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Correio Braziliense

'É preciso não ter preconceito para representar', diz a atriz Leona Cavalli

Gaúcha falou ao Correio sobre a carreira e os trabalhos atuais, como a novela 'Apocalipse', a série 'Natália' e a peça 'O gatão de meia idade'


postado em 04/03/2018 07:30

(foto: Montenegro & Raman/Divulgação)
(foto: Montenegro & Raman/Divulgação)

A gaúcha Leona Cavalli nunca fica muito tempo longe do ofício das telas ou dos palcos. Pelo contrário, a atriz costuma acumular trabalhos, como agora que ela está na tevê como a vilã Ariela da novela Apocalipse e na pele da empresária Ingrid da segunda temporada de Natália, exibida na TV Brasil e no Universal Channel. Nos palcos, Leona interpreta oito personagens em mais uma montagem de O gatão de meia idade, ao lado de Oscar Magrini. E a partir de 9 de março estará também nas telonas, já que o espetáculo foi filmado e será exibido em cinemas de diversas cidades brasileiras, entre elas, Brasília.

Tudo isso já seria muita coisa, mas Leona Cavalli não para. Neste mês, ela ainda lança o segundo livro da carreira, a obra infantil BelaBelinha, uma bonequinha, inspirada em uma palhaça criada pela atriz durante cursos de atuação. Com mais de 20 anos de carreira, um dos projetos da gaúcha consiste em ajudar na formação de novos atores. Afinal de contas, a atriz conta que se apaixonou pela profissão aos 6 anos nos palcos de teatro do pequeno município de Rosário do Sul, no Rio Grande do Sul. Em entrevista ao Correio, Leona fala sobre os atuais projetos e também relembra o início da carreira.

Você está na tevê, no teatro e vai estrear nos cinemas. Como é se dividir entre tantos projetos?
É preciso ter uma disciplina em tratar de todos os assuntos, de me entregar e torcer para tudo dar certo. Ao mesmo tempo é um desafio muito gostoso, porque são coisas que eu amo fazer. Eu adoro fazer muitos personagens ao mesmo tempo. São desafios gostosos, porque eu amo o que eu faço. É cuidar da saúde, torcer para dar certo — e tem dado — e é um prazer.

Você está em Apocalipse, que é uma trama bíblica, vivendo a Ariela. Como tem sido fazer parte de uma produção dessa temática?
Eu gosto muito da personagem. Ela é uma vilã cheia de humor, ironia, com muitas nuances... Isso é o melhor para uma atriz: uma personagem que tenha várias possibilidades de interpretação. Estou curtindo muito. Acho que não importa o fato de ser bíblico ou não. A inspiração na Bíblia é distante, até porque não teria como ser diferente se tratando de apocalipse. É uma inspiração, uma história fictícia. Então eu lido com uma personagem fictícia também, que é uma personagem ótima e que estou gostando de fazer.

Sua personagem em Apocalipse é uma vilã e estamos muito acostumados a escutar de atores e atrizes que preferem viver papéis de vilões. Você tem essa preferência?
Acho que o importante é ser um papel bom, e não necessariamente um papel grande. É um papel que tem possibilidades de nuances de interpretação. Normalmente, os vilões têm mais nuances, mas, de fato, não é isso que faz o personagem ser bom ou não. Tem personagens que são extremamente bondosos e também são muito ricos de personalidades, porque ninguém é só uma coisa. O ser humano é muito diverso, todos nós temos muitas facetas dentro de nós, então, o personagem bom é aquele que tem uma abrangência maior, mas não necessariamente por ser vilão.

(foto: Montenegro & Raman/Divulgação)
(foto: Montenegro & Raman/Divulgação)


Você está na tevê tanto em uma novela quanto numa série. Quais são as diferenças entre esses dois formatos?
Para o ator não há quase nenhuma diferença. O que faz diferença é depois, a exibição e o veículo. Há diferenças físicas no caso do teatro, onde você tem que ter uma outra dimensão de voz e de expressão, porque as pessoas estão naturalmente mais distantes. No cinema, você já recebe o roteiro, filma tudo de uma vez e não tem a surpresa da mudança constante do personagem, como é na novela. Mas a interpretação, no sentido humano, parte de uma mesma essência, que é a essência do coração daquela personagem que é uma pessoa que está sendo representada. No meu caso, eu vou sempre na humanidade daquele personagem. A diferença vai vir depois. Mas eu não me preocupo muito com isso não. Procuro fazer sempre o meu melhor e representar aquela pessoa que está ali.

Como é estar em tantos meios diferentes ao mesmo tempo?
O fato de estar em vários veículos ao mesmo tempo significa um outro momento, que é muito bom. O fato de estar na Record fazendo a novela, estar na TV Brasil e na Universal Channel fazendo Natália dá uma dinâmica, diversifica e com certeza chega a diferentes públicos. A própria TV Brasil e a Universal Channel têm públicos diferentes. A peça é completamente diferente da anterior que eu vinha fazendo durante quase três anos, Frida y Diego, em que eu fazia a Frida Kahlo, que era uma personagem maravilhosa, mas muito sofrida. Então eu vinha com a vontade de fazer uma comédia e aí veio esse convite da mesma equipe de fazer O gatão de meia idade.

Com tem sido, então, fazer O gatão de meia idade?
Eu vivo oito personagens, que são oito tipos bens distintos —  tem a carente, a ciumenta, a com mania de limpeza, a dominadora, a alérgica... A peça brinca com vários tipos de mulheres e isso é muito gostoso. A gente teve agora essa surpresa, que foi um convite para que nós levássemos a peça para os cinemas. É a montagem filmada, o que é uma ação inédita porque antes tiveram peças no cinema mas uma adaptação, o que é diferente. A proposta é o espetáculo mesmo, que foi filmado com cinco câmeras e vai estrear em 9 de março. As cinco câmeras possibilitam a nuance do olhar e tem vários detalhes que são da filmagem mesmo, mas o interessante é que não é uma adaptação para o cinema é a peça.

É difícil se separar do personagem? Você acaba levando algumas coisas dos personagens para a vida?
Não, não levo nada não. (risos) Até porque eu já fiz tantos personagens que não seria possível. Na verdade é o contrário. Eu busco até fazer uma espécie de respiração para deixar tudo lá mesmo, por isso que posso fazer vários ao mesmo tempo. Quando acaba um, busco sempre dar uma zerada para começar outro. Mesmo que o outro seja para começar daqui a uma hora, que é algo que acontece muito. (risos).

Você tem muitos anos de trajetória na tevê, no cinema e no teatro. Como foram os seus primeiros passos nas artes cênicas? O que te atraiu ainda  jovem à carreira de atriz?
Eu comecei numa cidade pequeninha no interior do Rio Grande do Sul, chamada Rosário do Sul, que não tinha nenhuma atriz nem referência de teatro. Comecei fazendo teatro na escola com 6 anos e eu lembro, até hoje, que a primeira vez que subi no palco o que me encantou foi exatamente a possibilidade de viver várias vidas em uma só. Isso foi o que me encantou e, na época, eu nem sabia que eu levaria isso para a minha vida. Ali nasceu meu desejo de me tornar uma atriz profissional. Fui atrás disso e não foi fácil, porque eu tive que sair de casa cedo. Fui para Porto Alegre, mas também saí de lá, hoje moro entre São Paulo e Rio, mas foi uma conquista. E é uma conquista dia a dia. A gente tem que ter muita humildade para estar sempre aprendendo. O trabalho do ator não é um trabalho que você tenha uma coisa concreta. O concreto é o que você vai construindo. Mas o trabalho em si, a interpretação, começa sempre do zero. É um aprendizado constante e que precisa de muita disciplina, perserverança e paixão pelo ser humano, que eu acho que é o principal de tudo. Não perder a curiosidade e a observação do outro. É preciso não ter preconceito para representar, porque a gente não faz para a gente, a gente faz para os outros.

Além da carreira de atriz, você também tem se dedicado à escrita. Escreveu Caminhos de pedra e lança neste mês o livro infantil BelaBelinha, uma bonequinha. O que te motivou a escrever um material para as crianças?
A BelaBelinha é uma personagem que eu tenho há muitos anos já. Eu tinha muita vontade de exercitar o exercício palhaço e resolvi criar uma palhacinha. É uma personagem que eu faço em visita a hospitais e eventos. Mas eu nunca levei para o palco, pode ser que eu leve. Então fiquei com vontade de escrever sobre essa experiência do humor. Só que aí veio a criação dessa personagem, que é uma bonequinha que quer ser gente e está aprendendo com as pessoas como se tornar gente. É inspirada nessa personagem que já existe.

Como e quando surgiu essa palhaça?
Eu estava escrevendo, na verdade, o livro Caminho das pedras, que eu fiz em cima de palestras e oficinas para ator, inclusive, até já dei no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Na época, tinham me chamado para dar um curso mais longo para atores iniciantes e eu achei que era muito difícil, porque não se ensina a ser ator em algumas semanas. Então o que eu poderia falar seria minha experiência no sentido dos desafios e como eu os vivenciei. Esses desafios eu chamei de pedras. No curso, eu dava meu depoimento sobre como eu lidava com timidez, medo, preconceito, a relação com personagem e diretores, fama, inveja, sorte, e depois as pessoas me pediram esse material, daí escrevi o livro. É um livro com essas palavras. No audiolivro tem também um monólogo Máscara de penas penadas, da Ana Vitória Vieira Monteiro, com a trilha sonora do Chico César. Nessa época, na pedra da timidez, eu citava a palhacinha. Criei mais ou menos nesse período para brincar com o meu medo de estar em um novo veículo.

Você se considera uma pessoa tímida?
Não no sentido de ter medo de me expor, porque, se não, não consigo ser atriz. Mas, por outro lado, todo ator é um pouco tímido, por incrível que pareça. Eu demorei um tempo para ficar à vontade falando de mim, por exemplo, em uma entrevista. Eu tinha muito mais facilidade de falar das minhas personagens, dos meus trabalhos, do que de mim.

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