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Correio Braziliense

Radicada em Lisboa, Andréa Zamorano lança romance sobre os impasses do país

A carioca é autora da obra 'Casa das rosas'


postado em 03/03/2018 11:20

Andréa Zamorano: mergulho na precariedade e nos dilemas da história brasileira(foto: Reprodução)
Andréa Zamorano: mergulho na precariedade e nos dilemas da história brasileira (foto: Reprodução)

Escritora brasileira radicada em Portugal há mais de duas décadas, Andréa Zamorano  lançou no Brasil seu primeiro romance, A casa das rosas (Ed. Tinta Negra, Rio, 2017), obra cuja edição portuguesa (Ed; Quetzal, 2015) recebeu o prêmio Livro do Ano, da revista Time Out.

Narrativa que mistura as inquietações íntimas de Eulália com o período das lutas políticas pela redemocratização nacional, tem como pano de fundo um amor conflituoso e a relação tumultuada com o pai, Virgílio de Sá Vasconcelos, um político alinhado com o regime, separado de sua mulher Cândida, com quem teve uma convivência problemática, tendo ela desaparecido após o nascimento da filha.

Eulália não conheceu a mãe, passou a vida num casarão na Av. Paulista, que no passado pertenceu a barões do café (e desde 2004 transformada num importante centro cultural e literário, Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos, que empresta o nome à obra), cenário de toda a trama, onde os acontecimentos se sucedem, muitas vezes nebulosos, o que culmina numa prosa que oscila entre a realidade tangível e o nonsense.

A história começa com alguém que foi morto e enterrado dentro das paredes da casa e essa voz sufocada (que, ao final, vai ser desvendada) empresta um halo sombrio à narrativa e a catapulta para atmosferas que incorporam elementos do realismo fantástico.   

Essa personagem viveu privada de sua própria liberdade, pouco desfrutando da cidade, tendo o pai como um herói que o tempo vai cuidar de destronar, pois em seu autoritarismo impunha um imenso degredo à filha. Submissa como a mãe (que conseguiu se rebelar e fugir), Eulália foi acossada pelos caprichos de Virgílio, que a matinha com rigor e obediência.

Foi cursar Direito na USP por sua imposição, vivia encerrada numa solidão e angústia sem limites (só ia para a faculdade acompanhada do motorista), tendo apenas como interlocutores o jardineiro Raimundo e a cozinheira Cesária, entidades também envoltas em mistério e que, em surdina, são um escape ou alívio para suas confissões.

Conhecendo pouco do mundo e das relações, cria fantasias em torno de si, como a paixão por um personagem de Roberto Bolaño, o poeta Juan García Moreno, entidade que vai abastecer suas ilusões e com quem realmente realiza seus diálogos e seus trânsitos oníricos.

Num ritmo em que a alucinação e o insólito desencadeiam situações bizarras, chega o dia do seu aniversário de 18 anos, quando recebe de presente do pai um vestido de noiva para casar-se com ele e incorporar, nesse caso, o papel da própria mãe, Cândida. Rejeitando essa condição, empreende sua própria fuga com a conivência de Koi, um sagui que aparece diante de sua casa e passa a segui-la e ser fiel escudeiro nas deambulações pela cidade.

Delírio


O passado político recente do país está muito presente na história, pois a luta pela redemocratização do país, com o emblemático 24 de abril de 1984, dia em que o sonho das Diretas Já foi enterrado com a derrota da emenda Dante de Oliveira, embute não só uma discussão sobre os destinos de um povo, como dos próprios personagens. Pois é uma obra de dura reflexão, que coloca em cena as vidas arrevesadas de uma nação e dos próprios personagens, todos perdidos em seus labirintos geográficos, afetivos e emocionais.

Entre a verdade e o delírio que percorrem a trajetória de Eulália e no confronto de realidades, em que passado e presente se (con)fundem, a arquitetura sutil e imagética da história cuida de amalgamar o discurso utilizado em A Casa das Rosas e expõe os espíritos conflagrados de um tempo de escalonamento de valores em nosso país. Resulta de um delicado labor da autora, que confere um frescor à trama, em que ressonâncias de seu inconsciente e da memória histórico-político-social afloram para destacar a transitoriedade entre mundos reais e fictícios.

A casa das rosas é, em suma, um livro sobre os ritos de passagem, alegoria sobre um passado de muitos espinhos e cujos espíritos ainda nos atormentam. De uma personagem que rompe com seu status opressivo; e de um país que enfrenta e afronta a opressão e luta para estabelecer, em definitivo, o estatuto da democracia e das liberdades. 

Eis um livro denso e tenso, mas crucialmente poético sobre nossa precariedade e nossos dilemas, obra que anda nas trilhas especulares de Borges, deixando  pistas que se desvelam como em palimpsestos, cabendo ao leitor lançar suas próprias luzes sobre os assombros de um tempo. Seu estilo envolto em suspense e mistério sugere uma autora em pleno e versátil domínio da arte narrativa.

Ronaldo Cagiano é escritor, autor de Eles não moram mais aqui 
(Ed. Patuá — Prêmio Jabuti 2016).

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