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Correio Braziliense

Hugo Rodas volta aos palcos da capital como diretor em 'Atra Bilis'

Espetáculo reúne grandes nomes da cena teatral brasiliense


postado em 24/02/2018 07:25

Nomes conhecidos da cena teatral integram o elenco de Atra Bilis(foto: Diego Bresani/Divulgação)
Nomes conhecidos da cena teatral integram o elenco de Atra Bilis (foto: Diego Bresani/Divulgação)

Hugo Rodas, um dos nomes mais criativos e revolucionários da cena teatral brasiliense, reuniu um forte time de artistas para entrar em cena sob a direção dele. Bidô Galvão, Carmem Moretzsohn, Chico Sant’Anna, Sérgio Fidalgo, William Ferreira, Abaetê Queiróz, Camila Guerra e Solange Cianni se alternam entre os personagens carismáticos de Atra Bilis, texto da premiada autora espanhola contemporânea Laila Ripoll. A história ganha vida por meio do realismo mágico da narrativa e chega ao público em versão inusitada, com o elenco dividido entre masculino e feminino.

A comédia farsesca narra um velório numa pequena aldeia do interior da Espanha. Três irmãs idosas e a criada velam o corpo do único homem que habitou a Casa Grande.

A tradução do texto faz parte do projeto Coleção Dramaturgia Espanhola em parceria com o festival Cena Contemporânea (Brasília) e o Tempo Festival (Rio de Janeiro). O projeto cedeu ao Brasil livros com 10 textos de autores espanhóis e convidou encenadores de diferentes estados para assinar as traduções e as montagens. “Eu me apaixonei por esse texto, é muito divertido e mostra o poder de uma classe que era dominante na Espanha. É uma crítica a essa classe”, conta o diretor.

A ideia de montar o espetáculo com um elenco feminino e outro masculino encenando os mesmos personagens em espaços e situações diferentes veio durante os ensaios. O elenco fez um trabalho minucioso para criar esse experimento em cena. As mulheres, com textos nas mãos, sobem ao palco para mostrar o espaço de ensaio, o que seria o início de um processo de montagem, enquanto os homens, com figurinos e maquiagens teatrais, interpretam o momento da apresentação. “O texto me provocou o desejo de voltar a fazer teatro. Ele é universal e pode ser adaptado para qualquer espaço e tempo”, destaca Hugo.

Carmem Moretzsohn traduziu o texto ao lado de Hugo e interpreta a personagem Nazária, viúva do único homem da Casa Grande. Ela é uma mulher síntese do título do espetáculo: atrabiliária, ou seja, amarga, furiosa, cruel e, ao mesmo tempo, um tanto melancólica. “É importante dizer que estamos lidando com uma comédia. Então, ela é tudo isso, mas também engraçada em sua arrogância”, destaca.

A atriz lembra que o texto tem muitos ditados populares, o que tornou o trabalho ainda mais cuidadoso. Primeiro era preciso buscar o sentido de cada dito na Espanha rural e, em seguida, encontrar ditados populares brasileiros que correspondessem. “Foi um desafio. O texto fala de lugarejos habitados por nossos avós, aquelas pequenas cidades que ficam abandonadas, perdidas no tempo. É uma temática universal, uma vez que leva para a cena a solidão e os delírios de quatro velhinhas”.

Parte do elenco masculino, Chico Sant’anna conta que trabalhar com Hugo Rodas é sempre um aprendizado e um desafio. Ele também interpreta a viúva Nazária, com sua própria criação, única e singular. Para Chico, o humor exige uma precisão absoluta dos atores na forma de interpretar, para criar o tempero e o ritmo certo ao dialogar com o público.

Embora em espaços diferentes, ambos os elencos interagem-se pelas situações propostas pelo texto de Laila Ripoll. Atra bílis (ou bílis negra) representaria aquele ser humano mal-humorado a todo tempo. Em cena, esse humor torna-se fino e satírico pelas mãos do diretor.

Para Hugo Rodas, a narrativa, que fala de poder e classes dominantes, se relaciona fortemente com os dias atuais. Não é uma peça que fala literalmente desse ponto, mas cria uma importante e afiada teia de comentários reflexivos.

O teatro, criado a partir de nomes com trajetórias tão singulares e experientes na cidade, mostra sua capacidade mais intrínseca de proporcionar diálogos, diversão e reflexão a partir da cena. Se o palco não pode, sozinho, solucionar a vida, que mantenha sua vocação inata de permitir que artistas e espectadores possam se expressar, criar e pensar através dele.

Atra Bilis
Direção de Hugo Rodas, de 1º de março a 1º do abril, no Teatro Sesc Garagem (913 Sul). De sexta a domingo, às 20h. Os ingressos custam R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada).  Não recomendado para menores de 12 anos.

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