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Correio Braziliense

Leia entrevista com Duncan Jones, diretor de 'Mudo', da Netflix

O longa é dirigido por Duncan Jones, de trabalhos como Lunar, Contra o Tempo e Warcraft


postado em 23/02/2018 17:53

(foto: Netflix/Divulgação)
(foto: Netflix/Divulgação)

Poucas figuras pareceriam mais estranhas em um cenário de ficção científica do que Leo (Alexander Skarsgård), protagonista do filme Mudo, disponível a partir desta sexta-feira na Netflix. Advindo ao grupo religioso cristão amish, o personagem vive longe da comunidade mas ainda segue alguns costumes típicos, evitando, por exemplo, o uso de equipamentos eletrônicos, algo ainda mais incomum na ambientação futurista do drama dirigido por Duncan Jones.

Ainda que seja o quarto longa-metragem de Duncan Jones, Mudo foi pensado há mais de uma década, antes mesmo de Lunar (2009), a estreia do diretor e roteirista. As dificuldades em encontrar uma casa para o roteiro o levaram a tentar adaptar a história para uma HQ, desenhada por Glenn Fabry (Preacher), mas o projeto, anunciado em 2013, também não andou. Acolhida pela Netflix, a história não vai realizar o desejo do diretor mostrar Mudo na tela grande, ao menos para um grande público, já que o filme terá poucas sessões em cinemas, apenas nos EUA.

"É uma barganha justa", afirmou o diretor, em entrevista exclusiva ao Viver, por telefone. "Estou de acordo com esse arranjo", diz, sobre a chance de finalmente viabilizar o filme e mostrá-lo, independentemente do tamanho da tela onde a obra será vista. Para o cineasta, uma das vantagens dos serviços de streaming está em poder realizar obras de menor abrangência. "Os estúdios tradicionais mudaram bastante na última década ou mais, com um foco muito grande na bilheteria do fim de semana abertura, de conquistar a maior audiência possível. Não importa o tema, querem que o filme tenha apelo para todo mundo", critica.



De fato, Mudo não parece pensado com um blockbuster. É um filme rodeado de figuras estranhas, em uma trama com desenrolar insólito. Vítima de um acidente que danificou as cordas vocais na infância, Leo fica mudo a partir daí, já que os pais impedem, em respeito aos princípios religiosos, uma intervenção cirúrgica. Já adulto e longe da comunidade, mora em uma Berlim futurista, mas segue vivendo de forma austera e relativamente reclusa. O ponto fora da curva é o relacionamento com Naadirah (Seyneb Saleh), garçonete do bar onde Leo trabalha como bartender.

A tranquilidade na rotina é quebrada quando Naadirah desaparece. Sem muitas pistas, ele vai em busca da namorara e esbarra em alguns criminosos e com uma dupla de cirurgiões norte-americanos, Cactus Bill (Paul Rudd) e Duck (Justin Theroux).

A presença de um protagonista mudo evita alguns clichês de histórias detetivescas, como narrações em off ou diálogos expositivos. Sem voz, o personagem depende muito do olhar e expressão corporal, tarefa em que Skarsgård se sai bem. Embora a trama pudesse ser transposta sem grandes mudanças para um cenário convencional sem grandes mudanças, a ambientação sci-fi traz frescor para a narrativa e arrojo visual para algumas cenas. A estranheza dos personagens e os caminhos atravessados por eles talvez sejam o grande mérito do filme de Duncan Jones, que se às vezes peca no ritmo, tem originalidade e coração.

ENTREVISTA \\ Duncan Jones, cineasta

Visualmente, o filme parece uma ficção científica, mas a trama segue mais a linha do mistério, dependendo pouco da ambientação futurista. Qual a razão da escolha do cenário?
Eu achei que seria um desafio interessante subverter as expectativas sobre como um filme de ficção científica deve ser, e fazer algo um pouco diferente. É uma história de detetive, um thriller, mas, ao mesmo tempo, se dá dentro de um cenário sci-fi, com todos os elementos que um filme do gênero tem.

Como roteirista e diretor, foi particularmente complicado ter um protagonista mudo?
Eu acredito que foi desafiador para Alexander (Skarsgård), que interpretou Leo. Mas o divertido sobre isso foi a forma como os personagens (que não sabem da mudez) têm expectativas erradas sobre esse ele: uns acham intimidador, outros pensam ser alguém que reflete muito antes de falar ou o consideram apenas um idiota. As pessoas que interagem com ele pensam de diferentes maneiras.  

Existe semelhança entre Leo e os protagonistas de outros dois filmes que você dirigiu, Lunar e Contra o tempo: são homens solitários em jornadas complexas. Você concorda?        
De certa maneira, todos eles descobrem que o mundo a sua volta não é exatamente da maneira como eles pensavam. Então, acredito que existe essa similaridade, a descoberta de que suas vidas não são exatamente simples.  

Exceto por Warcraft (2016), todos os seus filmes são dramas com um toque sci-fi. Você tem planos de enveredar por gêneros diferentes, algo completamente oposto, como uma ação ou comédia?
Eu adoraria. Acho que estou em um ponto da minha carreira em que posso brincar com as expectativas do público em relação a que tipo de filme eu posso fazer. Agora, que já estabeleci certo padrão, posso pensar em uma disrupção.

Qual a vantagem em produzir diretamente para o streaming?
Acho que os estúdios tradicionais mudaram bastante na última década ou mais, com um foco muito grande na bilheteria do fim de semana abertura, de conquistar a maior audiência possível. Não importa o tema, querem que o filme tenha apelo para todo mundo. A beleza dos serviços de streaming é que os filmes que não precisam ter essa abrangência. Você pode fazer filmes mais direcionados e até mesmo originais. É algo positivo termos essa opção.

Você dedica o filme do seu pai, David Bowie (1947-2016), e sua mãe de criação, Marion Skene (1950-2017). A perda deles interferiu em algo na produção?
Foram anos estranhos. Eu perdi meus pais e, ao mesmo tempo em que eu me tornava pai. Eu e minha esposa tivemos um belo e enérgico garoto (em 2016) e, agora, temos uma menina a caminho, prevista para abril. Eu acho que paternidade sempre foi o coração do filme. Em tudo que faço, até um projeto como Warcraft, eu tento colocar o máximo de mim, é minha maneira de ser criativo, fazer as coisas reais e pessoais.

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