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Correio Braziliense

HQ 'Desenhados um para o outro' fala do amor de Robert e Alice Crumb

Obra reúne as histórias cheias de humor ácido e obscenidades do casal de ícones dos quadrinhos Robert e Aline Crumb


postado em 13/02/2018 07:00 / atualizado em 12/02/2018 19:19

O casal de quadrinistas não esconde nada nessa autobiografia recém-lançada no Brasil(foto: Companhia das Letras/Divulgação)
O casal de quadrinistas não esconde nada nessa autobiografia recém-lançada no Brasil (foto: Companhia das Letras/Divulgação)

 
"Somos dois chimpanzés, um jogando ideias pro outro". Assim Aline Crumb define a si e ao marido, Robert, na introdução de Desenhados um para o outro. A HQ, lançada agora no Brasil, reúne a produção do — segundo dado nada confiável deles mesmos — único casal (homem e mulher) quadrinista do mundo.

Com o humor cáustico e as obscenidades características do trabalho dos dois, o livro traz narrativas desde o início da parceria de Robert e Aline nos quadrinhos, nomes fundamentais para a história do gênero. "A gente começou em 1972, escancarando pro mundo a loucura que é a nossa vida sexual", escreve Crumb na introdução.
 

Uma espécie de autobiografia em dupla, Desenhados um para o outro mergulha na mente perturbada e escatológica dos dois e traz diálogos e relatos sinceros e, ao mesmo tempo, impiedosos em relação aos próprios autores. Em um dos trechos da HQ, Aline destrincha os métodos de criação da dupla e explicita a busca tresloucada por intimidade, que soa excessiva para os padrões ditos normais. “É mais interessante quanto mais pessoal, revelador e lacrimoso... Eu quero sentir que estou espiando pela fechadura do inferno particular do outro, seja quem for... Não existe nada trivial se for sincero”, reflete.

Desenhos

Cada um deles é responsável pelo próprio desenho. Robert faz a maioria dos painéis e Aline se insere neles, com exceção dos momentos em que aparece sozinha. Com o passar do tempo, a filha do casal, Sophie, passou a se desenhar em alguns episódios também.

Pautados pela honestidade acima de tudo, Aline e Crumb revelam os detalhes mais sórdidos da convivência e contam até os pensamentos íntimos sobre um e outro em muitos momentos do quadrinho.

O casal Crumb não se perdoa. Em quase todos os episódios retratados em Desenhados um para o outro é possível ver críticas e sarcasmos disparados por Aline para Robert e vice-versa. E, na verdade, eles não deixam de lado em nenhum momento uma perversa autocrítica.

“Como a gente é tagarela!! Olha essas páginas, é só cabecinha falante! Não tem ação, nem suspense, nem mistério... tudo às claras! São uns queridos, essa Aline e esse Bob! Ai, ai... bom, mas eu gostei do visual pelo menos…”, diz Robert, enquanto analisa uma das histórias. Logo depois, Aline completa a reflexão metalinguística: “É tão feio... Depois de desenhar tanto gibi, eu pensava que meu desenho ia melhorar… Mas não melhorei nada em 30 anos!”.

Gênios da contracultura

Um dos mais reconhecidos quadrinistas da história, Robert Crumb começou a carreira na década de 1960 desafiando os valores conservadores da sociedade norte-americana com a publicação de revistas como a icônica ZAP. Falando com sarcasmo e humor sobre temas como violência, sexo e incesto, o quadrinista se tornou o pai dos quadrinhos underground e umas das figuras mais provocadoras da arte americana. Durante a carreira, editou mais de 200 fanzines.

Pioneira da presença feminina entre quadrinistas, Aline Crumb foi uma das fundadoras do Wimmen’s Comix, coletivo que atuou entre 1972 e 1992. As HQs do grupo abordavam temas como feminismo, homossexualidade, sexo e política. Aline, assim como Robert, tornou-se símbolo do quadrinho underground.

Com um pé no Brasil

Crumb é apaixonado pela música brasileira e é fã de Noel Rosa e Chiquinha Gonzaga. Ele mantém uma coleção de discos de vinil de 78 rotações, que,)S ao lado da música tupiniquim, é tema de cartas trocadas entre ele e o quadrinista Camilo Solano.

O brasileiro, que teve um prefácio de Crumb na sua HQ Desengano, é quem conta do amor do americano pelo cancioneiro nacional. “Conversamos muito sobre música, quadrinhos e arte. Eu envio alguns desenhos e ele já me mandou alguns originais.”


Desenhados um para o outro
Aline e Robert Crumb. Companhia das Letras. 272 páginas. R$ 69,90.
 
 
 
 
 





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