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Correio Braziliense

O carnaval das escolas de samba agoniza em Brasília, mas não morre

Escolas não desfilam há quatro anos: prejuízos afetam a comunidade que faz o carnaval


postado em 08/02/2018 07:30 / atualizado em 08/02/2018 18:28

 
Desfile da Águia Imperial de Ceilândia, na Passarela da Alegria, em 2014: escolas não desfilam desde então(foto: Ed Alves/CB/D.A Press - 4/3/14)
Desfile da Águia Imperial de Ceilândia, na Passarela da Alegria, em 2014: escolas não desfilam desde então (foto: Ed Alves/CB/D.A Press - 4/3/14)
 
Sai ano, entra ano, o carnaval de Brasília caminha na corda bamba, mas para as escolas de samba do Distrito Federal, nada foi pior do que os últimos quatro anos. Desde 2015, as 21 escolas do DF não entram na avenida e não disputam os títulos que fazem a festa ficar mais palpitante. É uma situação inédita desde 1962, quando as primeiras escolas tomaram a frente do carnaval brasiliense. Segundo Moacyr Oliveira, presidente da Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro (Aruc), e Geomar Leite, presidente da Liga das Escolas de Samba e da escola Águia Imperial, de Ceilândia, a situação é fruto de anos de descaso com o carnaval.

“O primeiro desfile de escola de samba foi em 1962, então faz parte da tradição da cultura popular de Brasília. Durante todos esses anos, independentemente de quem fosse o governador, faltou, com raríssimas exceções, toda uma política pública para o carnaval, faltou encarar o carnaval como uma manifestação importante de cultura popular que deve ser apoiada, incentivada para que ele possa crescer e virar um produto de atração turística, como aconteceu em outros estados”, diz Moacyr Oliveira.

A ausência dos desfiles das escolas no carnaval brasiliense aconteceu de forma intermitente ao longo dos últimos 56 anos. Em 1994 e em 1995, nos governos de Joaquim Roriz e Cristovam Buarque, por exemplo, não houve desfile, mas a agenda foi retomada no ano seguinte. Antes, em 1981, as escolas também não foram às ruas, assim como em 2003.

Em 2011, a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) aprovou a lei 4.738 com a determinação de que o carnaval de Brasília seria organizado, gerido e apoiado financeiramente pela secretaria de Cultura. No entanto, o decreto que regulamenta a maneira como será administrado o apoio só foi publicado em fevereiro de 2017. O decreto prevê a divulgação do calendário do carnaval 90 dias antes da festa e institui um Plano de Apoio, além de constituir uma Comissão Permanente do Carnaval formada por 14 membros, representantes de órgãos do governo, e destinada a planejar o evento. Foi a primeira iniciativa para se criar uma política pública contínua para o carnaval brasiliense, mas as escolas ainda aguardam os efeitos.

Este ano, a secretaria de Cultura organizou o Brasília Samba Show, com seis escolas do grupo especial, que se apresentaram na Torre de TV na semana passada. “Não era o que queríamos. Não deixa de ser um momento para mostrar que estamos vivos, que nosso trabalho continua a todo vapor”, garante o presidente da Liga das Escolas de Samba.

O evento não agradou a todos. “Levamos a proposta a seis agremiações, as outras estão muito chateadas, evidentemente. Aí dizem que deram um cala boca para as escolas”, conta Geomar. Ele explica que as escolas aceitaram participar do evento porque 2018 é ano de eleição e pode haver mudança de governo. A intenção foi mostrar a um eventual novo governo que as agremiações não desistiram do carnaval. “Para que um outro governo entre e continue a não fazer nada, queremos dizer que estamos unidos, que a lei existe e que não estamos pedindo nada além da lei”, avisa Geomar.

Há vários prejuízos ocasionados pelos quatro anos sem desfile. Para as escolas, é como se, aos poucos, perdessem o laço com a comunidade, uma das características que dá força às agremiações. A ausência das passarelas desorganiza e dispersa a rede envolvida na produção de um carnaval de avenida. “A alma de uma escola de samba é o desfile e quatro anos sem ele fere de morte a alma da escola. Vamos precisar fazer um recomeço, porque é natural que as pessoas se afastem”, avisa Moacyr, conhecido como Moa.

Segundo o secretário de Cultura, Guilherme Reis, há um diálogo com as escolas: “Acreditamos em duas saídas a serem discutidas. A primeira é financiar as escolas buscando diversificar as fontes de investimento. A segunda, é que o desfile durante o carnaval não precisa ser a única forma de as escolas atuarem”.

Outros pontos

No caso da Aruc,  com sede própria como a Acadêmicos da Asa Norte e a Águia Imperial, o jeito é fazer eventos como shows, feijoadas e festas para se manter ao longo do ano. A falta de uma sede também gera dificuldades para as escolas. Outro problema para os carnavalescos é a falta de um espaço fixo para os desfiles. 

O presidente da Aruc tem uma sugestão polêmica: um enxugamento no número de escolas. “Hoje, temos 21, mas acho esse número artificial, é uma realidade de uma outra época, quando não havia crise. Atualmente, não é mais possível. Defendo que a gente faça um enxugamento para, no máximo, 8 ou 10 escolas, pegando as mais tradicionais, com mais de 40 anos, para que possam se fortalecer”, acredita.
 
 

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