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Correio Braziliense

Curso de Verão da EMB terá maestro cubano Joaquín Betancourt

Maestro trabalhou com Omara Puortondo e Chucho Valdés e é um dos destaques do curso


postado em 25/02/2018 07:20

(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

A música cubana vai muito além de Buena Vista Social Club, embora o grupo de músicos que tocava na famosa casa tenha ajudado, nos anos 1990, a chamar a atenção para a produção musical da ilha em um de seus piores momentos. Naquela época, Cuba enfrentava uma escassez dramática devido ao rápido desmoronamento do bloco socialista. Foi um período em que pouca atenção se deu à cultura, porque necessidades básicas estavam à frente de tudo.

O maestro Joaquín Betancourt lembra desse período como um momento especial. Violinista, produtor musical que já trabalhou com Omara Portuondo, Chucho Valdés e Cesária Évora, ganhador de um Grammy Latino e regente de uma big band de jazz, o maestro é o único estrangeiro professor convidado do 39º Curso Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília (Civebra-EMB).

Em Brasília, ele prepara uma big band formada por 40 alunos para tocar na próxima quinta-feira, no Teatro da Escola de Música de Brasília. Trabalhar com jovens músicos é algo que faz parte do cotidiano do maestro e uma forma de levar a música cubana contemporânea para outras searas.

Buena Vista foi importante, faz parte de uma tradição, mas muito se fez na ilha depois de Ibrahim Ferrer e Compay Segundo. Nos anos 1980, Betancourt fundou a Opus 13, com o objetivo de levar a música cubana contemporânea para os jovens. Nos anos 1990, foi a vez da Banda JB e de projetos como a orquestra de Isaac Delgado, um dos nomes populares da salsa no final do século 20. Betancourt também chegou a dirigir a orquestra El canario, do dominicano José Alberto, cuja salsa romântica embalou o Caribe.

“A música que se faz hoje em Cuba tem elementos dessa música tradicional, mas também tem elementos de muita música que não é cubana. Eu diria que, em Cuba, atualmente, a música tem muitos elementos do jazz e da música brasileira”

São estilos que fazem parte de uma época. Hoje, segundo Betancourt, a música contemporânea cubana está muito ligada ao jazz. Há influências brasileiras também, especialmente da bossa nova, embora a música do Brasil não seja muito popular na ilha. Unanimidade mesmo é o reggaeton. O maestro brinca que há um estado de sítio com o cenário tomado pelo ritmo porto-riquenho que se espalhou por todo o Caribe. É o funk da região.

“Não tem nada de cubano. E o que mais detesto dessa música é que ela é muito agressiva, faz muita objetificação sexual, é machista. Há um grande setor da sociedade que a rejeita, mas há outro setor que sensivelmente a assimila e consome”, diz.

Betancourt conta que, na época em que estudou, os professores cubanos eram rígidos em não permitir intercâmbios entre as músicas erudita e a popular. A situação mudou muito nos últimos anos e o diálogo entre os gêneros produziu uma música rica, com contornos que misturam a tradição popular latina cubana com as técnicas da educação formal. “Quando o músico recebe formação acadêmica, o entorno, o pensamento é outro. Não quer dizer que deve abandonar o que aprendeu. O pensamento é outro, porque ele está banhado de novas técnicas, de novos conhecimentos e isso é o que está acontecendo hoje. A música que se faz hoje em Cuba tem elementos dessa música tradicional, mas também tem elementos de muita música que não é cubana. Eu diria que, em Cuba, atualmente, a música tem muitos elementos do jazz e da música brasileira”, diz o maestro.

Ele mesmo enveredou pela mistura. Hoje, Betancourt circula por todas os gêneros. Ele acaba de gravar um DVD à frente da big band que acompanha o saxofonista americano Joe Lovano. Também gravou com o percussionista cubano Horacio Hernandez e prepara outro DVD com músicas de Juan Former e Alberto Alvarez, compositores contemporâneos cubanos, tocadas pela Orquestra Nacional de Cuba.

Concerto da big band do 39º Civebra
1º de março, quinta-feira, às 21h, no Teatro da Escola de Música de Brasília (TEMB). Regência: Joaquin Betancourt

Três perguntas / Joaquin Betancourt


Como funciona o trânsito entre o erudito e o popular em Cuba, que tem uma música tradicional forte, mas  também tem uma academia que forma grandes instrumentistas? 
Em Cuba, na época que estudei, nem sequer podia me dar ao luxo de escutar e praticar música popular, porque os maestros não toleravam isso. Isso é fruto do preconceito que existe em toda parte do mundo e que tem mudado e ajudado a música a se misturar. Creio que uma grande parte dos músicos defende que a música tenha qualidade independente do gênero praticado. E creio que isso é importante. Hoje, há muitos músicos clássicos interessados em fazer música popular. E em Cuba, muitos músicos com formação de origem popular fazem música de concerto e composições com arranjos que têm as duas linguagens.

No Brasil e no mundo, a música cubana foi muito difundida com a retomada dos músicos do Buena Vista Social Club pelo filme de Wim Wenders e pelo disco de  Ry Cooder. Mas o que é hoje a música contemporânea cubana?
Nos queixamos muito de que o Buena Vista tenha sido a única coisa que se tenha ouvido por aí da música cubana. Antes deles, há muita música cubana e o próprio Buena Vista retoma músicos de outras épocas. Essa música acabou estourando. Em Cuba, nunca se deixou de tocar essa música, mas não é a música nova. Respeitamos, gostamos e queremos que os músicos a aprendam e a desenvolvam, mas não podemos pretender que a música que sempre se toca esteja na esteira do Buena Vista, porque senão não há desenvolvimento. E em matéria de música, há um bom movimento contemporâneo, que também é baseado na música feita pelo Buena Vista, que é a autêntica música cubana.

No Brasil, temos um fenômeno forte popular que é o funk, uma música muito pop, que fala de uma realidade nacional, das favelas, da violência. Há algo parecido em Cuba?
Estamos numa espécie de estado de sítio. Há algumas músicas que nasceram de regiões mais pobres da América Central, do Caribe, como o reggaeton, que não tem nada de cubano, e há uma música que vem, inteligentemente, incorporando ao reggaeton elementos da música cubana com algo mais personalizado. Não temos tanto problema com a música que vem do exterior e dos EUA, e sobretudo dos EUA, como o pop. O maior problema é o fenômeno dessa música, o reggaeton, que é urbana e muito mais nociva que qualquer coisa de outra parte do mundo.

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