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Correio Braziliense

Autores de literatura erótica em Brasília fazem sucesso na internet

Obras de nomes como Janaína Rico já foram lidas por mais de 110 mil pessoas


postado em 03/03/2018 07:00 / atualizado em 02/03/2018 18:41

Escritor Janaína Rico(foto: Fátima de Azevedo/Divulgação)
Escritor Janaína Rico (foto: Fátima de Azevedo/Divulgação)

 
A literatura erótica produzida em Brasília tem várias nuances. Há quem escreva para mulheres independentes, há quem se posicione a partir da perspectiva masculina, há quem colete histórias alheias para transformar em contos e há quem prefira algo mais sutil e menos, digamos, descritivo. Em todos os casos, há um público leitor cativo e atento para tudo que se publica na área. E nesse universo há vários tipos de fenômenos. O Diversão&Arte conversou com alguns autores brasilienses ou radicados em Brasília que se dedicam ao gênero. Em alguns casos, a cidade serve até de cenário para as histórias eróticas.

Janaína Rico
Janaína é um fenômeno nas plataformas digitais. Seu Apimentando, história de uma sexóloga frígida, contabiliza mais de 110 mil leituras e Ser Clara, um romance que se passa em Brasília, ultrapassou os 26 mil exemplares vendidos sem nunca ter frequentado estantes de livrarias. A autora, brasiliense de 38 anos e ex-servidora pública que largou o Direito e um emprego no executivo federal para se dedicar à literatura, acredita que o sucesso vem das temáticas abordadas.

As personagens de Janaína são mulheres independentes e autônomas, bem diferentes da mocinha frágil e submissa que povoa escritas como a de E. L. James em Cinquenta tons de cinza. Para Um doce de confeiteiro, romance mais recente, a autora criou uma personagem que consegue emprego em Londres e vai acompanhada do namorado. “Livros como Cinquenta tons têm uma pegada meio machista, geralmente o homem é gostosão, rico, dominador, e a mocinha é mais pobre, insegura”, descreve. “Tento fazer uma pegada diferente, desconstruir esses padrões, colocar mulheres empoderadas e, de forma alguma, aceitar esses relacionamentos abusivos.” Temas polêmicos como estupro e distúrbios alimentares também são tratados nos romances.

Janaína já publicou 11 livros, dos quais três são eróticos. Ela fez o caminho inverso ao de muitas autoras de chicklit: publicou primeiro a edição impressa para depois migrar para plataformas digitais como KDP e Wattpad. O romance erótico é um gênero que sempre fez sucesso. “As mulheres ainda vivem um tabu muito grande em relação à sua sexualidade e, no momento em que a gente coloca esses livros à disposição, abre-se um mundo para o erotismo. Filmes eróticos e outras propostas são muito voltados para os homens, porque são muito visuais. No mundo do romance erótico, a mulher pode viajar, se soltar. Acredito que a literatura erótica tenha uma importância grande para a libertação da mulher”, diz.

Escritora Sinélia Peixoto (foto: Arquivo Pessoal)
Escritora Sinélia Peixoto (foto: Arquivo Pessoal)


Sinélia Peixoto
Foi no consultório de um psicólogo que Sinélia Peixoto começou a esboçar a trilogia Por que eu?, Por que não eu? e Agora sim, sou eu!. Depois de um divórcio, a brasiliense de 40 anos encontrou na escrita uma terapia para lidar com as dores de uma separação. Em 40 dias, escreveu as 1.600 páginas da trilogia. Publicou o primeiro volume com uma editora portuguesa, mas depois de um desentendimento, cancelou o contrato e publicou uma segunda edição de forma independente. O livro físico está esgotado, mas pode ser adquirido em e-book e Sinélia calcula em mais de 1.500 o número de exemplares vendidos.

Ela prefere a classificação de romance adulto para descrever a categoria. “O erótico entra porque sexo faz parte do romance”, avisa. A narrativa, coletada de histórias pessoais e de outras contadas por amigos e conhecidos, é conduzida por um casal cujo casamento está em crise. Os conflitos surgidos da conciliação de papéis como ser mulher, esposa e mãe pontuam a história. “E eles trabalham muito esses conflitos na cama”, garante Sinélia.

Por que eu? ficou guardado durante 1,5 ano antes de ser publicado. Funcionária da Secretaria de Educação, vice-diretora de escola pública, a autora tinha medo ser discriminada. “Tem muito tabu ainda, tanto na sociedade quanto na família”, lamenta. Vez ou outra, ela é criticada por pais de alunos que acabam, por curiosidade, lendo o livro.

