Publicidade

Correio Braziliense

Um dos maiores expoentes tropicalistas, Torquato Neto, tem filme em cartaz

Todas as horas do fim revela a doçura e a lucidez de um homem que buscou a própria morte


postado em 12/03/2018 07:44 / atualizado em 12/03/2018 09:45

Torquato Neto com o filho Thiago Nunes: amor acima de tudo (foto: Arquivo pessoal)
Torquato Neto com o filho Thiago Nunes: amor acima de tudo (foto: Arquivo pessoal)

 

No lugar de discórdia ou rompimento, ao abordar a descontinuidade do poeta e letrista Torquato Neto no Tropicalismo, em cena do documentário Torquato Neto — Todas as horas do fim, Caetano Veloso encoraja o uso de “quebra de sintonia”. Outro vetor do movimento cultural, Gilberto Gil dá a declaração da naturalidade com a qual “a vida constrói e destrói”, ao pinçar momentos da vida do antigo amigo. Sobre o possível reatar da amizade com Torquato, suicida, aos 28 anos, Gil, em depoimento, se entristece: “Não se deu a si nem a nós essa oportunidade”. Grosso modo, Caetano especula sobre embates de Neto com o fulgor do Tropicalismo, por uma defesa da integridade, pelo “medo de desabar sobre nós a vulgaridade da indústria cultural”.

 

Dissidente, símbolo libertário, impulsionador do novo para a música (avesso aos modismos dos “ismos”), excessivo e desregrado (o amigo Décio Pignatari atribui o “curto-circuito” de Torquato às mudanças geográficas regulares de vida), o teresinense, morto em 1972, se provou, como protagonista, um desafio para os documentaristas Eduardo Ades e Marcus Fernando. “Muitos conhecem a faceta obscura e impactante dele. Todos sabem que se matou, mas Torquato tem mais a oferecer do que a imagem de vampiro, de pessoa com dupla personalidade, como Tom Zé explica no filme. Dá para identificar dados solares e traços carinhosos e doces dele. Podia ser combativo, mas era amável e terno. Não dá para esgotar a vida de alguém num filme de 90 minutos”, observa o cineasta Marcus Fernando.

 

Rebeldia

 

O filme traz momentos múltiplos de Torquato, desde a indisposição com a mãe (pela letra de Mamãe, coragem), a intenção firme de ele promover poesia para além do aparato dos livros, as marcas da “severinidade” (dado o elemento “fisicamente seco”,  destacado por Gilberto Gil) e a habilidosa relação com a paternidade —  Thiago Nunes, o filho, aponta “pessoas” diferentes no pai (“a pessoa dele e o mito poeta”). “Não queríamos narração. Pretendíamos ter Torquato absolutamente em primeiro plano. Fomos ao primo George Mendes, que tem em uma sala inteira mais de 1,5 mil documentos digitalizados. Examinamos desenhos, textos datilografados e manuscritos e fotografias. Tratar da morte parecia algo inevitável. Ele traz mortes artísticas, reinvenções, “a morte” de deixar a família e a cidade tradicional, no Piauí, além das várias tentativas de morrer de verdade. Há uma tragédia”, explica Marcus Fernando.

 

A fase dos escritos para o jornal Última Hora — com a fervorosa coluna Geleia Geral —, os predicados descritos por amigos como Waly Salomão (Torquato seria uma releitura “agônica e brutalista” da mescla de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Décio Pignatari) e a paixão súbita pelo cinema, no relegado formato Super-8 (“fazendo o possível, quando era impossível”, à época dos tempos de chumbo) dão sustância à narrativa.

 

O cineasta Ivan Cardoso dá depoimento entusiasmado em torno da mítica presença vampiresca de Torquato Neto em algumas produções — mas deixa clara a indisposição com o ocasional adendo ao figurino do personagem para o qual escalava Torquato: as indefectíveis sandálias de couro usadas pelo letrista.

 

Gerido em cinco anos, o filme Torquato Neto — Todas as horas do fim ganhou muito, quando os cineastas tiveram acesso a 25 minutos de entrevista do artista piauiense com um radialista gaúcho, em material cedido para a produção e registrado em 1968. A edição de filmes dos anos 1960 e 1970, no longa, tem capricho forte e contempla a síntese dos cinemas novo e marginal. É uma boa entrada para a imagético que moldaria o “menino muito precoce que tinha inteligência de dar medo”, como lembra a madrinha Yara Cunha.

 

Codiretor do longa Torquato Neto — Todas as horas do fim, Marcus Fernando celebra os primeiros passos para a redescoberta do poeta, com iniciativas como o lançamento dos livros Essencial (De Italo Moriconi) e Melhores poemas (da editora Global). “Sinto que o discurso dele é muito forte e bate nos tempos que vivemos. A falta que ele faz nestes tempos de apatia, em meio a geleia geral em que não sabemos nem mais quem é o inimigo. Torquato traz o impacto calibrado com força e mais vivo do que nunca”, conclui.

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade