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Correio Braziliense

'A noite de espera', de Milton Hatoum, reflete terror dos anos de chumbo

Obra se passa na turbulência de Brasília na década de 1960 e aborda as consequências nefastas para a construção de uma sociedade democrática


postado em 24/02/2018 07:20 / atualizado em 23/02/2018 18:16

Milton Hatoum: saga de um jovem separado da mãe e trazido a Brasília (foto: Fábio Setimio/Divulgação)
Milton Hatoum: saga de um jovem separado da mãe e trazido a Brasília (foto: Fábio Setimio/Divulgação)
Nessa última incursão ao universo literário, em A noite da espera, primeiro volume da trilogia O lugar mais sombrio, Milton Hatoum se distancia do Amazonas, que focalizou em Relato de um certo oriente, Dois irmãos, Cinzas do Norte e Órfãos do Eldorado.

Numa construção surpreendente, Hatoum nos leva a acompanhar as experiências e as angústias de um jovem que, separado da mãe aos 16 anos e trazido pelo pai para morar em Brasília no fim da década de 1960, convive, no seu desenvolvimento, com a própria timidez, a saudade, o amor, o ciúme, a sensação de abandono e o sentimento de culpa por uma infundada covardia.

O protagonista e narrador Martim está em Paris e o ano da escrita é 1978, quando tira da sacola a papelada de Brasília e de São Paulo. São inúmeros “cadernos, fotografias, cadernetas, folhas soltas, guardanapos com frases rabiscadas e diários de amigos, quase todos distantes; alguns perdidos, talvez para sempre”, e muitas cartas, cujas informações serão reorganizadas e transcritas em forma de diário.

É uma tentativa de resgatar as experiências do período de 1968 a 1972 em que viveu em Brasília, reconstituindo seu percurso de amadurecimento. Entrelaçadas às datas dos acontecimentos no Brasil, estão textos de Paris com rememorações, interpretações, comentários sobre as lembranças recuperadas e relatos da vida no exílio francês.

O cenário é emblemático: a capital federal em plena ditadura militar, com sua paisagem urbana, suas ruas e praças, suas cidades-satélites, seus bares, seus restaurantes, seus hotéis, seus cinemas, sua universidade, suas livrarias, seus moradores. Fazem parte do enredo o CIEM e a brutal interrupção de seu funcionamento; a UnB e a repressão exercida pelo governo autoritário; a Livraria Encontro, que funcionava na galeria do Hotel Nacional, e seu fechamento diante de ameaças do poder militar.

Os personagens são representativos das turbulentas circunstâncias sociais e políticas: Lázaro, líder estudantil, e sua mãe, a cozinheira Vidinha, que foram transferidos do Morro do Urubu para Ceilândia; Nortista/Lélio, ator que vivia de trampolinagens traficando maconha; Ângela, envolvida com experiências místicas e esotéricas, filha de senador que apoia os militares; Fabius, estudante de direito, filho do embaixador Faisão, colocado no ostracismo por perseguição dos colegas do Itamaraty; Damiano, professor de artes cênicas; Baronesa/Áurea, que bajula as autoridades da situação e da oposição oferecendo presentes e jantares para ter a ilusão de poder; Vana, sobrinha da Baronesa; Dinah, atriz e líder, filha de funcionários públicos; Rodolfo, funcionário da Novacap, que admira os militares, pai de Martim; Lina, professora de francês, que, ainda em São Paulo, abandona Rodolfo e o filho para viver com um artista plástico.

Muitos dos personagens secundários são pessoas facilmente identificáveis pelos leitores que viveram na cidade naquela época: Geólogo, Manequim, vice-reitor, poeta alemão, Jorge Alegre, Romero Blanco, entre outros.

O grupo de jovens, unido em torno de um projeto de encenação teatral e de uma publicação cultural, a revista Tribo, descobre o amor, o sexo, a amizade, a poesia, a literatura, a participação política e o medo.

Martim, o protagonista desse romance de formação, é atormentado pela convivência difícil com o pai: “não sei nomear o sentimento de Rodolfo em relação a mim. O que podia ser? Meu pai me cercava e intimidava com um silêncio bruto, que me emparedava. Lembro que ele não falava quando iria embora da ‘maldita Asa Norte, essa espelunca seca e deserta’.” Nesse particular o autor se refere sutilmente à diferença que havia entre a Asa Sul e a Norte, ainda com poucas quadras construídas de blocos baixos “de acabamento tosco, sem cor, no meio do barro e da tristeza”, ocupados pela classe média.

Lina, a mãe de Martim, que ele não sabe onde mora, se comunica por cartas intermediadas pelo irmão Dario. Combinam um encontro em Goiânia, mas apenas Martim comparece ao local acertado e fica inutilmente esperando pela mãe. A convivência com o pai hostil e o longo período distante da mãe formam o eixo dramático da vida do jovem Martim e afetam profundamente sua existência.

Perpassado pela desilusão, este magnífico romance nos faz rememorar o terror dos anos de chumbo e refletir como influíram para que não conseguíssemos construir um país mais justo, mais igualitário e mais humanizado.

(foto: Companhia das Letras/Divulgacao)
(foto: Companhia das Letras/Divulgacao)
A noite de espera
Milton Hatoum/Ed.Cia das Letras. 216 páginas/R$ 39,90

*Lucília Garcez é escritora, doutora em linguística e professora aposentada do Instituto de Letras da UnB

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