Escritora Elaine Elesbão (foto: Arquivo Pessoal)
Escritora Elaine Elesbão (foto: Arquivo Pessoal)


Elaine Elesbão
Quando começou a escrever, em 2012, Elaine Elesbão nem imaginava que a história de Eva enveredaria pelo caminho da literatura erótica. A autora, servidora pública que nasceu no Rio de Janeiro e veio para Brasília com 5 anos, queria contar a história de uma mulher cujo casamento não chegou a acontecer porque o noivo morreu. O sexo entrou na narrativa como forma de falar da intimidade da personagem e acabou por ocupar um lugar importante na trilogia A escalada de Eva.

O livro fez tanto sucesso que chegou a ocupar o primeiro lugar na lista dos mais vendidos da Amazon, e Elaine, 45 anos, é acompanhada por mais de 88 mil pessoas nas redes sociais. Risco calculado, publicado em 2015 pela brasiliense Tagore, narra uma história de abuso e violência doméstica. “É um tapa na cara”, avisa a autora. “Um alerta para as pessoas sobre o que é esse tipo de relacionamento. No livro, sexo é uma forma de controle exercido sobre a protagonista. Não faço apologia da violência, nos meus livros vilão é vilão”, esclarece a autora.

Elaine não havia lido Cinquenta tons de cinza quando começou a escrever a trilogia. “Eu nunca tinha lido nada de literatura erótica”, conta. Ela acredita que os livros de E. L. James são válidos porque levaram para a leitura muita gente que não tem esse hábito. Mesmo assim, ela enxerga na história de Christian Grey e Anastácia uma certa romantização da violência, embora a personagem feminina evolua para algo menos frágil ao longo da saga. “Toda literatura é válida”, acredita Elaine. “E esse livro foi um marco para que as mulheres começassem a ler literatura erótica sem preconceito, porque até então todo mundo tinha vergonha.”

Escritora Carla Andrade (foto: Arquivo Pessoal)
Escritora Carla Andrade (foto: Arquivo Pessoal)


Carla Andrade
Para Carla Andrade, escrever prosa erótica começou como uma brincadeira em um blog, com duas amigas. Ela ouvia histórias de amigos e transformava em narrativas curtas e descompromissadas, publicadas sempre sob pseudônimos inusitados, como “Saia rodada” ou “Saia de rendinha”. Autora de quatro livros de poesia, Carla vai agora publicar os contos em uma coletânea com o título de EntreSaia (Patuá).

“São textos bem engraçadinhos, soltos, não têm uma pretensão literária tão grande quanto eu tenho com a poesia”, avisa. Entre escrever poesia erótica, uma das marcas de seus versos, e ficção, há uma diferença de postura do sujeito. “Parece que na prosa há uma exposição menor, o erótico é disperso em vários eus-líricos”, explica. Na poesia erótica, Carla acredita que não podem faltar construção de imagens sutis e cadências que apenas sugerem o erotismo. Já a motivação pode vir de várias fontes: “Da paixão pela vida. Quando estou apaixonada, do frescor de um relacionamento. De um novo relacionamento”.

Publicar sob um pseudônimo, para Carla, foi uma forma de driblar a discriminação. “O machismo...na época queríamos ver as reações das pessoas, mas sem exposição. Acho que o machismo será sempre a resposta, infelizmente”, diz a autora.  

Oliver Rei
O brasiliense de “30 e poucos” anos encontrou no noticiário a trama de Um segredo vulgar, livro publicado em capítulos no Google Play e que passou alguns dias entre os sete mais baixados do aplicativo. No jornal, Rei leu sobre um triângulo amoroso que acabou mal depois de um vídeo viralizar na internet e enxergou ali a possibilidade de um livro.

Escreveu os dois primeiros capítulos e está publicando o material aos poucos, como uma maneira de sentir se está no rumo certo. É a primeira vez que o autor publica algo e, para ficar anônimo, decidiu fazê-lo sob um pseudônimo. Ele não revela a identidade nem a idade, muito menos a profissão, mas garante que trabalha em Brasília e na iniciativa privada. A história, ele escolheu porque achou atual e, de certa forma, comum. Queria que os leitores se identificassem com facilidade.

“Nos meus livros, os personagens se preocupam com o que a outra pessoa está sentindo, se está sentindo prazer, se está legal. Porque na maioria dos livros que vejo por aí, parece que o homem é fodão, que não sente nada”, garante. “Nos meus livros, coloco pessoas mais humanas, mais reais, como se você conhecesse a pessoa do seu ambiente de trabalho.” Um segredo vulgar está dividido em cinco partes e, até agora, Rei disponibilizou duas delas.

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