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Correio Braziliense

Filmes que concorrem ao Oscar 2018 retratam o pior da sociedade americana

O pior da sociedade norte-americana, de certa maneira, está representado em produções que concorrem na categoria de melhor filme do Oscar, com questões que incluem racismo, sociopatias, misoginia e drogas


postado em 27/02/2018 06:50

Os nove filmes concorrentes ao Oscar expõem feridas da sociedade americana
Os nove filmes concorrentes ao Oscar expõem feridas da sociedade americana



É quase uma revisão do passado acompanhar as tramas e os tratamentos reservados aos nove filmes indicados ao Oscar, em 2018. Sete dos longas revelam dados e traços da sociedade mundial, pela ótica do cinema de Hollywood. Se as narrativas poderiam ser datadas, os cineastas à frente dos concorrentes demonstram habilidade na exposição de abordagens atentas à nossa realidade. Postura política, machismo, compulsão e desvio de comportamento passam pelo exame minucioso dos diretores preocupados ainda, numa generalização, com racismo e xenofobia.

“O cinema é um espelho da realidade e é também um filtro”, observa um personagem de Me chame pelo seu nome, um dos concorrentes a melhor filme. O romance gay apresentado na fita, com ação filmada na Itália, é, com a dobradinha de filmes sobre a Segunda Guerra (Dunkirk e O destino de uma nação), exemplar fora da curva das escolhas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que favorece abordagens norte-americanas, por excelência. Mas, ainda assim, os três filmes acusam traços de solidariedade, nacionalismo e individualismo, tão discutidos na América de hoje.

A discussão de direitos humanos (em Três anúncios para um crime), o empoderamento feminino (gritante em títulos como The Post, Lady Bird, A forma da água, Três anúncios para um crime e Trama fantasma) e a tríade que sempre gera interesse em filmes hollywoodianos — sexo, drogas e violência — embalam muitos dos longas.

Da paranoia da guerra à repressão social (contra gays e negros) que move parte de A forma da água, passando pelas estabelecidas ferramentas de controle social (vistas em Corra!, permeado de racismo e manipulação mental), o cinema trilhado pelo Oscar ainda chama a atenção por dar atenção a temas como desemprego (Lady Bird), nascimento de sexualidade (Me chame pelo seu nome e Lady Bird) e conjunturas de imigração (Trama fantasma e Três anúncios para um crime).

Três anúncios para um crime
Uma cidade pequena com enormes problemas está analisada no mais recente filme de Martin McDonagh. A bandeira dos EUA tremula em cada esquina, e tudo parece deturpado em relação à América perfeita. Há desprezo por crime hediondo (de uma moça morta, ao ser estuprada), homossexuais são vítimas de preconceito, estrangeiros são olhados de lado, a polícia é acomodada e o machismo assola. O impacto, num tratamento de choque, caberá a Angela (Frances McDormand), empenhada em justiçar a filha morta. Gente queimada, tortura em plena tarde e racismo compõe o cenário do pesado e irônico drama.


Me chame pelo seu nome
Ao sul da Itália, uma família revela os ideais progressistas derivados de uma formação globalizada. “Nós somos judeus, mas também americanos, italianos e franceses. Uma combinação atípica”, enfatiza o jovem Elio, que se mostra apaixonado pelo ajudante do pai, Oliver. Cores berrantes criam o clima oitentista, em que os protagonistas encaram o amor. Fumam enquanto flertam e se despem de fato para a câmera. A léguas dos EUA, a ação traz um diálogo no mínimo pontiagudo: ao saber da nacionalidade de Oliver, norte-americano, uma mulher dispara — “não significa que ele seja burro”.


Corra! 
Em quadro, um bairro se mostra sem violência — até que um negro é arrastado para dentro de um carro. Na primeira cena, o diretor Jordan Peele imprime o tom: vai falar de racismo. Os pais da pretendente de um jovem negro darão uma festa em que desfilam barbaridades, como “preto está na moda”, que associam à “tendência” o namoro de um jovem casal. Na trama, a mocinha, empoderada, enfrentará um policial e haverá lutas corporais que chegarão à violência gráfica pesada. Outro fator contemporâneo em cena será o uso de hipnose e de massificação para melhor aproveitamento do “porte e genética” dos negros.


Lady Bird: É hora de voar 
Há um quadro numa cena em mansão de luxo, no enredo de Lady Bird, que estampa os dizeres “América: País de Regan”. Em tom ácido, a protagonista censura uma dose de radicalismo da amiga, com um “não seja tão republicana”. O ano retratado na trama é o de 2003, com Bush no poder, a Guerra do Iraque em curso e a vida da jovem Lady Bird de pernas para o ar: contestadora, ela desacredita da religião, inaugura a vida sexual e abraça modelos de revistas e de padrões que não condizem com ela, como o sonho de estudar na Costa Leste. O filme fala da deturpação do ideal de baile de formatura, fundamental aos EUA.


A forma da água 
No conto de Guillermo del Toro, o ambiente incerto da Guerra Fria se instaura até mesmo na leitura de um pensamento do dia estampado num calendário: “A vida é tão somente o afogamento dos nossos planos”. Na via contrária, vem o otimismo previsto para a América, na cena em que o vilão da trama encoraja o filho a acreditar na possível e futura existência de “mochilas voadoras”. O vilão, que tortura o objeto de adoração da mocinha da fita (um misto entre homem e peixe), apresenta uma cartilha do politicamente incorreto — é machista, se julga superior, além de praticar assédios moral e sexual.

Trama fantasma 
Uma mulher bêbada cai de cara na mesa, numa festa da sociedade londrina. Voltando aos meados dos anos de 1950, o diretor Paul Thomas Anderson propõem moldes de polidez e elegância que contrastam com a visão grotesca da citada festa. Individualista ao cubo, o protagonista do longa é Reynolds, um tipo ensimesmado e que cria regras até mesmo para tomar o café da manhã. No ambiente ordenado, a violência que se instaura brota do psicológico, na rotina de uma imigrante modelo conviver com Woodcock, entre jogos e bebidas.

O destino de uma nação
O palco para o filme de Joe Wright é a Inglaterra e os primórdios da Segunda Guerra. No centro das estratégias britânicas, o primeiro-ministro Churchill defende ideologias presentes em outros filmes indicados ao Oscar: há de discursos sobre liberdade a combate a fascistas, passando pela indisposição na negociação de paz. Churchill fuma charutos incessantemente, bebe na cama, além de se afundar em comidas gordurosas, na fita em que chama a atenção visões retrógradas e machistas. A secretária de Churchill sente restrições, como o impedimento de estar no Gabinete de Guerra.

The Post: A guerra secreta 
Sede por informações movem boa parte do filme de Steven Spielberg, que se debruça na relação com a opinião pública e com o descaso do Estado em apresentar verdades sobre os palcos de guerra. “Nossos leitores são líderes, são educados e exigem mais. Qualidade e lucratividade andam de mãos juntas”, defende a dona do The Washington Post, Katharine Graham , que, por muitas vezes, remeterá ao empoderamento das mulheres. Spielberg mostra um jogo de solidariedade e apoio entre órgãos de imprensa que desmascaram posturas “justas e pacíficas” nas eternas ladainhas americanas.

Dunkirk 
A carga de violência mais aparente no filme do indicado ao Oscar Christopher Nolan é visual, mas em grandes proporções. Ele não particulariza feridos e ferimentos, graficamente, como visto nos vencedores do Oscar Platoon e Guerra ao terror. O que pesa no filme é a tensão e o espetáculo de três frentes de ataques e defesa: o ar, o mar e a terra são destacados numa ação encadeada de modo raro. Valores defendidos pela América, como o da solidariedade — na união de barcos civis empenhados no resgate de 400 mil homens entram em primeiro plano, que traz ainda focos de heroísmo e de mazelas.

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