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Correio Braziliense

Artistas brasilienses se unem em coletivos femininos para pensar a cultura

Coletivos de artistas formados unicamente por mulheres ajudam a levantar a questão da presença feminina na produção e no mercado de arte em Brasília


postado em 06/03/2018 06:25

Pântano de manga: coletivo que virou marca(foto: Amália Gonçalves/Divulgação)
Pântano de manga: coletivo que virou marca (foto: Amália Gonçalves/Divulgação)

 
Elas trabalham juntas porque acreditam na coletividade como forma de agregar valor. São mulheres, mas nem sempre isso foi um fator determinante. E conheceram-se nas mais variadas situações. Há um pouco de tudo entre os coletivos femininos de Brasília: gente que trabalha a questão do feminino em performances, gente que criou uma marca a partir de ideias conjuntas e gente que quis montar um espaço híbrido para pensar, produzir e ensinar. Veja quais são esses coletivos, como eles trabalham e o que produzem.


Gruta

O Gruta abriga dois coletivos. Espaço de criação montado em uma casa na 715 Norte, virou a sede das meninas do selo Piqui e do Pântano de Manga, que começou como um coletivo e se tornou uma marca. No ateliê compartilhado, as artistas desenvolvem trabalhos em conjunto e individuais, fazem eventos, como mostras de cinema, flahsday de tatuagens, feiras e grupos de estudos. Este mês, elas darão início a uma série de encontros para falar de temáticas feministas. “Enquanto mulheres, sempre somos subestimadas e excluídas. Juntas, podemos nos fortalecer e fortalecer outras iniciativas”, acredita a ilustradora Taís Koshino, do Piqui. No Gruta, trabalham também a quadrinista LoveLove6, a ourives Camila Ligabue, da Sabiá, e a designer Naíra Salgado, da Brilha e da Cajuí.

Formado por Nadine Diel, Luisa Vieira e Marina Fontes, o Pântano de Manga nasceu como um coletivo, mas se tornou uma marca de roupas e hoje produz coleções inspiradas em Brasília e inteiramente produzidas na cidade. Quando começou, em 2012, o grupo não era formado exclusivamente por mulheres e era aberto a outros artistas. De dois anos para cá, as meninas resolveram fechar e criar a marca. “O trabalho ficou mais redondo, mais fluido quando virou um grupo de mulheres. Temos um entrosamento maior. Nós três somos feministas, mas, para a marca, ainda não trouxemos esse viés”, avisa Nadine. Ela acredita que agora, graças às atividades do Gruta, as ideias feministas estarão mais presentes na interação das artistas.


TresPe

Em 2011, três estudantes da Faculdade Dulcina de Moraes montaram um grupo de pesquisa sem grandes pretensões. A ideia era investigar a performance, mas elas evoluíram para a ação. “Acabamos nos tornando um coletivo de performance”, explica Marcela Campos. No começo, homens também participavam. Ao longo do tempo, no entanto, o TresPe começou a ter uma cara mais feminina e as integrantes passaram a convidar apenas mulheres. Em 2015, elas participaram dos encontros Diálogos do feminino, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e, para o evento, criaram a performance Benignidade merecida, na qual uma artista arranca espinhos de uma rosa e os prega no próprio corpo. “Foi determinante para a gente se posicionar”, conta Marcela. Até então, o grupo, que tinha ainda Ana Camila de Almeida e Marcela Hanna, não tratava abertamente de questões femininas, embora tivesse consciência da perspectiva adotada nas performances realizadas apenas por mulheres. “Éramos feministas individualmente, mas em grupo não apresentávamos isso como ponto de partida”, lembra Marcela. “A Benignidade foi um ponto de partida, passamos a criar com a plena noção de que o corpo feminino estabelecia uma relação.” Recentemente, o coletivo apresentou outro trabalho carregado de questões feministas. Pomar de Adão, performance integrante da mostra Fronteiras da pintura, fronteiras da ilusão, pedia participação apenas de visitantes do sexo feminino. Nem sempre a recomendação era cumprida, o que também fazia parte das questões propostas pelo trabalho.

Nave

As artistas Dani Estrella, Cecília Bona e Yana Tamayo sentiam falta de um espaço com cursos de formação continuada na área de artes visuais. Esse tipo de serviço tem papel educativo e ajuda a formar público. Com isso em mente, criaram a NAVE arte, projeto e pesquisa, espaço no qual oferecem cursos, oficinas, palestras e realizam exposições. Cecília deixou o projeto, mas Yana e Dani tocam o espaço sempre com a intenção de criar alternativas para o circuito da arte brasiliense. “É imprescindível viver além dessa agenda oficial”, explica Yana. A NAVE oferece programação tanto para artistas – como os laboratórios de acompanhamento crítico –, quanto para o público leigo. Cursos práticos de iniciação e sensibilização para linguagens também fazem parte do cardápio.

A questão feminina não é trabalhada de maneira explícita, mas Yana avisa que há uma preocupação grande com a equidade. “Temos essa atenção principalmente quando a gente vai pensar na nossa política de trabalho e nas pessoas que convidamos para dar aula”, explica. “A gente procura equilibrar e pensar nas oportunidades que são mais escassas para as mulheres. E tentamos privilegiar esse espaço da produção feminina.”



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