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Correio Braziliense

Aventuras rentáveis como Star Wars e Blade Runner testam o peso, no Oscar

Nem tudo que reluz será ouro, no Oscar. A 90ª edição da festa pulverizou boa parte das estatuetas


postado em 05/03/2018 02:20 / atualizado em 06/03/2018 16:23

Sally Hawkins: a estrela do filme vencedor do Oscar, A forma da água(foto: Fox Searchlight / Divulgação)
Sally Hawkins: a estrela do filme vencedor do Oscar, A forma da água (foto: Fox Searchlight / Divulgação)

 

Vencedor dos prêmios de melhor filme e de melhor direção, pelo romântico drama A forma da água, o diretor mexicano Guillermo del Toro, no 90º Oscar, usou o termo "chutar a porta" para determinar a posição de originalidade e possibilidades que acompanham uma Hollywood disposta a se remendar. Tornado "parte de um legado" — junto com os "compadres" Afonso Cuarón e Alejandro Iñárritu, recentes imigrantes premiados pela Academia — o cineasta del Toro, no palco do Dolby Theatre, destacou que "a qualidade da arte está em apagar as delimitações no mundo". E, se rendeu à fatia de público pontencial ao qual o Oscar tem cedido para se reinventar, quebrando tradições e bases (até de discriminação): "A juventude está nos mostrando como as coisas devem ser feitas; em cada país do mundo".

Um festival de contas que sempre intrigam os fãs do prêmio — com a premiação do filme de del Toro — o filme mais indicado do ano, apesar das vitórias em categorias importantes, rendeu (pelos 13 prêmios aos quais concorria) a pouco honrosa posição de número oito, entre dez filmes da história do Oscar que competiram em 13 categorias. Na lista, só O senhor dos anéis: A sociedade do anel (2002) e O curioso caso de Benjamin Button ficaram com menor quantidade de prêmios, em relação a A forma da água. O título de prêmio da indústria, por sinal, fica bambo quando analisamos o fator rentabilidade de um título e conversão em prêmio Oscar. Com quatro indicações (e nenhum prêmio) Star Wars: Os últimos Jedi, mesmo com renda mundial de US$ 1,3 bilhão, não se destacou na festa. Noutro caso curioso, o subestimado Blade Runner 2049, que trouxe renda de US$ 260 milhões, arrebatou dois prêmios importantes: melhor direção de fotografia e melhores efeitos visuais.

 

"A história está acontecendo, bem aqui, na nossa frente", comentou o apresentador Jimmy Kimmel, que não perdeu piadas, ao corroborar ideias fundamentais a movimentos contra assédio sexual na indústria. Ele destacou predicados da estatueta do Oscar, que, mesmo homem, "deixa as mãos onde podem ser vistas, não fala grosserias e não tem pênis". E emendou que 2018 futuramente ia ser lembrado como "o ano em que homens estiveram tão em baixa, que as mulheres começaram a sair com peixes", numa referência ao enredo de A forma da água.

 

Junto com o longa de del Toro, o drama Três anúncios para um crime — permeado pelo enredo de justiçamento a um estupro que resulta em morte — saiu bem valorizado com prêmios para o ator coadjuvante Sam Rockwell e para a melhor atriz, Frances McDormad, dona do melhor discurso da noite. A maternidade, um elemento bem destacado na fala dos artistas, fundamentou parte do discurso da atriz que agradeceu aos "leais partidários" Joel e Pedro, respectivamente marido e filho dela, "indivíduos muito bem criados pelas mães feministas; eles se valorizam, na medida que valorizam quem os cerca", disse. Talhando a fala afiada, a também vencedora de Oscar, por Fargo (1996), também acrescentou: "Senhoras e senhores, quero deixar uma expressão cravada nesta noite: (sou) uma amazona da inclusão (social)".

 

A multiplicidade de pontos de vista e a originalidade abraçada por cineastas negros foi tema de clipe agregado à festa — o que deu visibilidade a pensamento de realizadores contemporâneos como Ava DuVernay (Selma: uma luta pela igualdade), Dee Rees (Mudbound), Barry Jenkins (Moonlight) e Lee Daniels (Preciosa). Primeiro roteirista negro a ser premiado, Jordan Peele (de Corra!) encorajou a cadeia de cinema — dependente das bilheterias e do comparecimento às salas de cinema. "Agradeço a todos que compraram um ingresso ou recomendaram a compra a alguém", enfatizou.

 

Numa esquema aos moldes das pegadinhas do programa Caldeirão do Huck, astros e estrelas invadiram uma sala de cinema, em pleno andamento da festa, para reconhecer o termômetro da popularidade junto ao público. Curiosamente, na ação surpresa, a sinceridade de Gal Gadot (de Mulher-Maravilha) falou mais alto, na fala "(Isso) é tão melhor do que (a transmissão) do Oscar".

 

Estranhamento

 

Outro estranhamento veio com a informalidade de, aos 90 de instituição, estatuetas do Oscar pararem no chão, em muitos dos discursos. Ainda na esfera da longevidade, eternas personalidades do mundo do cinema foram convidadas ao palco, refletindo a deferência à melhor idade. Nessa linha, houve espaço para a aparição de Christopher Walken (O franco-atirador), Eva Marie Saint (Sindicato de ladrões), Rita Moreno (Amor, sublime amor), Jane Fonda e Helen Mirren, uma dupla que enfatizou "mudanças no público e na vida privada (dos astros)".

 

Fora a menção insistente ao mais velho ator indicado (Christopher Plummer, de 88 anos), aos 89 anos, o roteirista (e diretor) James Ivory levou o primeiro Oscar, pelo trabalho em Me chame pelo seu nome. "Trata-se de uma história familiar à maioria das pessoas.

Independente de sermos héteros ou gays — ou mesmo algo entre os dois —, todos passamos pelo primeiro amor. Assim espero, e achoe que saímos, na maior parte das vezes, intactos", comentou Ivory, já de posse da estatueta.

 

Inspiração suprema para o longa chileno Uma mulher fantástica, considerada a melhor fita estrangeira, a atriz trans Daniela Viega esteve no palco do Oscar. Com a vitória da melhor animação Viva — A vida é uma festa, a América Latina se fez ainda mais presente no evento. Codiretor do longa, Lee Unkrich agradeceu aos mexicanos. "Viva não poderia existir sem intermináveis e belas culturas e tradições. Pessoas marginalizadas mercem a condição do pertencimento. A representatividade faz a diferença!", saudou no palco do Oscar.

 

Com leque variado “de raças, gêneros, igualdade”, o ano de 2018 foi dado como promissor, pela estrela mexicana Salma Hayek (a Frida do cinema) que comentou das novas vozes atuantes em um longo caminho. Vozes afinadas, por sinal, sagraram muito do espírito ativista do Oscar, nas apresentações de números musicais que perderam o colorido exagerado e penderam para a sobriedade e teor das mensagens. Sufjan Stevens, Miguel (Jontel Pimentel), Mary J. Blige (com um soul potente do filme Mudbound), Andra Day, Common e Keala Settle (de O rei do show) foram destaque nos números musicais com teor de equiparação social candente. Veteranos nas indicações, o músico francês Alexandre Desplat levou o segundo Oscar da vida, por A forma da água, enquanto o diretor de fotografia Roger Deakins, com mais de 45 anos de carreira, finalmente empunhou prêmio, por Blade Runner 2049.  

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