Jornal Correio Braziliense

Diversão e Arte

Viva a Diferença foi a melhor temporada de Malhação em muitos anos

Fase chega ao fim abordando assuntos difíceis com qualidade de texto e de interpretação


Quando uma novela com boa audiência e críticas favoráveis termina, é natural que haja pressão sobre a sucessora. Por isso, é grande a responsabilidade de Vidas brasileiras, nova temporada de Malhação, que estreia na próxima quarta-feira (7/3). O último capítulo de Viva a diferença, a atual temporada, foi ao ar nesta segunda-feira (5/3). E não é pouco: esta foi a melhor temporada da novela teen em muito tempo - talvez Sonhos (2014) tenha tido qualidade similar, com bem menos contundência. Mas Malhação: Viva a diferença teve um aspecto muito especial: a profundidade e a coragem de abordar temas polêmicos, saindo do rame-rame dos triângulos amorosos. Tudo isso com o texto redondinho supervisionado por Cao Hamburguer.

Quem se despiu dos preconceitos contra a novelinha pôde se deliciar com as cinco protagonistas, Keyla (Gabriela Medvedovski), Benê (Daphne Bozaski), Tina (Ana Hikari), Lica (Manoela Aliperti) e Ellen (Heslaine Vieira). As meninas passaram por maus bocados e se ajudaram quase sempre, revelando a importância de uma grande amizade. Elas se revezavam entre as mais focadas durante a temporada, abrindo espaço para as atrizes terem seu momento. Gabriela e Daphne, em especial, souberam aproveitar cada um deles e cresceram bastante.

A trama de Benê foi um capítulo à parte. Sensível, a menina se descobre paciente da síndrome de Asperger e aprende, devagar e sempre, como lidar com a doença. Foi doce acompanhá-la descobrindo o valor da amizade com as meninas, foi divertido assistir a ela aprendendo o significado de metáforas, foi fofo a descoberta do amor por Guto (Bruno Gadiol). Mais do que tudo isso: foi emocionante ver Benê revelando ao pai sofrer com a condição neurodiversa.

Esta temporada de Malhação ainda ousou ao falar de forma clara e transparente, sem nenhum estereótipo, de homossexualidade. Lica e Samantha (Giovanna Grigio) tiveram um romance e; nada! Beijaram-se, brigaram, reataram, brigaram, reataram como qualquer casal da trama, pois era exatamente isso que elas eram. A discussão - necessária e atualíssima - sobre homofobia veio a partir de Gabriel (Luis Galves). O rapaz apanhou na rua e revidou com discursos sobre cidadania. De quebra, driblou o preconceito mantendo uma amizade com Felipe (Gabriel Calamari - outro ator que se destacou na temporada), rapaz heterossexual que ouviu muita piadinha por ser amigo de Gabriel.

Por falar em discursos contundentes, cada vez que Doris (Ana Flávia Cavalcanti), diretora da escola Cora Coralina, defendia seus ideais sobre a importância do ensino público emocionava. Matheus Abreu (Tato), Talita Younan (K1), Carol Macedo (K2) e Aline Fanju (Josefina) merecem ser lembrados. Temas como corrupção, automutilação, gravidez na adolescência, alcoolismo, racismo, fake news, virgindade ganharam espaço. Quem disse que jovem só quer saber de pegação e dançar funk? Que a tevê brasileira tenha notado definitivamente que não!