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Correio Braziliense

Cineasta Ziad Doueiri fala sobre o ódio que se dissemina atualmente

Ele é o primeiro libanês indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro


postado em 12/02/2018 07:30 / atualizado em 12/02/2018 10:10

Ziad Doueiri com dois passaportes: um da França e outro do Líbano (foto: Anwar Amro/AFP-11/9/17)
Ziad Doueiri com dois passaportes: um da França e outro do Líbano (foto: Anwar Amro/AFP-11/9/17)

Enquanto o público brasiliense já pode conferir três dos filmes que disputam o Oscar de melhor filme estrangeiro ao lado do longa libanês O insulto, o diretor desse filme recém-estreado na cidade, Ziad Doueiri, teve a experiência contrária: até agora, só conferiu o russo Sem amor — que segue inédito na capital. “O concorrente russo é ótimo: adorei. É um grande filme”, comenta o cineasta.

Ainda que os candidatos —  todos premiados em festivais como Berlim e Cannes —  exprimam temas bem contemporâneos, cabe ao libanês a tarja de fita politizada e incisiva. Sebastián Lelio, que disputa pelo Chile, trata em Uma mulher fantástica sobre transsexualidade, Corpo e alma tem direção da única mulher no seleto grupo (a húngara Ildicó Enyedi), o russo Sem amor leva a cabo o cinema nada sentimental de Andrey Zvyagintsev e The square conta do fazer artístico na Suécia.  Ziad Doueiri, em O insulto, alinha argumentos explosivos, bastidores da justiça e preconceito contra refugiados.

Caso ganhe a estatueta máxima do cinema, Ziad ainda não tem discurso pronto: “Já recebemos a mais animadora das notícias: o Líbano teve a primeira indicação da história! O resto foge ao meu controle”. Antigo assistente de câmera de Quentin Tarantino, Ziad Doueiri traz, como realizador, um filme nada sangrento. O insulto mostra o mecânico palestino Toni (Adel Karam), cristão nacionalista, numa cruzada contra o refugiado Yasser (Kamel El Basha). Germinada num bairro cristão em Beirute, a briga ganha os holofotes da mídia, repercussão nacional e coloca o réu Yasser visto como oponente a libaneses, durante uma guerra civil que durou 15 anos.

“Eu não ingressei no projeto de O insulto para criar controvérsia. Acreditamos no potencial de uma boa história. Nos apoiamos no fato de termos bons personagens. Muita gente quis entender que a gente estipulou uma visão, buscar a garantia de uma versão defendida. O que proponho, no filme, são pessoas comuns submetidas à pressão limite”, avalia o realizador. Filho de uma advogada, que trabalhou como consultora para a produção, Ziad conta que todos os tios dele são juízes e que, em peso, a família esperava que ele se rendesse à feitura de um drama de tribunal.

“Optei por seguir a estrutura do filme que tinha em mente, desde muito cedo. Ainda na etapa do conceito do longa, percebia a importância de transformá-lo em um drama de tribunal”, comenta o diretor de 54 anos. Morto há quatro anos, o ex-premier de Israel Ariel Sharon, em O insulto, move parte do discurso de ódio do mecânico Toni, que desejaria “o extermínio” dos palestinos, por ações efetivas do político. “Sharon não está no centro de nada na trama que conduzo. Os personagens é que estão no centro. O nome dele é tão somente uma palavra usada pelos personagens. Gera o mesmo efeito da escolha de palavras num contexto de rixa, propenso à paixão e a situações flamejantes”, defende o diretor.

Tal qual numa partida de pingue-pongue, as razões de Toni e de Yasser se alternam na trama e o diretor assume que não foi nada neutro, tomando partido. “Apesar disso, assumi a visão de alternar os pontos de vista. Um diretor tem que se interessar pelo que tenha força dramática”, resume.

Mostrar a intolerância em escala mundial acabou sendo uma coincidência no roteiro de O insulto. “Do nosso atual mundo, sei apenas que estamos num período fascista. Muitas nações estão divididas, com sociedades empregando ‘o certo e o errado’, pregando entre a ‘extrema direita’ e ‘a extrema esquerda’. Contudo, nunca levei isto em conta, enquanto escrevia o filme. Simplesmente, aconteceu”, conta o diretor.

Censura e tensão 

Tratando dos bastidores de O insulto, Ziad Doueiri conta que, no governo, houve quem tentasse impedir a realização do filme. “Havia quem me defendesse — temos esta dualidade no nosso atual governo. Foi uma questão de ajuste de cronograma: talvez, em 2016, não pudesse ter concluído o material”, observa.

O insulto chega às telas cinco anos depois de um pesado incidente atingir a fita anterior do cineasta, O atentado, em que um médico palestino trata de vítimas israelenses depois da explosão de uma bomba. “O filme realmente foi boicotado por muitos grupos; mas, ao final, o governo acabou por se render. Tive o mesmo medo, quando do lançamento de O insulto”, destaca.

O atentado, hoje em dia, é visto como um capítulo vencido, uma página virada, mas causou raiva. “Fiquei muito frustrado, raivoso e ainda mais incomodado pelo fato de, na trama, não ter defendido ninguém”, pondera.

“As pessoas gritam e tentam te intimidar mas não me importo com isso. Faço filmes e dou continuidade à minha obra: ninguém me assusta”
Ziad Doueiri, cineasta indicado ao Oscar 2018

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