Publicidade

Correio Braziliense

Roberto Corrêa faz show de despedida da Escola de Música de Brasília

O recital que também celebra quatro décadas de carreira


postado em 26/02/2018 07:30 / atualizado em 26/02/2018 13:38

Roberto Corrêa (foto: Mario Miranda Filho/Divulgação-29/9/17)
Roberto Corrêa (foto: Mario Miranda Filho/Divulgação-29/9/17)

É uma despedida — mas não dessas que colocam um ponto final —  a que o violeiro Roberto Corrêa faz hoje no palco do Teatro da Escola de Música de Brasília (TEMB). Professor da instituição desde 1985 e criador da disciplina de viola caipira, o músico se aposenta do universo da docência para mergulhar no da composição. E faz isso com um recital dividido em quatro décadas, retrospectiva da carreira iniciada com um curso de física e um fascínio incontrolável pelo instrumento típico dos interiores do Brasil.

Para cada década, Corrêa escolheu um repertório que ilustra momentos significativos. “Vou mostrando a importância de composições e dos tipos de arranjo para aquele momento e aquela época”, adianta. Se as primeiras décadas têm parte da pesquisa que levou o violeiro a se aproximar do instrumento, os anos 1990 são marcados por dois discos, Crisálida (1996) e Uróboro (1994), feitos na época em que passou por um problema de saúde. Com Uróboro, ele queria mostrar as possibilidades da viola como instrumento solista sem o acompanhamento do violão. “E Crisálida foi o arranjo de clássicos da música brasileira mostrando o potencial que a viola tem”, conta.

Do início do século 21, o músico escolheu canções e faixas como Queluzindo, de Extremosa Rosa (2002). Foi um período em que Roberto Corrêa começou a inserir voz nas composições, uma consequência de prática mantida no palco ao conversar e contar causos para o público. As histórias passaram a integrar as canções. Na última parte do espetáculo, ele mostra composições mais recentes. Não são muitas, o violeiro avisa, porque andou muito embrenhado em pesquisas nos últimos anos. Esse ciclo, no entanto, se encerra agora, assim como a carreira de docência.
 
 
No palco, o músico vai receber o convidado Herik de Souza, aluno da EMB com quem tem mantido uma dupla caipira. “Eu ensino o instrumento, mas ensino também as vozes e tal. E nesse processo casou a minha voz com a dele e é difícil casar uma voz com a outra, então começamos uma dupla caipira”, avisa.

Nos próximos anos, Corrêa quer se dedicar à composição. “Tenho que mergulhar nesse universo novamente”, diz, ao revelar já ter material para um novo disco. “Não vou dar mais aula presencial. A não ser on-line. E não vou continuar a fazer pesquisa. Vou ficar dedicado ao compositor, vou ter mais tempo para compor, vou resgatar isso em mim e já estou com projeto nesse sentido.” Este ano, ele também lança um aplicativo do livro A arte de pontear viola e, para julho, prepara um espetáculo ainda sem nome.

Dirigido por João Antônio, o recital terá um personagem, um violeiro caipira, que vai contar a história da viola no Brasil, do mitológico pacto com o diabo às devoções das folias de reis e mistérios do instrumento. A estreia deverá ser no Teatro da EMB e na Universidade de Brasília (UnB). Em 2019, o músico lança o livro de sua tese de doutorado, O aviamento da viola no Brasil. Corrêa quer, ainda, lançar dois discos nos próximos anos. Um, com composições próprias que ficaram de fora de trabalhos anteriores e outro com peças do poeta e compositor Goiá. Um disco em parceria com Herik de Souza também está na linha de ternura. É uma aposentadoria que o público agradece.

40 anos de viola
Recital de Roberto Corrêa. Convidado: Herik de Souza. Hoje, às 21h, no Teatro da 
Escola de Música de Brasília (TEMB, 602 sul). Entrada franca
 
 

Confira uma playlist com músicas do artista


1977-1987      
“Nessa década, vou colocar Baião do pé rachado, que é uma música virtuosística, um caboclinho. O ritmo é o baião, mas é usada em outros tipos de música e uma delas é o caboclinho, que são os caboclos que se fantasiam de índios. Antigamente, se chamava Baião do cão danado, mas mudei o nome porque as pessoas no interior começaram a falar que eu tinha feito música para o capeta. Não fiz música pra capeta nenhum. Outra música dessa década é Parecença. E Araponga isprivitada.”

1987-1997
“Vai ter Anti-viola, Odéon (Ernesto Nazareth) e O trenzinho do caipira (Villa-Lobos). Anti-viola é o samba caipira, um ritmo pouco usado na música caipira, é uma composição minha. E Odeon e O trenzinho já é essa ideia de mostrar viola em outro tipo de música, mostrando o potencial desse instrumento como solista.”

1997-2007
“São as composições mais recentes. Aí dessa década tem Queluzindo. E vou colocar as canções, porque comecei a gravar canções. Comecei como instrumentista, solista. E o que acontecia é que, nos espetáculos, eu contava muito causo e chegava a cantar alguma coisa para contextualizar o causo. Percebi que o canto fazia outra conexão com as pessoas. E elas começaram a pedir. Comecei a introduzir as canções e a compor canções. Primeiro comecei a fazer arranjos, depois fui compondo também. Mas não me lembro precisamente em qual década foi. Vou tocar Viola quebrada, de Mario de Andrade, e Morena se eu te pedisse, uma modinha.”

2007-2017
“São as composições mais modernas. Não tenho tantas mais, porque fui me dedicar ao doutorado e a parte do compositor ficou mais recolhida, mas tenho composições como Viola nova, No giro da folia e Nos gerais. São canções. E essas canções têm parcerias, porque comecei a fazer parcerias. No giro da folia e Nos gerais é parceria com Néverton Ferreira. Viola nova é só minha.”

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade