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Correio Braziliense

Geovani Martins é nova aposta do mercado editorial brasileiro

O autor tem o livro de contos sobre personagens de favelas vendido para oito países. A primeira edição chegou a 10 mil exemplares


postado em 10/03/2018 07:33

O sol na cabeça fez sucesso na Feira de Frankfurt e os direitos de tradução foram vendidos para editoras de oito países(foto: Chico Cerchiaro/Divulgação)
O sol na cabeça fez sucesso na Feira de Frankfurt e os direitos de tradução foram vendidos para editoras de oito países (foto: Chico Cerchiaro/Divulgação)

 
 Quando criança, Geovani Martins nunca incluiu ser escritor no rol de profissões que poderia desenvolver no futuro. Não conhecia “ninguém que mexia com arte”. Nascido em Bangu, no Rio de Janeiro, ele cresceu na favela. E já morou em três delas. Notou que gostava de literatura e de histórias ainda menino. Decorava os quadrinhos da Turma da Mônica narrados pela avó, sua alfabetizadora oficial, e contava para a meninada na rua. Daí pra frente, os livros foram entrando para a vida de Geovani. Primeiro os best-sellers, de Dan Brown a John Grisham, depois os clássicos, de Machado a Drummond, este último um marco no deslumbre pela escrita.
 
Marco que agora assume proporções literárias, já que Geovani se tornou o novo queridinho da literatura contemporânea brasileira com O sol na cabeça. O primeiro livro do autor, reunião de 13 contos, chamou a atenção de Antônio Prata, que conheceu o escritor em uma mesa paralela da Flip e mostrou os originais para a Companhia das Letras que, por sua vez, gostou e viu potencial no carioca de 26 anos.
 
 

O sol na cabeça fez sucesso na Feira de Frankfurt e os direitos de tradução foram vendidos para editoras de oito países. Por aqui, sai em uma edição de 10 mil exemplares, o dobro do comum para o mercado editorial. Os direitos de adaptação foram comprados pelo produtor Rodrigo Teixeira e o cineasta Karim Aïnouz já seria o nome cotado para dirigir um futuro filme. Sobre o livro fazer sucesso, Geovani explica: “Acho que é porque foi feito com verdade e com inteira dedicação. Levei muito a sério esse trabalho, tive muitas preocupações na hora de escrever, de desenvolver. Eu ficava muito nisso da identificação, pensava que muita gente ia se identificar com isso e ia ver na literatura coisas que até então não tinha visto, ia se ver”.

As histórias de Geovani se passam na favela. No asfalto também, mas há sempre um personagem que desce ou sobe o morro de um Rio de Janeiro muito atual, muito cru e muito desigual. A tensão entre a polícia corrupta e os moradores, o trânsito de drogas morro acima e abaixo, a sensação de injustiça, discriminação e desigualdade, a raiva e a revolta marcam os personagem que, de propósito, nunca têm cor nem são descritos. “Eu quis fazer uma provocação. Se é uma história trivial, na rua, de alguém indo ao banco e você não fala a cor, todo mundo associa a pessoas brancas. Mas quando falo de uma história de cinco jovens que vão à praia e são parados pela polícia, todo mundo associa a pessoas negras”, explica. “E não é mentira, porque são coisas que pessoas negras estão sujeitas a passar.”

Rolézim é o conto que abre o livro e o de linguagem mais experimental. Geovani o escreveu em uma época de arrastões frequentes na praia, situações nas quais não importava ter culpa ou não, todo suspeito acabava detido. Narrado em primeira pessoa, o conto tem um ritmo alucinante. “O Rolézim meio que conceituou o livro porque eu experimento algumas coisas nele, mas sempre tentando manter a história como o que vai puxar o interesse do leitor para depois ele pensar na linguagem. A história por si tinha que se valer”, conta.

Em Espiral, o personagem fala sobre o “quanto é foda sair do beco” e sobre o abismo entre o morro e o asfalto. Há muita raiva contida, uma revolta que o próprio Giovani já sentiu e da qual hoje se distancia. “Depois de um tempo fui começando a perder o grilo com essas separações, pelo menos na minha vida pessoal. Hoje que tenho acesso a vários lugares, muitas vezes prefiro ficar por aqui do que frequentar lugares que, quando eu era criança, ficava vislumbrando. Mas o importante é poder circular, ter a escolha de ir ou não ir”, conta. “Espiral é isso, tem lugares que você não é oficialmente proibido de frequentar, mas a tensão causada pela sua presença é tão grande que você mesmo prefere não ir.” Hoje, Geovani fica com pena de ver como esse universo da favela é explorado de forma estereotipada ou ignorado, apesar da riqueza de narrativas estacionadas ali.

Mesmo assim, e apesar da situação atual de sua cidade natal, há esperança na escrita do autor carioca. Morador do Vidigal, “a favela mais cara do Rio de Janeiro”, ele enxerga a intervenção como um problema. Se antes os moradores do morro sabiam onde pisavam quando se deparavam com a Polícia Militar, hoje não têm ideia de como vão ser tratados. Agora, Geovani se concentra em escrever um romance sobre a Rocinha. Ou melhor, sobre habitantes dessa favela na época em que foram implantadas as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), das quais o escritor não é um grande entusiasta. “Separei o livro em três partes: expectativa, a instalação, quando eles invadem, e a transformação que acontece a partir disso. Mas o livro não é sobre a UPP e sim sobre como as vidas podem ser transformadas a partir de eventos como esse”, avisa.
 
Confira entrevista com Geovani Martins 
 
 Em Rolézim, um personagem fala: “quando eu vejo cana querendo muito trabalhar fico logo bolado”. Essa cena da tensão do encontro entre o morador da favela e o policial corrupto está em muitos contos. Como isso é uma constante na realidade brasileira? Como você lida com isso?
Lido com isso da melhor forma possível, não respondendo, evitando o contato e relatando. Acho que é o máximo que dá para fazer. A gente está numa situação complicada, as pessoas começaram a comparar os traficantes com os policiais. E a gente percebe que a PM deu errado quando ela começa a ser comparada com uma facção criminosa, porque os traficantes são declaradamente foras da lei, agora a PM é um órgão de segurança que tem como dever proteger a população. Ela ser comparada com os traficantes é a imagem perfeita de que a instituição não deu certo e que precisa ser revista.

Como está lidando com a intervenção? Seu cotidiano mudou?
Olha, sinceramente, eu moro no Vidigal, a favela mais cara do Rio de Janeiro, e a intervenção não chegou aqui. Vivo na maior tranquilidade. Só que eu vejo vários amigos que moram na Maré, no Jacarezinho, na Vila Kennedy que estão passando por perrengues. E aí fica essa questão: onde chega a intervenção? Pra mim, não chegou. E tenho quase certeza de que ninguém vai bater na porta da minha casa e entrar, como já entraram na Rocinha e em outros lugares. Moro num prédio, tem câmera, tem porteiro. Fico pensando que há seis meses isso estaria me aterrorizando de uma forma perturbadora.E eu sei que na rua, assim como meus personagens, estou sujeito a um monte de coisas.

Em um dos contos, um personagem é abordado pela PM, que decide que quem tem dinheiro demais ou de menos vai pra delegacia, e o protagonista pensa que vai ser difícil explicar que focinho de porco não é tomada. Com a intervenção, vai ficar mais difícil explicar que focinho de porco não é tomada?
Acho que sim, principalmente quando acontecendo pouco tempo depois da oficialização do foro privilegiado. No final do ano passado, teve aquela história de que qualquer crime que um militar cometesse seria julgado por outro militar. Por mais que isso seja só uma coisa simbólica, porque já era o que acontecia antes, é muito forte. A gente passa a vida lidando com a polícia militar na rua. Agora é como se você estivesse cercado e todo mundo vira suspeito. É uma situação diferente, com um tipo de poder diferente, um tipo de conversa diferente. Não sei como vai ser, mas acho difícil acreditar que vai ser tranquilo.

A frase que encerra o livro – “Agora, enquanto desce a ladeira pra chegar na saída do morro, só consegue pensar que tudo vai ser muito diferente” – é um vislumbre de esperança?
Acredito muito na possibilidade de ser diferente e acho que já tá acontecendo. Nos anos 1990, as perspectivas eram muito menores em tudo. No começo dos anos 2000, igual. Agora a gente está lutando, conquistando coisas em altas esferas, não só na literatura, mas na economia, nas artes em geral, nas relações internacionais. Tenho vários amigos que estão inseridos no mercado de trabalho, amigos da minha geração, mandando bem nessas profissões e a coisa tá mudando de alguma forma. Lógico que é uma mudança lenta, mas ela tá acontecendo e espero que seja cada vez maior. E o final do livro vai muito por esse lado da mudança.
 

O sol na cabeça
De Geovani Martins. Companhia das Letras, 120 páginas. R$ 34,90
 
 
 
 
 
 



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