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Correio Braziliense

Conheça projetos brasilienses que celebram a mulher em diferentes espaços

A criação artística e a produção cultural de Brasília são impulsionadas por elas


postado em 11/03/2018 07:32 / atualizado em 12/03/2018 14:36

O rap e o cinema são os focos do grupo Donas da Rima(foto: Festival Latinidades/Divulgação)
O rap e o cinema são os focos do grupo Donas da Rima (foto: Festival Latinidades/Divulgação)
 
Na semana em que se comemorou o Dia Internacional da Mulher, diversas iniciativas lembraram a data com programações especiais. Mas, ao longo do ano, existem projetos que se dedicam a celebrar e valorizar as mulheres em diversos âmbitos. Em Brasília, especialmente na área da cultura, não faltam exemplos. O Diversão & Arte foi atrás de algumas dessas iniciativas novas e outras tradicionais, que, têm comum, tem como objetivo o protagonismo feminino nos 365 dias do ano.


Maria Vai Casoutras
A força e a coletividade femininas são os principais pilares do grupo Maria Vai Casoutras
A força e a coletividade femininas são os principais pilares do grupo Maria Vai Casoutras
 
 
Com seis anos de história na capital federal, a banda de percussão Maria Vai Casoutras surgiu exatamente da necessidade da valorização da mulher na cena musical e cultural de Brasília. “Foi idealizado por três amigas e, a partir daí, fomos convidando outras meninas de vários estilos, do forró, do sertanejo, do samba e mesclando com a identidade de cada uma”, lembra Tatiana Valente Gushiken, uma das integrantes.

Atualmente, o grupo é composto por 12 integrantes e se apresenta em diversos eventos culturais da cidade, além de promover os próprios, como o bloco pré-carnavalesco que leva o nome da banda, que desfilou pelo quarto ano na Praça dos Prazeres, na 201 Norte. “Fazemos eventos diversos, desde casamento a eventos culturais em Brasília e também fora. O nosso objetivo é sempre de disseminar a cultura brasileira e valorizar a questão da mulher, que sempre foi um ponto desde a criação da banda”, revela Tatiana.
 

Além de atuar como uma banda de percussão, o grupo ainda tem um projeto social voltado para as mulheres vítimas de violência. Em parceria com a Secretaria da Mulher, o grupo Maria Vai Casoutras promove o Projeto Mais, uma iniciativa social em que a banda leva oficinas musicais e de bijuterias com materiais reciclados. “As oficinas são para resgatar a autoestima, algo que é bastante importante para as mulheres que sofrem violência doméstica. Desde que criamos a banda, tínhamos o intuito de estarmos vinculadas tanto a um projeto musical, como a um social”, explica.

As integrantes do Maria Vai Casoutras participam das oficinas quinzenalmente em uma casa de abrigo do Distrito Federal. “Além da nossa música, a gente gosta de trabalhar a valorização e o empoderamento feminino. Desde o início sempre foi uma prioridade, por sermos uma banda só de mulheres, mostrar a força feminina”, completa a instrumentista Tatiana. Hoje, a banda promove a Ressaca das Cores, no Outro Calaf (Setor Bancário Sul).

Cine Cleo
 
Criado no ano passado, inicialmente, da união de mulheres ligadas ao audiovisual brasiliense, o Cine Cleo é um projeto de cineclube voltado para a exibição de filmes feitos por mulheres brasileiras. “Surgiu de um coletivo de mulheres, a maioria delas tinham estudado cinema na UnB. A gente queria fazer alguns projetos voltados para as nossas produções, um lugar em que pudéssemos trabalhar juntos e pensar nessa estrutura patriarcal do cinema”, conta Natália Pires, produtora executiva e diretora de produção do Cine Cleo.

A menor projeção feminina e até a ausência de mulheres no cinema brasileiro foi o que incentivou o grupo, composto por 10 pessoas, a criar o Cine Cleo. “As mulheres não têm espaço de fala, principalmente, nas áreas mais técnicas, que são delegadas aos homens, como a parte de fotografia e de som. Às vezes, as mulheres não se sentem à vontade. A gente também percebe a ausência de mulheres diretoras em festivais. A nossa ideia era valorizar a produção e a direção”, explica Natália.

O nome do projeto tem inspiração em Cleo Verberena, considerada a primeira mulher a dirigir um filme no Brasil, o longa O mistério do dominó preto, de 1931, no qual ela também atuou. A intenção é valorizar a mulher que abriu as portas para as demais. “Acho que a importância do cineclube é ser um espaço de valorização das produções feitas por mulheres. Já existe uma dificuldade de exibição no Brasil, quem dirá de mulheres... No nosso caso, com o cineclube, ainda promovemos um debate após todas as sessões. A ideia é de criar um ambiente confortável para discussões de questões de gênero, além de dar visibilidade para realizadoras e técnicas”, completa a produtora executiva.

Quinzenalmente, às quintas-feiras, o Cine Cleo ocupa uma sala da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, no Conic, com a exibição de curtas e longas-metragens feitos exclusivamente por mulheres. O projeto consegue se manter graças à verba do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e também do incentivo das diretoras, cineastas e profissionais do cinema brasileiro: “Recebemos o apoio do FAC na categoria de desenvolvimento do cineclubismo, mas é um orçamento baixo. Na verdade, é bem difícil manter. Mas como é um projeto inovador, as pessoas são muito positivas. Elas cedem os filmes sem que a gente tenha que pagar por isso, até porque são exibições gratuitas. A gente conta muito com a colaboração das diretoras”.

Carnavalesca e teatro
 
 
Dayse Hansa mostra a força da mulher multitarefa enquanto multiplica projetos entre a produção e a gestão cultural. Diretora de produção do projeto Carnavalesca, Dayse esteve por anos à frente do Teatro Mapati. Além disso, produz o Arraiá Bocadim de Tudo, que já marca tradição na cidade e promove a discussão de direito de LGBTIs por meio da arte.

“Empreender em qualquer campo da sociedade enquanto mulher é sempre mais difícil, ainda mais enquanto mulher sapatão. Ainda há uma abismo muito grande quando consideramos e refletimos sobre equidade”, destaca. Nos projetos em que esteve à frente, Dayse busca abrir espaços para projetos de mulheres e com recortes racial e LGBTI.

A artista diz que, nos últimos anos, cresceu a tendência de que mulheres juntem esforços com outras em coletivos. “Acredito que chegamos a um nível de maturidade de movimento de mulheres criadoras e produtoras em que somos nós por nós.”


Donas da Rima
O Donas da Rima reúne seis mulheres do DF para falar de música e empoderamento feminino por meio das  canções. O mesmo coletivo criou a Dona Filmes, produtora audiovisual independente. A ideia é produzir cinema e chegar às telas de festivais e outras janelas de exibição com filmes que tragam uma nova perspectiva inclusiva, a do olhar feminino e periférico. Julyana Duarte é uma das integrantes e conta que gosta de estar à frente dos próprios projetos para ter liberdade e maior identificação com as suas causas.

“A produtora Dona Filmes tem como propósito difundir o trabalho de mulheres por meio do audiovisual. Além de tentar levar ao cinema nacional uma perspectiva das mulheres, afinal, nós ocupamos lugares importantes e construímos histórias que precisam ser registradas”, destaca Julyana Duarte.



Novena para pecar em Paz
A cena literária ganhou uma forte contribuição em 2017, com a junção de nove autoras que escreveram contos sobre mulheres em suas mais duras realidades. Cinthia Kriemler, escritora e organizadora da coletânea, afirma que a ideia era trazer à tona temas fora do comum. Sem rodeios, os contos falam de mulheres que sofrem perdas, que não se submetem,  que se separam, que passam por abusos sexuais e morais, por violência doméstica, que começam a se prostituir ainda meninas, que se reerguem sozinhas.

“Nossa antologia, Novena para pecar em paz, saiu bem com essa cara de realidade. Cada uma dessas autoras maravilhosas deu um recado, falou de uma ferida aberta”. Cinthia diz que as escritoras fizeram questão de destacar que a antologia se refere ao universo feminino contemporâneo. A união entra em destaque como grande aliada na força coletiva da produção literária. A autora destaca a importância: “Nenhuma mulher pode achar que caminhar sozinha é mais fácil. Aliás, ninguém pode”, afirma.
 

 

DUAS PERGUNTAS // Dayse Hansa

Como é empreender e estar à frente desses projetos sendo mulher?
Empreender em qualquer campo da sociedade enquanto mulher é sempre mais difícil, ainda mais enquanto mulher sapatão, mesmo no campo das artes e da produção cultural, setores que transparecem teoricamente uma desconstrução de preconceitos, ainda há uma abismo muito grande quando consideramos e refletimos sobre equidade. É óbvio que muito se avançou e por muita luta e de nós, mulheres. Lembro quando um grupo de mulheres artistas e produtoras daqui do DF se reuniu em 2010 para criar o coletivo Mulheres pela Cultura, havia uma angústia nossa que  infelizmente permanece nos dias atuais, sobre a pouca igualdade de oportunidades no campo profissional artístico e cultural no que se refere ao recorte de gênero.

O gênero já te trouxe alguma dificuldade nesse sentido?
É muito difícil você ver mulheres à frente de grandes produções, elas existem, mas se comparado à oportunidade que homens têm pelo simples fato de serem homens ainda é problemático.  Levarmos muito mais tempo para chegarmos em "pé de igualdade" com um homem no campo da produção, o nosso curso é muito mais longo do que o deles. É perceptível isso, é visível e é  doloroso. O que percebo, infelizmente, é que precisamos de mais tempo para consolidar nossas carreiras para conseguirmos assinar uma produção de um evento, um grande festival, por exemplo. Acredito que para chegarmos nesse ideal de equidade de oportunidades no campo das profissões no campo da cultura, primeiro a gente precise empoderar mulheres, precisamos ser plateia dessas mulheres. Consumir, ler, ouvir mulheres.

 


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