na Bahia. “Tenho uma frase que costumo falar: se nós não ficamos aqui para fazer o carnaval de Brasília, ele não vai acontecer”, completa. Neste ano, o bloco ainda aumenta o percurso e terá dois dias de folia em outra região: o Varjão.

PROGRAMAÇÃO DOS BLOCOS


Arrota Mas Não Gorfa
Praça da Igreja Nossa Senhora do Rosário da Pompeia (Vila Planalto). Sábado (10/2), às 13h. Show com DJs Pezão, Cotonete e Manolo. Ingressos: R$ 120 (2º lote), R$ 85 (1º lote) e R$ 65 (associados Acerva). Não recomendado para menores de 18 anos.

Asé Dudu
Taguaparque (Taguatinga). Sábado (10/2) e segunda (12/2), às 16h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre. 

Bloco Bafafá
Restaurante Plataforma Flamingo (Cidade do Automóvel, Taguatinga). Hoje, a partir das 12h30. A apresentação dos trios e entrega de abadás. Sábado (10/2) e segunda (12/2), às 16h, no Mané Garrincha. Domingo (11/2) e terça (13/2) junto com Pacotão. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Bloco 1% Cachaceiro 
Quadra 5, conjunto 5, Setor Oeste (Estrutural). Terça (12/2), às 17h. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Bloco das 11 
Avenida Comercial (Estrutural). Domingo (11/2), às 14h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre. 

Bloco Gruvipi
Vicente Pires (Entre a Feira do Produtor e a escola pública). Sábado (10/2), às 14h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre.

Bloco Pipoka Azul
Praça da Moda, QE 40, Guará. Sábado (10/2) e domingo (11/2), às 16h. Com Dhi Ribeiro. Praça Central (Varjão). Segunda (12/2) e terça (13/2), às 16h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre. 

Bloco Vilões da Vila
Praça da Igreja do Rosário (Vila Planalto). Sábado (10/2), às 15h. Com bateria do Bloco Vilões da Vila. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Calango Alternativo
Qr 502/504 (Samambaia). Domingo (11/2), das 13h às 1h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre.  

Carnabagagem
SCE, Q. 40, comércio local, Gama. Sábado (10/2), às 17h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre. 

Carnaval da Associação Portuguesa de Brasília
(QS 5 14 -- Taguatinga). Sábado (10/2), domingo (11/2) e terça (13/2), a partir das 20h30. Tradicional Baile das máscaras. Entrada a R$ 15 (sócios) e R$ 20 (público geral). Informações e convites: 99139-1817 e 99846-9467. Não recomendado para menores de 18 anos.

Carnaval Pra Pular Gama 
Estacionamento do Estádio Bezerrão. Sábado (10/2) e domingo (11/2), às 15h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre.

Esquenta Mas Não Queima
Rua 17 Sul (Águas Claras). Sábado (10/2) e segunda (12/2), das 9h às 22h. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Filhos de São Jorge 
Planaltina (Q. 6 cj G cs 27). Sábado (10/2), domingo (11/2), segunda (12/2) e terça (13/2), às 18h. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

KD Você
QN 10/147, Quadra Cultural (Riacho Fundo II). Sábado (10/2), às 14h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre.
 
Mamãe Taguá 2018 
Taguaparque. Sábado (10/2) e segunda (12/2), às 17h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre.

Menino de Ceilândia 
Ceilândia Centro (CNM 1). Domingo (11/2) e terça (13/2), às 14h. Entrada gratuita. Classificação indicativa livre. 

Primeiro Carnaguariba
EQNN 18/20 Guariroba. Sábado (10/2), às 10h. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

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