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Correio Braziliense

Projetos de artes cênicas entram nas escolas e encantam os alunos

A vivência cênica aparece como ponto de partida para que crianças e adolescentes experimentem a criação artística de maneira mais coletiva, lúdica e criativa


postado em 13/03/2018 07:10 / atualizado em 13/03/2018 09:54

(foto: Júnior Ribeiro/Divulgação)
(foto: Júnior Ribeiro/Divulgação)

 
Impulsionados pela vontade de compartilhar a criação artística em espaços de aprendizado, grupos de Brasília se reúnem para levar projetos de arte e educação às escolas. Além do desejo de formar um público mais diverso e consciente entre os teatros do Distrito Federal, a ideia é fomentar um ambiente mais participativo e convidativo nas casas de cultura. A vivência cênica aparece como ponto de partida para que crianças e adolescentes experimentem a criação artística de maneira mais coletiva, lúdica e criativa.

As ações se dividem em diferentes tipos de trabalho, como montagem de espetáculos  com alunos, estudo literário dos textos, pesquisa de temas atuais que envolvem as narrativas, mediação das histórias e apresentações. No projeto Mediato — Diálogo com espectadores, por exemplo, a ideia é trabalhar com foco na formação de público. Ao longo de uma semana, professores e estudantes são envolvidos nas mediações antes e depois de assistir a um espetáculo teatral, com transporte e ingressos gratuitos. A ideia é sensibilizar os espectadores antes do contato com a obra e provocar um desdobramento poético, reflexivo e criativo depois.

“Gosto de dizer que a mediação é uma espécie de educação estética, de educação dos sentidos. Logo, não exercitamos o sensível, e com ele o senso crítico, apenas para ver arte; exercitamos para ver o mundo”, destaca Arlene von Sohsten, coordenadora do projeto. Para ela, esse tipo de trabalho possibilita à criança encontro, desde cedo, diferentes maneiras de enxergar e experimentar o mundo. Além disso, os diálogos e reflexões criados a partir do palco proporcionam que cada aluno conheça melhor a saída mesmo através do outro, da obra e do artista.

“Recepção teatral é a minha paixão como pesquisadora. Hoje, muitos pesquisadores e artistas questionam-se quanto ao esvaziamento das salas de espetáculo”, lembra a produtora. Araci acredita que o projeto dialoga com essa preocupação e direciona todas as suas ações para adolescentes e jovens que não são frequentadores de espaços de arte.

Essa formação é trabalhada para além da gratuidade de ingressos, possibilitando que o espectador tenha prazer em debates relacionados à criação e, quem sabe, o desejo por novas experiências a partir do teatro. O Mediato já passou por escolas públicas do Gama, São Sebastião, Ceilândia, Riacho Fundo, entre outras regiões. “Minha experiência como artista começou no ensino médio em uma escola pública do Gama (a mesma que está recebendo o projeto agora) e o que me fez escolher esta área como profissão foi um projeto de teatro que houve na escola. Por isso, acredito no poder transformador da educação informal, sobretudo projetos de teatro”, destaca.

Teoria e prática

A partir de uma abordagem diferente, o projeto Vidas Secas trabalha com a montagem da obra de Graciliano Ramos com participação dos próprios alunos em uma escola de Planaltina. A ideia é estabelecer a conexão do teatro com a literatura e refletir, através da obra, sobre temas comuns ao cotidiano atual, como fome, miséria e relações de poder. “Isso faz com que os alunos compreendam a obra não só na parte literária, mas também na social. Enquanto isso, a prática teatral permite que eles desenvolvam disciplina e senso crítico”, destaca Júnior Ribeiro, diretor do projeto.

Para ele, quando uma montagem profissional adentra a escola, a perspectiva do aluno em relação a espetáculos teatrais é alterada. O aluno tem contato com todas as demandas executadas dentro e fora de cena, e aprende a valorizar cada etapa do trabalho. Eles aprendem sobre direção, atuação, sonoplastia, figurino, maquiagem. A presença no palco ainda colabora com a valorização pessoal de cada um.

“Cada aluno conhecerá o espetáculo desde o seu roteiro até o produto final, e serão protagonistas em cada área de atuação”, conta Júnior. Assim, eles valorizam a sua própria produção e aprendem a valorizar produções externas ao ambiente escolar. Os alunos se dividem entre os que cantam, dançam, atuam, operam luz, som, desenham cenários e figurinos, maquiam e escrevem.

O trabalho é essencial e o diretor conta que os alunos dessa escola, não têm o costume de frequentar teatros e assistir a espetáculos. A ausência ocorre pela distância da periferia ao centro, onde estão localizados os teatros, e onde há maior circulação de espetáculos culturais.

“Essas experiências podem incentivar os estudantes a seguir por outros caminhos. O protagonismo juvenil é a chave para que espíritos de liderança surjam dentro do ambiente escolar e alcancem outros espaços”, destaca. Para ele, a falta de vivência artística no ambiente escolar nos coloca num lugar de comodismo, gerando a falta de interesse pelos espaços teatrais.

Diversidade criativa

Enquanto isso, o Pulsada Popular investe nas danças populares para trabalhar expressão popular e a importância das tradições com alunos de Samambaia Norte. Entram em cena frevo, maracatu, coco, ciranda, xaxado, bumba meu boi e cavalo marinho, além de criação de adereços. A ideia é trabalhar de maneira conjunta a interpretação teatral, o ritmo e a musicalidade dos adolescentes, colaborando com o fortalecimento das relações sociais.

“Muitos alunos têm uma ideia de distanciamento em relação à arte, como se não fosse algo acessível. Tentamos trabalhar com o cotidiano para mostrar que esse espaço também é deles”, destaca Alan Mariano, um dos criadores do projeto. Alan lembra que muitos dos alunos nunca assistiram a nenhum espetáculo, tampouco conhecem as expressões culturais brasileiras. É nesse ponto que o trabalho nas escolas ganha ainda mais força.

O trabalho de arte-educação nas escolas cria um espaço importante de reflexão e fortalecimento de novas ideias. Alunos, artistas e professores compartilham experiências, entendem melhor o cotidiano e suas relações sociais. Os projetos se destacam ao mostrar a esses jovens que os espaços culturais estão de portas abertas para a ocupação. Uma cidade viva permite que seus habitantes se valorizem a partir de sua própria produção criativa. 

Três perguntas/ Arlene von Sohsten, coordenadora de projetos de arte-educação
 
Qual a importância de levar o teatro e as artes cênicas para as escolas, seja em oficinas, apresentações seja em cursos?
Pensar em mediação é pensar em educação dos sentidos para a vida, é instigar o educando a vislumbrar a multiplicidade dos modos de leitura das coisas do mundo. Além disso, o contato com manifestações artísticas e a reflexão a partir delas é uma forma privilegiada para se conhecer diferentes visões de mundo. Vale ressaltar ainda que em um dia (às quartas-feiras) levamos cerca de 400 estudantes a um espaço maravilhoso, que neste ano é o Teatro Sesc Paulo Gracindo no Gama, espaço este que é pouco ou nada utilizado pela comunidade, mesmo estando sempre aberto para recebê-los. Acho que esses estudantes tem a faca e o queijo, só não descobriram ainda a fome. Que, neste caso, seria o desejo de ir ao teatro, de descobrir que esse espaço está tão perto deles e de portas abertas.

Essa participação em escolas pode colaborar para a formação de um público que frequente o teatro e outras expressões artísticas?
Com certeza, esse é um dos objetivos do projeto e acredito que estamos caminhando nessa direção. Em vários países a formação de público é algo intrínseco ao processo de educação formal. As escolas têm efetiva parceria com os centros culturais que oferecem formação para professores, espetáculos durante todo o ano, transporte, programa educativo, dentre outras coisas. Assim, as instituições de ensino já compreendem o contato com obras de arte e a educação estética como parte fundamental do currículo escolar. Há muitas pesquisas hoje apontando para os benefícios (que extrapolam o âmbito artístico) desse tipo de iniciativa. Trata-se de uma política pública.

Os alunos têm costume de ir ao teatro, já assistiram a muitos espetáculos ou normalmente é um público que não tem essa vivência?
Uma das coisas mais emocionantes é quando perguntamos quem está ali, no teatro, pela primeira vez. Quase toda a plateia levanta a mão. Uma plateia de aproximadamente 200 estudantes. Além de gratificante, eventos como esse nos levaram a refletir sobre a resposta para duas grandes questões que afligem profissionais da arte e da educação. Durante a graduação escutei várias vezes: “Por que os teatros estão vazios, onde está o público?” E quando entrei na rede pública de ensino, passei me perguntar “por que estudantes (sobretudo de escolas públicas das regiões mais distantes do Plano Piloto) não têm  acesso a espetáculos de teatro?”  A resposta, ou melhor, uma possível ponte, está em projetos de formação de plateia que trabalham a curto e longo prazos. 

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