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Correio Braziliense

Série de debates Diálogos Contemporâneos traz filósofos a Brasília

Ciclo de encontros e palestras traz a Brasília artistas, escritores, filósofos e antropólogos para refletir sobre questões contemporâneas


postado em 13/03/2018 07:20

Viviane Mosé vai falar sobre informação e internet(foto: Marcio de Souza/TV Globo)
Viviane Mosé vai falar sobre informação e internet (foto: Marcio de Souza/TV Globo)

Um grupo de 11 intelectuais, escritores e artistas se reúne a partir de hoje, em Brasília, para propor reflexões críticas sobre o futuro do Brasil. O ciclo de encontros Diálogos Contemporâneos vai levar ao auditório do Museu Nacional da República nomes como Marcia Tiburi, Mirian Goldenberg, Vladimir Safatle, Renato Janine Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão e Jessé de Souza, além da ativista indígena Célia Xakriabá e da pesquisadora Djamila Ribeiro.

O ciclo tem início hoje e segue até 12 de junho, com palestras e debates semanais ao longo dos próximos dois meses. Idealizado por Nilson Rodrigues, da Associação dos Amigos do Cinema e da Cultura, e viabilizado com verbas de emenda parlamentar, o evento pretende colocar em pauta algumas das questões políticas e sociais que têm movimentado o cotidiano brasileiro.

Quem abre os trabalhos hoje é Marcia Tiburi, autora de Como conversar com um fascista e do recém-publicado Feminismo em comum. Ela vai falar sobre internet e sobre os “tempos sombrios” no campo da ética e nas redes sociais. A ideia é aprofundar a compreensão sobre o que a filósofa chama de personalidade autoritária que tem crescido ultimamente. O discurso do ódio e a liberdade de expressão na democracia e no autoritarismo são alguns dos tópicos a serem abordados. “A internet representa hoje um desdobramento da sociedade. É mais do que um meio, mais do que um aparelho, tornou-se uma ‘arena’ onde as armas têm outra qualidade, outra velocidade, outras potencialidades. Certamente estão em jogo as narrativas, mas por trás delas os mesmos velhos jogos de poder e cada vez mais arcaicos”, explica.

Depois de Marcia, é a vez de Renato Janine Ribeiro. Professor de ética e filosofia política na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), ministro da educação entre abril e setembro de 2015, durante o governo de Dilma Rousseff, o filósofo vai falar sobre educação no Brasil contemporâneo. Educação básica é, para Janine, o ponto decisivo em um eventual projeto real de política pública para a área. O Brasil, ele lamenta, desperdiça talentos e nega oportunidades para pessoas que podem ser muito competentes, mas esbarram em um sistema construído para manter as desigualdades.

“O Brasil não foi feito, no período colonial, e mesmo depois, para ser um país justo. Ele foi feito para ser um país desigual”, garante Janine. “Você tem ainda, no Brasil, muita gente que gosta e se beneficia da desigualdade. Fazer uma livre concorrência de todas as pessoas significa que quem tem privilégios vai perder privilégios. Se você der uma educação básica igual para todos vai ter muitos talentos novos surgindo dos meios mais pobres e competindo com gente rica que tinha certeza de ter garantia na universidade, de empregos muito bons e que podem ser inferiores em termos de capacidade a uma pessoa pobre que tenha tido educação”.

Janine acredita que houve um momento na história recente do país em que temas como a educação básica foram priorizados, especialmente nos governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff. “Antes disso, essas questões não eram tão importantes na ação dos governos e hoje estamos numa crise. Então você tem 500 anos em que esses assuntos não foram importantes e 20 e poucos em que tiveram, de fato, um protagonismo. Vencer todas as dificuldades legadas pelo passado é muito difícil”, avalia.

Além da pouca importância dada às políticas públicas, Janine também destaca que o brasileiro, de maneira geral, dá pouca importância à educação. “Você vai, por exemplo, para as novelas: é quase impossível você ver um personagem falando de educação, um professor em condição positiva, leitura de livros. Nada disso é prestigiado no Brasil, independentemente da classe social. É uma falta de projeto do país, e um projeto desses jamais seria feito só pela elite, mas nossa elite conseguiu se encastelar muito bem e ela não fomenta esse tipo de projeto”, diz.

Em abril, a filósofa Viviane Mosé, autora de A escola e os desafios contemporâneos, estará no encontro para falar sobre sociedade em rede e declínio das mídias tradicionais. Para ela, a internet vai ter papel fundamental nas próximas eleições brasileiras. “Domina quem mais manipula, distorce”, acredita Viviane. “A sofisticação deste sistema de manipulação da opinião pública tem gerado um sistema perverso absolutamente fora de controle. A imensa maioria das informações que são consumidas é falsa. Filtrar uma informação está cada vez mais difícil, exige uma complexidade de raciocínio que não temos, pensamos em linha quando o mundo já se estrutura em rede.”

A filósofa e poetisa acredita que o melhor lugar para se informar é mesmo a internet, mas é importante não reduzi-la às redes sociais. Tempo, paciência e capacidade de interpretação são necessários diante das informações que circulam na rede. E desconfiar de conteúdos compartilhados é sempre uma boa postura.
 
Duas perguntas / Marcia Tiburi 
 
Qual o limite entre liberdade e autoritarismo na internet?
O limite é bem simples, mas as sociedades e subjetividades autoritárias não querem reconhecê-lo. Limites não ajudam o autoritarismo. Imagine limites aos abusos de poder, aos autoritarismos, limites às violências cometidas à Constituição. Essa é uma questão que precisamos levar em conta. Por que perdemos os limites? Certamente porque interessa a muitos, sobretudo aos donos do poder.

Pela maneira como está sendo configurado o mapa eleitoral de 2018, você acredita na possibilidade de real renovação política?
Renovação? Não. Não nesse momento. A ideia de “renovação” é velha. Faz parte de um discurso político que já virou clichê, tópico básico dos discursos retóricos, de enganação. Uma transformação mais radical vai demorar, se é que vai acontecer. Sendo muito realista, o que podemos por enquanto é buscar resistir ao autoritarismo, o que significa resistir ao neoliberalismo econômico, o que não é fácil, tendo em vista o compromisso que o governo golpista desenvolveu em relação ao capital estrangeiro. Para melhorar nosso país, econômica, política e culturalmente, teríamos que investir em qualidade de vida, bem-estar social e educação, tudo o que não se faz em nome do rentismo que domina a economia e a política servil de nosso tempo. Temos, contudo, que pensar utopias e lutar em seu nome.
 
Duas perguntas / Renato Janine Ribeiro
 
 
Fora a educação pública, não temos também um problema estrutural na educação no Brasil de forma geral? Nossos índices internacionais, como o PISA, por exemplo, são sempre muito ruins…
Sempre. É um problema grande no Brasil e não sei qual a dimensão. Existe uma falta de projeto muito grande por parte da elite brasileira. Se você comparar com Estados Unidos e França, verá que as elites fizeram projetos muito bem estruturados para seus países. Fizeram e conseguiram, também com muita luta dos mais pobres, mas os pobres também se empenharam e você acabou tendo países mais desenvolvidos. O Brasil ficou muito parado num processo muito antigo.

Em seu livro A boa política, conjunto de ensaios recém-lançado, você escreve sobre as diferenças entre liberalismo e socialismo e diz que pode haver migração entre eles. O que é preciso para conseguirmos fazer isso?
Primeiro seria bom termos autênticos liberais no Brasil, gente que defenda igualdade de oportunidades. Os nossos se dizem liberais, mas apenas são contra a intervenção do estado. Eles aceitam o poder econômico, o poder religioso, o poder irrestrito da família, mesmo quando são abusivos. Esse é um erro cognitivo gigantesco. Mas não é só por falta de instrução e educação, é porque convém. Isso acaba sendo um retrocesso, porque só mantém o que está ali. O capitalismo é apenas um instrumento de produzir mais. Para ser moralizado, foi preciso muita luta sindicalista e hoje muita luta ambiental, porque ele atropela os direitos sociais e o meio ambiente. As sociais-democracias conseguiram isso. Na Europa Ocidental, mesmo os governos de direita mantêm a estrutura de serviços públicos que garantem a igualdade.
 
 

SERVIÇO
Diálogos Contemporâneos
De hoje a 12 de junho, no Museu Nacional da República (algumas palestras serão realizadas também na Universidade de Brasília, confira a programação). Entrada franca
 
 
 
 


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