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Correio Braziliense

Conheça a força e a diversidade do teatro de Brasília

Diversidade de estilos e gêneros se torna mais visível nos palcos da cidade


postado em 07/03/2018 07:30 / atualizado em 07/03/2018 19:06




Entre palcos de grandes teatros, salas pequenas de pontos alternativos e espaços independentes, artistas de Brasília driblam a falta de incentivos e mostram uma produção teatral forte e diversa. A tradição de Hugo Rodas, o nome forte dos Irmãos Guimarães, a inventividade do jovem Jonathan Andrade e o sucesso de público de companhias como a Setebelos se misturam para colaborar com a identidade cultural brasiliense. Do humor ao drama, do clássico ao experimental, o importante é abrir espaços ao público e promover novos diálogos.

Neste mês, a diversidade de estilos e gêneros se torna ainda mais visível, com espetáculos que abordam estéticas variadas em diferentes palcos da cidade. É o caso de Autópsia, que entra em cartaz em nova versão sob o comando do diretor e dramaturgo Jonathan Andrade. Inspirado por textos marcantes de Plínio Marcos, o espetáculo se desenrola entre a crítica, a verdade crua e o manifesto. No palco, a potência de um teatro que se propõe a criar um espelho reinventado das mais cruéis realidades.

“Os textos de Plínio têm uma denúncia destemida, além da luta e do suor dos invisibilizados, a tentativa de sobrevivência e a simplicidade de sentimentos comuns a qualquer pessoa. Tudo isso sempre me encantou”, afirma Jonathan. Para a temporada, quatro atos diferentes entram em cartaz, mostrando textos adaptados do reconhecido dramaturgo a partir de uma estética cênica mais crua e próxima ao cotidiano e problemas sociais. Aqui, o teatro mostra sua plena capacidade de colocar em foco o que costuma caminhar entre os espaços marginalizados.

Irreverência
 
 

Enquanto isso, Hugo Rodas também aposta na crítica social, mas de maneira satírica e irreverente em Atra Bilis, também em cartaz na cidade. Com um espetáculo bem-humorado e cheio de experimentação, Hugo reuniu um elenco de nomes tradicionais nas artes cênicas da capital em dois grupos simultâneos.

De um lado, três talentosos atores interpretam as três irmãs viúvas do único senhor que passou pela casa grande. De outro, três grandes atrizes mostram uma afiada leitura dramática em cena, criando um jogo dinâmico entre atores e personagens.

O texto inteligente da espanhola Laila Ripoll ganhou tradução pelas mãos de Hugo e Carmem Moretzon, que mostra a força cênica e a convicção de uma atriz com ampla trajetória. “A encenação tem um tom de realismo fantástico. São três irmãs que resgatam temas como solidão, velhice, amor e paixão. Tudo embalado com muito humor. A obra ressuscita o teatro de horror, o fantástico, só que em tom de comédia”, destaca Carmem.

Outro estilo de humor entra em cena por meio do grupo Setebelos, que tem Brasília como sua casa teatral há mais de uma década. Daniel Villas Boas, um dos integrantes da aclamada companhia de comédia, conta que, ao longo dos anos, o grupo misturou suas criações tradicionais às técnicas de stand up comedy, mostrando um humor com mais cara limpa, texto forte e dinâmico.

“A plateia brasiliense adora humor de qualidade. E é bastante receptiva e inteligente. Assim como nosso senso crítico foi ficando cada vez mais apurado, o do público, também”, destaca o ator. Para ele, um dos pontos principais para ver a casa sempre cheia é inovar constantemente.

O imortal, dos Irmãos Guimarães: densidade e adaptação literária(foto: Ismaek Monticelli/Divulgação)
O imortal, dos Irmãos Guimarães: densidade e adaptação literária (foto: Ismaek Monticelli/Divulgação)


Além disso, a consolidação de espaços culturais é outro ponto essencial. “Se cada bairro tivesse um bom espaço, teríamos uma maior proximidade com o público, o que facilita sua presença nos shows, cria um rodízio maior de espetáculos e uma cena mais forte na cidade”, lembra Daniel.

Profundidade e reflexão

A diversidade de estilos e temáticas é um ponto forte dos espetáculos em cartaz. Em O imortal, os Irmãos Guimarães adaptam um conto de Jorge Luís Borges para os palcos. Quem interpreta a personagem que traz à tona temas como a morte e o efêmero é Giselle Fróes, sob a direção de Adriano Guimarães.

Em cena, o destaque para a palavra em sua riqueza e amplitude. A visualidade do espetáculo ajuda a criar a atmosfera de reflexão e o cenário, todo feito em caixas de papelão, busca mexer com a imaginação do espectador.

“O ser humano é o único animal que tem consciência da própria morte e isso pauta muito do nosso comportamento e pensamento. É um pouco estranho de se pensar”, destaca Adriano. O texto forte aborda questões profundas e, apresentado em um monólogo, carrega uma atmosfera mais solitária e reflexiva para o palco. Aqui, o teatro exerce sua capacidade de criar diálogos, trabalhar com outras mídias, como o livro, e tratar de maneira visual temas mais filosóficos.



Simultaneamente, os quatro espetáculos em cartaz mostram a riqueza da produção brasiliense e a versatilidade dos diretores teatrais da cidade. Nomes importantes e jovens atores se misturam para dar vida aos personagens, sejam eles cômicos, ou sejam dramáticos. Cada companhia busca, à sua maneira, o vínculo mais forte para estabelecer com quem colabora para o acontecimento teatral a partir da plateia.


“A sala de ensaio aparece como útero de novos mundos e visões. A voz criadora de todos os criadores se junta à minha e à realidade que buscamos ouvir, reverberar” 
Jonathan Andrade


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