Publicidade

Correio Braziliense

Fotolata retoma as atividades em Brasília

Projeto criado por Zé Rosa retoma sua força a partir da vontade de manter vivo o legado criativo do fotógrafo


postado em 10/03/2018 07:33

Em um mundo de selfies, o processo artesanal da fotografia ganha novos olhares(foto: Diego Bresani/Divulgação)
Em um mundo de selfies, o processo artesanal da fotografia ganha novos olhares (foto: Diego Bresani/Divulgação)


O conjunto de latinhas recriadas e o trailer mágico de Zé Rosa, transformado em uma grande câmara escura, criaram um importante legado em Brasília. As latas viravam objeto de trabalho fotográfico com a técnica do pinhole no projeto Fotolata, que percorre escolas do Distrito Federal desde o ano 2000.

Em tempos de fotografia digital e em grande quantidade, a iniciativa chega de forma lúdica como grande aliada para despertar do olhar abstrato e atento dos estudantes. O Fotolata envolve professores e alunos no aprendizado da fotografia, entre ensinamentos técnicos e criativos.
 

Depois de percorrer milhares de escolas desde o início de suas primeiras oficinas, o projeto perdeu seu grande mestre, com a morte de Zé Rosa em 2014, aos 57 anos. Agora, em 2018, a iniciativa ganha nova força pelas mãos da viúva Gleice Rosa, que esteve por 15 anos com o fotógrafo, e Ádon Bicalho, um de seus fiéis assistentes. 

A vontade de manter vivo o projeto impulsionou o recomeço e entre fevereiro e março novas escolas receberam a visita do Fotolata. A ideia é resgatar os processos artesanais da fotografia.

“Quando conheci o Zé, ele tinha mais de 10 anos de projeto, já tinha construído o icônico trailer-laboratório e era conhecido pelos quatro cantos do DF, além de uma porção de outros pedacinhos do centro-oeste”, conta Ádon Bicalho, fotógrafo que conduz as oficinas atualmente.

Ele lembra que Rosa era extremamente generoso ao tentar difundir os princípios da fotografia pinhole como expressão artística. Nas escolas, o professor buscava constantemente novos protótipos de câmeras fotográficas e câmaras escuras para incorporar às oficinas e demonstrar os caminhos da luz aos alunos.

“Eu me encantava em ver como ele conseguia transmitir as ideias para perfis tão diferentes, desde alunos de escola pública a catadores, detentos do Caje ou os quilombolas do Vão das Almas. Passei a vê-lo como mestre, aprendendo a repetir seus caminhos gestuais entre as latas com furos e as bandejas de químicos fotográficos. Eu, literalmente, aprendi seguindo seus passos”, destaca o fotógrafo.

As oficinas

O trabalho passa pelas escolas com o nome de Fotolata – Arte e ciência, abordando a fotografia de forma interdisciplinar. As oficinas começam pelos fundamentos físicos na fotografia (ótica, caminhos da luz, imagem projetada invertida) para depois passar pela química (suportes fotossensíveis, reações químicas no papel fotográfico).

As aulas criativas são multidisciplinares e passam também por assuntos da matemática (ângulos, proporção, ampliação/redução), história (da fotografia e da própria humanidade) e artes (olhar, enquadramento, fotografia como meio de expressão e representação).

“O diferencial para o êxito do projeto é que tudo isso é passado de forma lúdica, através de processos de demonstração e interação”, conta Ádon Bicalho. A oficina começa com o questionamento sobre a fotografia nos dias atuais e passa por todos os seus processos artesanais de produção até chegar a impressão de 20 imagens feitas pelos próprios alunos, seguidas de uma exposição fotográfica.

Para Ádon, em um mundo de selfies, em que a fotografia exerce um ponto de saturação justamente pela facilidade em produzir imagens, muitas vezes, em gestos automáticos e impensados, o projeto funciona também como um resgate dos processos manuais e históricos, de uma fotografia artesanal produzida em outro tempo, é inevitável não dizer: mágica.
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade