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Correio Braziliense

Aborto Elétrico, que originou Legião Urbana e Capital Inicial, faz 40 anos

Grupo abriu as portas para o punk na capital e revelou canções que se tornariam clássicas


postado em 13/03/2018 07:15 / atualizado em 12/03/2018 20:21

Renato Russo, Fê e Flávio Lemos(foto: Reprodução/Internet)
Renato Russo, Fê e Flávio Lemos (foto: Reprodução/Internet)

 
Foi em janeiro de 1980 que Renato Russo, Fê Lemos e André Pretorius subiram ao palco pela primeira vez com o Aborto Elétrico, no bar Só Cana, no Gilberto Salomão. A banda punk, que surgiu da empolgação de três adolescentes, mudou a música brasiliense e se tornou o ponto de partida para um movimento que alcançaria o país inteiro.

A história do Aborto Elétrico, no entanto, começa um pouco antes. Quarenta anos atrás, em 1978, quando os adolescentes Renato e Fê se conhecem em uma festa e se tornam amigos pelo improvável gosto em comum, o punk rock, movimento que já fazia a cabeça dos jovens na Inglaterra, mas era praticamente desconhecido no Brasil e em Brasília.

Além da paixão pelo punk, Renato e Fê tinham o desejo de fazer música e de ter a própria banda. “Quando conheci o Renato, eu encontrei um cara que também queria fazer uma banda de punk rock”, lembra Fê. Segundo o hoje baterista  do Capital Inicial, A vontade se materializou quando Renato recrutou o guitarrista sul-africano André Pretorius. “Então, juntou baixo, bateria e guitarra e a gente começou a ensaiar na Colina (área onde os professores da UnB residiam) no final de 1978.”


O nome

Foi também naquele ano que ocorreu a reunião que decidiria o polêmico e inusitado nome da banda. Muito se fala de uma possível lendária referência a uma moça que sofreu aborto depois de um choque de cassetete dado por um militar em uma manifestação contra a ditadura, mas, segundo Fê, a história é mais prosaica.

Renato, André e Fê marcaram uma reunião embaixo do Bloco A da Colina da UnB, onde a família de Fê Lemos morava, para decidir como seria batizado o grupo. Fê tinha ouvido falar de uma banda americana obscura chamada Electric Flag (Bandeira Elétrica) e a ideia da eletricidade ficou na cabeça.

“Tijolo elétrico”, sugeriu a Renato e André, que olharam com cara de “nem pensar”. Em um estalo, porém, o sul-africano rebateu com o novo nome. “O André deu um pulo e falou: ‘Vamos chamar de Aborto Elétrico’. E aí a gente se olhou e disse: ‘Esse é o nome’”, conta Fê.

No palco

Em 1979, o Aborto sofreu uma baixa. Pretorius voltou à África do Sul para servir o exército do país e a banda ficou sem guitarrista. “A gente procurou e tentou vários outros por uns seis meses, mas ninguém sabia tocar punk rock”, recorda Fê. No fim do ano, Pretorius veio passar o Natal em Brasília e os amigos se juntaram para tocar novamente.

Renato se esforçou e conseguiu o show no Só Cana. As histórias em torno da apresentação são muitas. Uma delas é de que Pretorius quebrou a palheta, cortou os dedos e tocou mesmo sangrando. Mais punk, impossível!

Fê Lemos vestia um casaco de lã por cima da camiseta e sentia muito frio. O baterista ainda não sabia, mas estava com sarampo. “Amanheci cheio de manchas vermelhas no corpo e, no dia seguinte, nós tocaríamos de novo, mas não nos apresentamos, para desapontamento do Renato e do André. Eles passaram lá em casa e eu estava debaixo de cobertor e disse que não conseguiria ir.”

Muito tímido, Renato ainda não cantava e o Aborto tinha cinco ou seis músicas instrumentais. “A gente repetiu umas três, quatro vezes cada uma e juntou uma galera que nunca tinha ouvido aquilo antes. Estavam lá amigos e o pessoal da Blitz 64, mas eram poucas pessoas que conheciam o Aborto até então.”

A apresentação no Gilberto Salomão foi a primeira e a única de Pretorius, que voltou para a África do Sul. Ele morreu em 1987 de overdose de heroína, já na Alemanha.

Muito barulho

O Aborto passou meses procurando um substituto para Pretorius, mas o que viria ser a clássica formação da banda surgiu quando Flávio Lemos, irmão de Fê, assumiu o baixo, Renato foi para a guitarra e, pronto, o Aborto podia se apresentar novamente.

Com a proposta de chegar e tocar, o Aborto fez barulho e chamou a atenção. O estilo era diferente do que se costumava ouvir e se conectava mais com a vivência dos jovens brasilienses naquele momento.

“Diferente do que a gente ouvia antes, que eram letras com coisas esotéricas ou sobre assuntos que você não entendia, o punk, com a sua urgência e com a questão da vida do jovem na cidade, falava mais diretamente a mim”, diz Fê.

O punk, assim como aconteceu na Inglaterra, se tornou uma música que dialogava com o contexto do momento e era uma alternativa aos estilos até então dominantes. “Nosso tema maior era elevar o indivíduo acima da massificação. Enquanto a juventude se perdia na mesmice da discoteque, nós nos propúnhamos a trabalhar com ideias. Sim, porque os punks lidam com ideias. Nossas letras falavam de aborto, sexo, política, droga, violência, hipocrisia”, destacou Renato Russo em uma entrevista ao Correio, em 1983.

Rock visceral 

Autor de O diário da Turma, 1976-1986: A história do rock de Brasília, Paulo Marchetti acredita que o punk ganhou força por se aproximar mais dos jovens naquele período, até porque o rock antes estava cada vez mais complexo e elaborado.

“O punk quebrou isso. O rock começou a ficar chato, muito barroco, cheio de fru-fru. Tudo muito difícil e distante do público, do moleque roqueiro que tinha sonho de também ser roqueiro. O punk veio com a ideia de ‘só quero fazer um som’ e mostrou que bastavam poucos acordes para fazer algo legal”, avalia Marchetti, ele mesmo vocalista de um dos grupos do anos 1980, o Filhos de Mengele. 

Baixista da Plebe Rude e amigo de André Pretorius e Fê Lemos, André Mueller também reconhece no Aborto um grupo que abriu portas para as novas bandas. O Aborto mostrou que era possível fazer algo naquele momento que não era MPB e que era música para os jovens. Vivíamos numa época em que ou você era de esquerda e fazia MPB ou era um caretão de direita, não existia meio termo. Os punks sempre foram a terceira via (ou via nenhuma). E o Aborto era isso.”

Autor do livro Renato Russo — O filho da revolução, o jornalista Carlos Marcelo acredita que o Aborto fez o rock de Brasília entrar em uma nova fase. "Até então as bandas eram mais influenciadas pelo som progressivo e pela MPB. O Aborto estabelece uma conexão direta com o que estava acontecendo lá fora, com a crítica social e política, e isso é expresso nas letras", explica. 

Foi no verão entre 1981 e 1982 que o Aborto começou a ruir. Fê e Flávio Lemos viajaram para passar as férias e Renato ficou em Brasília. Em janeiro de 1982, lembra Fê, houve um convite para o Aborto tocar em um festival e Renato topou mesmo sem os parceiros de banda na cidade.

Outra estrada

Era o início do Trovador Solitário, dos shows que Renato fez só com voz e violão e que tinham canções como Faroeste caboclo e Eduardo e Mônica. Quando Fê e Flávio voltaram das férias, Renato já não queria mais tocar na banda.

Na opinião de Fê, Renato queria alcançar um público maior. “O que eu acho é que o Aborto era muito querido pelos fãs, mas fora deles não era bem-visto pela comunidade cultural brasiliense”, acredita. “Renato entendeu naquele momento que ele já era maior que o Aborto e que o Aborto era uma camisa de força para ele como artista. Ele percebeu que já tinha condições de andar com as próprias pernas e fazer a banda dos sonhos.”

Carlos Marcelo aponta que o Aborto, para Renato, foi uma etapa. "Ele percebeu que era preciso absorver influências mais variadas em sintonia com o que acontecia lá fora, ele acompanhava o movimento internacional e ampliou suas referências. O Aborto é uma pedra fundamental, um alicerce, mas tinha um momento para acabar."

Flávio e Fê se juntaram ao guitarrista Ico Ouro Preto e seguiram ensaiando. Num show marcado para o Centro Olímpico da UnB em 1982, Ico não apareceu. Tinha medo de palco e desistiu de tocar. O local estava cheio e Renato fazia parte do público.

Fê chamou Renato para tocar com o Aborto uma última vez. E Renato topou. “Foi uma catarse, um momento épico. Pela primeira vez, a gente viu um grande público para uma banda que costumava tocar na calçada. Todo mundo cantou Que país é esse?. Foi um final bonito e emocionante. O Aborto ali cumpriu o seu papel na história da música brasileira”, detalha Fê. “A partir daí, o que cabia era começar uma nova banda, não parar, não desistir, mas tocar e criar um novo grupo, e foi isso o que aconteceu com o Capital Inicial e com a Legião Urbana.”
 
Entrevista/Fê Lemos 
 
 
(foto: André Carvalheira/divulgação)
(foto: André Carvalheira/divulgação)
 
Quando Fê Lemos voltou da Inglaterra, em 1978, com os discos de punk na bagagem, logo se juntou a Renato Russo no sonho de criar uma banda de rock em Brasília. O Aborto Elétrico durou pouco, mas não poderia ter dado tão certo. Abriu portas para diversas bandas, fundou o punk brasiliense e dele saíram Capital Inicial e Legião Urbana, que estouraram nacionalmente nos anos 1980. Em entrevista ao Correio, Fê lembra diversas passagens e detalhes daquele período, do início ao fim do grupo que mudou (e moldou) o rock brasiliense.

Como vocês se juntaram na banda?  Você, Renato e André Pretorius...
Quando eu conheci o Renato, eu encontrei um cara que queria fazer uma banda de rock. E eu também queria tocar. A gente queria fazer uma banda, mas ela só se materializou quando o Renato conheceu o André Pretorius, porque o André tocava guitarra e também queria fazer uma banda. Então, a gente começou a ensaiar na Colina no fim de 1978.

A ideia e a gênese do Aborto vêm no fim de 1978, então...
Vêm exatamente do encontro desses três amigos. Foi no segundo semestre de 1978 que a gente teve a reunião em que decidimos pelo nome da banda e os primeiros ensaios também aconteceram no final de 1978.

Por que o punk conquistou vocês? E como a atitude do punk se relacionava com aquele período de ditadura e tudo mais?
No meu caso, era um jovem e ouvia rock progressivo antes, ouvia heavy metal, ouvia Beatles, (Rolling) Stones. Estava muito ligado a isso, mas quando eu ouvi punk pela primeira vez, eu fiquei em choque, porque era uma música tão simples e direta. Na primeira vez que eu ouvi Ramones, achei ruim, mas quis ouvir de novo e ouvi mais três vezes e aí já não estava mais achando ruim. Pelo contrário, estava sentido a urgência daquele rock e a ligação dele com aquilo que eu estava vivendo. Assim foi com o punk rock na Inglaterra. Eles tinham uma ligação com o tempo que a gente estava vivendo.

Essa urgência do punk tinha a ver também com o que vocês queriam dizer?
Sim. Aí as letras falavam sobre a vida daquele momento, eram coisas diretamente relacionadas com a sua vida. Diferente do que ouvia antes, que eram letras com coisas esotéricas ou sobre assuntos que você não entendia diretamente. O punk falava mais diretamente a mim. Em Brasília, quando o Renato começa a cantar, em 1980, as letras dele também são urgentes, são sobre a cidade, sobre o contexto político e social. A gente conseguiu, com o Aborto, criar uma banda com som punk, original, inspirada naquelas, mas, com um texto que era brasileiro, aí vem o grande mérito do Renato. Além da crítica, havia questões existenciais, ditas de uma maneira que eu nunca tinha ouvido no rock brasileiro.

Fala-se muito das histórias da baquetada e da letra de Química como fatores para o fim da banda...
Aquilo era bobagem. Inclusive, a baquetada aconteceu no final dos anos 1980, bem antes do fim mesmo. E foi um evento menor na nossa história. Foi só uma briga entre amigos. Eu, claro, me arrependo muito até hoje, não acho que tenha que jogar nada em ninguém, não é por aí. Mas o Renato era um cara extremamente difícil. Nesse dia, em particular, ele sumiu e me deixou com o Flávio montando equipamento e depois ele apareceu com a tal oração para o John Lennon. Eu pensei: “Que filho da mãe, podia ter falado com a gente”. Então, nessa história, eu também vi que o Renato tinha agenda própria. Mas, de novo, a baquetada não tem nada a ver com o fim da banda. 

Com o último show no Centro Olímpico, em 1982, vocês definiram que não continuariam sem o Renato, de fato, e começaram um novo caminho...
Com esse show ficou claro que sem o Renato não existia Aborto, sem ele, que era o principal autor, o cara da voz, era uma banda sem carisma. O que cabia era começar uma nova banda, não parar, não desistir, mas tocar e criar um grupo novo e foi isso o que aconteceu. Quando a gente começa o Capital, não tem nada a ver com o Aborto. Já é algo mais funkeado, com guitarras limpas. O Capital começa a criar uma nova sonoridade que eu achava mais bacana. Então, não fica um peso por isso, mas claro que fica uma perda pelo fim do relacionamento diário com o Renato. 
 
Artigo// O zeitgeist dos anos 1970 em Brasília 
 
Por Olímpio Cruz Neto
Especial para o Correio 
 
Em junho de 1977, estudantes da Universidade de Brasília decidiram promover um ato para lembrar a morte do estudante Edson Luiz, assassinado por policiais militares em 28 de março de 1968 no restaurante estudantil do Calabouço, no Rio de Janeiro.

O reitor da UnB, o capitão de mar-e-guerra José Carlos Azevedo, literalmente a mão de ferro da ditadura militar no câmpus, não teve dúvidas. Acionou a polícia para reprimir de maneira hostil o protesto. Reza a lenda que uma estudante, agredida pela PM naquele momento, acabou sofrendo um aborto por conta da violência desmedida. A lenda serviria de pretexto para batizar a banda que é o zeitgeist desse período: o Aborto Elétrico.

O ambiente de brutos coturnos, batidas da polícia do Exército e repressão severa foi o caldeirão para a primeira manifestação artística genuína do cerrado: o rock brasiliense. À frente desse turbilhão sonoro e de ideias, Renato Russo nem sabia, mas já era o mais original autor do rock brasileiro.

Antena de sua geração, Renato escreveria, a partir de 1978, alguns dos versos mais contundentes da juventude pós-64, denunciando o ambiente de terror e saudando os novos tempos advindos com os estertores da ditadura.

Nascido no Rio, Renato Manfredini foi criado na 303 Sul, em Brasília, a partir de 1973, no auge da ditadura militar. Chegou justamente quando “desaparecia” o líder estudantil Honestino Guimarães, assassinado nos porões dos quartéis.

O Aborto Elétrico é a mais perfeita síntese do espírito punk em terra tupiniquim, aliando a rebeldia e inquietude juvenis ao desespero para desvelar os olhos e ouvidos àqueles que nem sabiam, mas precisavam respirar novos ares.

Muitas das canções mais fortes da primeira geração do rock brasiliense a ganhar o país nos anos 1980 foram compostas entre 1978 e 1982. Renato fez nesse período Música urbana e Fátima, ambas gravadas pelo Capital Inicial, Tédio (Com um T bem grande para você), Geração Coca-Cola e Que país é este?, do repertório inicial da Legião Urbana, e outras pérolas. Todas realizadas quando o jovem Manfredini tinha entre 18 e 22 anos.

A canção mais impactante do Aborto, na minha opinião, nem está entre as mais tocadas, mas mostra um jovem absolutamente sagaz e genial. Trata-se de Conexão amazônica, cujos versos iniciais revelam um poeta conectado com o espírito do seu tempo: “Estou cansado de ouvir falar/ Em Freud, Jung, Engels, Marx/ Intrigas intelectuais rodando em mesa de bar...” Entre gritos de ié-ié-ié e tambores tribais, o recado é direto: “Uma peregrinação involuntária talvez fosse a solução/ Autoexílio nada mais é do que ter seu coração na solidão”.

Difícil encontrar alguém, mesmo agora, capaz de cometer poesia tão certeira e contundente, soando original e ao mesmo tempo tão sensível. As letras de Renato são uma aposta na inteligência da juventude, arriscando uma cumplicidade graciosa com o ouvinte. É isso que explica por que, 40 anos depois de realizadas, as canções do Aborto Elétrico não envelheceram e seguem ainda tão populares.

* Olímpio Cruz Neto é autor do livro Playlist – Crônicas sentimentais de canções inesquecíveis, à venda na Amazon
 
Depoimento// No aborto, a luz

Por Paulo Pestana
Especial para o Correio 
 
O Gilberto Salomão era o que havia. Boates, bares e restaurantes movimentavam o centro comercial, ainda uma construção simples, quase acanhada. Os bacanas iam ao Gaff; os descolados, ao Kako ou Shalako, os jovens e duros se satisfaziam com as batidas do Só Cana.

Foi na frente daquele muquifo que o punk rock deu as caras em Brasília. Sem anúncio, três rapazes montaram instrumentos e aparelhagem, filaram uma tomada e tocaram com uma fúria que não conhecia paralelo naqueles dias — no final, pouco mais de meia hora depois, se anunciaram: nós somos o Aborto Elétrico.

Ninguém entendeu muito bem. O Só Cana era uma espécie de centro de abastecimento de coragem para quem iria tentar a sorte com as mocinhas — a bravura vinha em copos plásticos; não era lugar para ouvir música. E ninguém tinha a menor ideia do que era punk.

Mas tinha claque. Com o trio vieram mais algumas pessoas da tribo que provocaram uma pacífica arruaça com uma dança meio estabanada. Os outros frequentadores pararam para ver e ouvir aquela gente estranha. Mas ninguém dançou.

Por muitos anos, Renato Russo — o baixista daquela formação — espalharia que o guitarrista André Pretorius tocou com a mão direita sangrando porque estava sem palheta. Pode ser verdade, mas a audiência não notou. O baterista era Fê Lemos.

Não há maiores registros daquela apresentação. O repertório foi emprestado dos punks ingleses, o som era muito ruim, praticamente inaudível, mas o objetivo foi atingido: fazer barulho, bagunçar o coreto. 

Aliás, mais tarde, no antigo coreto do Gilberto Salomão — que não existe mais — outras bandas punk estrearam.

Com o nascimento do Aborto, surgiu uma legião de punks — de uma hora para outra, cabelos foram coloridos, rostos eram furados com piercings, garotos passaram a usar maquiagem, garotas saíam com roupas rasgadas; como pombos, andavam em bando.

Os shows continuaram sendo feitos sem aviso e quase sempre para o mesmo público; a face mais visível do grupo eram as pichações espalhadas pelas superquadras da Asa Sul — AE. Era a retomada da estratégia de um grupo seminal do rock brasiliense, que deixava sua marca nos muros da cidade: A Margem.

Nunca mais vi o Aborto Elétrico; anos depois, Russo já tinha a Legião Urbana e os irmãos Lemos criaram o Capital Inicial com Dinho Ouro Preto. Mas aí a história era bem outra, e as bandas procuravam uma linguagem própria — a chama punk ainda iluminava, mas não queimava mais. Mas foi desse aborto que nasceu o chamado rock Brasília.

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